EN


Quantos ciclos de comédia enquanto género cinematográfico se vêem por aí? Poucos, muito poucos, sintoma de como o humor ainda é visto, redutoramente, como mero “entretenimento” ou forma de alienação (o que em si mesmo nada tem de pernicioso, diga-se em qualquer caso). Num tempo marcado pela incerteza, a escalada militar, a polarização e um sentimento crescente de medo colectivo, fazer comédia nos nossos dias é, de certo ângulo, um ato político; e rir é, podemos dizê-lo, mais do que um gesto profundamente natural e humano, um autêntico ato de resistência contra a normalização da violência, do autoritarismo e do desespero. É neste contexto que se propõe a realização de um ciclo de cinema dedicado a Mel Brooks (ainda vivo), de quem se celebram 100 anos em 2026, uma das grandes - mas mal-amadas - figuras da história do cinema cómico. Na dupla condição de realizador e ator dos seus filmes, Brooks construiu uma obra singular que alia o humor desregrado e despretensioso ao comentário e sátira políticos e culturais. Dialogando de forma direta com a história do cinema, através de uma paródia de géneros clássicos (musical, western, terror, suspense, policial), e desmontando os códigos do cinema clássico e popular (que, importa sublinhar, ele ama e admira), Brooks mostra como as imagens moldam o nosso imaginário colectivo e como o humor pode expor os mecanismos do poder, propaganda e exclusão. Herdeiro da escola slapstick e da comédia verbal clássica (dos irmãos Marx à tradição da stand-up comedy), o norte-americano atualizou esse legado para o cinema moderno, satirizando o totalitarismo, o racismo, a ordem e os mitos que a sustentam, bem como denunciando a ganância e as hierarquias sociais, desta forma continuando a interpelar, pois, o nosso presente. O riso não banaliza o horror, antes o desarma e subtrai-lhe o seu poder simbólico - ou, nas suas palavras, "a comédia destrói a dignidade do inimigo". Noutros casos, porém, interessa-lhe a piada pela piada, o chiste pelo chiste, a desfaçatez por si mesma. O seu humor é, por isso, excessivo, provocador e, frequentemente, desconfortável, justamente porque se recusa a ser neutro ou inofensivo. Revisitar a sua obra é não apenas celebrar o centenário do seu autor, mas, também, reafirmar o valor da liberdade, da inteligência crítica e da capacidade de rirmos dos outros e de nós mesmos. Rir, apesar de tudo. — Francisco Noronha
More info
Quantos ciclos de comédia enquanto género cinematográfico se vêem por aí? Poucos, muito poucos, sintoma de como o humor ainda é visto, redutoramente, como mero “entretenimento” ou forma de alienação (o que em si mesmo nada tem de pernicioso, diga-se em qualquer caso). Num tempo marcado pela incerteza, a escalada militar, a polarização e um sentimento crescente de medo colectivo, fazer comédia nos nossos dias é, de certo ângulo, um ato político; e rir é, podemos dizê-lo, mais do que um gesto profundamente natural e humano, um autêntico ato de resistência contra a normalização da violência, do autoritarismo e do desespero. É neste contexto que se propõe a realização de um ciclo de cinema dedicado a Mel Brooks (ainda vivo), de quem se celebram 100 anos em 2026, uma das grandes - mas mal-amadas - figuras da história do cinema cómico. Na dupla condição de realizador e ator dos seus filmes, Brooks construiu uma obra singular que alia o humor desregrado e despretensioso ao comentário e sátira políticos e culturais. Dialogando de forma direta com a história do cinema, através de uma paródia de géneros clássicos (musical, western, terror, suspense, policial), e desmontando os códigos do cinema clássico e popular (que, importa sublinhar, ele ama e admira), Brooks mostra como as imagens moldam o nosso imaginário colectivo e como o humor pode expor os mecanismos do poder, propaganda e exclusão. Herdeiro da escola slapstick e da comédia verbal clássica (dos irmãos Marx à tradição da stand-up comedy), o norte-americano atualizou esse legado para o cinema moderno, satirizando o totalitarismo, o racismo, a ordem e os mitos que a sustentam, bem como denunciando a ganância e as hierarquias sociais, desta forma continuando a interpelar, pois, o nosso presente. O riso não banaliza o horror, antes o desarma e subtrai-lhe o seu poder simbólico - ou, nas suas palavras, "a comédia destrói a dignidade do inimigo". Noutros casos, porém, interessa-lhe a piada pela piada, o chiste pelo chiste, a desfaçatez por si mesma. O seu humor é, por isso, excessivo, provocador e, frequentemente, desconfortável, justamente porque se recusa a ser neutro ou inofensivo. Revisitar a sua obra é não apenas celebrar o centenário do seu autor, mas, também, reafirmar o valor da liberdade, da inteligência crítica e da capacidade de rirmos dos outros e de nós mesmos. Rir, apesar de tudo. — Francisco Noronha
Share
FB
X
WA
LINK
Relacionados
From section