No limite de uma quinta, na orla de um bosque, uma caravana. Ele, o seu habitante, refugia-se nesse não-lugar, “casa provisória, íntima e ao mesmo tempo exposta”, para onde traz várias mulheres. Durante os quatro Actos de Caravana, pontuados pelas fases da Lua, Ele e as personagens femininas, identificadas como Ela, Rapariga e Mulher, confrontam-se; as suas interacções escondem mais do que revelam, mascaram-se, desencontram-se. Através de diálogos curtos, entrevêem-se mágoas e estratégias de sobrevivência afetiva. Em Caravana – galardoada com o Prémio de Teatro Carlos Avilez SPA/Teatro Aberto 2025, e que João Pedro Vaz transporta para a cena –, a linguagem trabalha a coloquialidade, aproximando-a do quase improviso; constrói-se por repetições, ecos, falas cruzadas de duas solidões paralelas, que querem poder reencontrar-se. Será a caravana não apenas um casulo, mas um laboratório onde se ensaia uma nova vida? Para João Luís Barreto Guimarães, o centro da peça talvez resida nesta ideia: “Às vezes, só o jogo quotidiano, só a possibilidade de vestir uma máscara permite voltar a dizer a verdade.”