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Rádio Jardim: diz-me o que ouves, dir-te-ei que cidade és
Criada em 2025, a rádio móvel comunitária promove emissões regulares em diferentes espaços do Porto, aliando a experimentação sonora à escuta pública.
Reportagem Radio Jardim JulAgo26

julho/agosto 2026

Conhecer a música que se faz numa cidade não tem grande ciência. Basta mapear as editoras ali instaladas, identificar salas de concertos de pequena e média dimensão e atentar aos nomes que integram a programação regular. Mas conhecer a música que se ouve numa cidade é uma tarefa bem mais complexa, tendo em conta a imensidão de bandas, músicos e faixas dispersos pelos milhares de auriculares, auscultadores e colunas dos seus habitantes. Com a pulga atrás da orelha, José Guilherme Marques criou, em 2025, a Rádio Jardim, uma rádio comunitária móvel que “convida as pessoas a trazerem aquilo que querem e gostam de ouvir para mostrarem aos outros”.


Inspirado pelo movimento de rádios online independentes como a NTS, de Londres, e a Kiosk Radio, de Bruxelas, o fundador quis, por um lado, fintar a predominância do algoritmo nas recomendações de música dos serviços de streaming — a sensação de que “andamos todos a ouvir o mesmo” — e, por outro, encontrar formas alternativas de ativar o espaço público e gerar comunidade, designadamente através de uma “partilha musical ou sonora” itinerante.

A Rádio Jardim conta com transmissões regulares, atualmente de duas em duas semanas, e procura ocupar lugares que sejam, inerentemente, espaços de fruição “onde as pessoas já têm essa predisposição [para experienciar atividades culturais, artísticas, recreativas ou sociais]”, como cafés, galerias ou jardins, que não tenham uma programação musical recorrente. No dia em que o seu fundador fala à Agenda Porto, a rádio está montada pela terceira vez na Galeria da Arquitectura, no Bonfim, que acolheu, inclusive, uma das emissões experimentais.


Apesar de se assumir como uma plataforma de curadoria musical, a Rádio Jardim não está exclusivamente aberta a músicos, DJs, produtores ou outros profissionais do setor; bem pelo contrário. “Só precisamos que as pessoas tenham uma relação sincera com a música que ouvem e que possam trazer uma camada de apresentação e interpretação para partilhar com o público”, elabora José Guilherme.


Inevitavelmente, o projeto acaba por atrair pessoas que, não sendo necessariamente músicos profissionais, cultivam a paixão por esta expressão artística no dia a dia. “Muita gente tem interesse, mas não tem uma plataforma”, observa. Talvez por isso, a maioria dos pedidos para passar música já chegue acompanhado de um ficheiro e/ou de uma sinopse que ilustra a experiência a criar ao vivo. Nenhum género musical fica de fora. “Pode ser metal, ópera ou pimba, desde que as pessoas tenham algo a dizer sobre isso.”



Reportagem Radio Jardim JulAgo26

Além de ser uma montra para o universo sónico e musical de cada convidado/curador, a Rádio Jardim foi pensada para amplificar os sons que pulsam nos quatro cantos da cidade, sejam eles pássaros, buzinas ou vozes. Em 2025, no âmbito da parceria com o Festival Vizinhanças, da Ágora, que possibilitou a realização de várias emissões em diferentes jardins do Porto, a rádio gravou os sons de cada um destes espaços e apresentou-os no início de cada sessão. Ao mesmo tempo, incentivou o público a registar as paisagens sonoras da sua rotina, sem grande adesão. “Há muito mais pessoas que querem partilhar a música que ouvem do que as que querem captar estes sons”, admite o fundador, que ambiciona dar corpo à ideia através de uma candidatura com financiamento e estrutura próprios.


O arquivo é uma vertente igualmente importante da Rádio Jardim. Todas as emissões são gravadas e disponibilizadas online, numa lógica de “trabalho para a posteridade”. “Daqui a 50 ou 100 anos, se ainda existir Internet, as pessoas poderão saber que música é que se ouvia nesta altura e como é que era o som de determinada rua”, explica.


A dinâmica de radiodifusão comunitária e escuta pública, aliada a uma vontade de descentralização e democratização da cultura, alimenta o sentido de pertença dos melómanos que acompanham e participam nas emissões, mas tem também propiciado cruzamentos interdisciplinares e encontros com outras comunidades artísticas da cidade e de outras partes do país. “Tivemos oportunidade de ir a um festival de arquitetura em Braga por haver esta relação [cimentada através da Galeria da Arquitectura]”, nota o curador.


Recentemente, a Rádio Jardim realizou a sua primeira emissão internacional no Concéntrico, festival de design e arquitetura que acontece anualmente em Logroño, Espanha. “Essa ligação [a outras disciplinas] é parte do conceito, mas também permite tornar este modelo sustentável e possível, porque estas emissões nascem só do esforço de pessoas e sem grande valor de troca.”

Reportagem Radio Jardim JulAgo26

Não obstante o seu caráter itinerante, a plataforma já ensaiou formatos fixos, como no Vizinhanças, que acontecia aos domingos, ou numa residência no café Época, que virava estúdio uma vez por mês. “É muito ténue esta linha entre surpreender e criar uma cadência”, problematiza José Guilherme. “A muleta mental [de que a sessão é em determinado dia] funciona bem para projetos como este, que estão totalmente dependentes das redes sociais para se darem a conhecer.”


A Rádio Jardim está, atualmente, na sua segunda temporada, mas anda mais próxima das origens. Se, no arranque, havia uma aposta deliberada em criar pequenos eventos para angariar público, agora o objetivo é “ser mais fiel à ideia de rádio online”. “Como é que conseguimos dirigir-nos a pessoas que tanto podem estar a 10 metros como a 10 mil km?”, questiona José Guilherme. Igualmente desafiante será pensar a temporada de inverno, já que a estação traz consigo constrangimentos logísticos que, este ano, paralisaram as transmissões. “O ideal será montar um estúdio e ativá lo de vez em quando.” Para já, enquanto o verão não foge, as próximas emissões estão agendadas para os dias 9 e 23 de julho e 6 de agosto no Época.

Fotografias © Guilherme Costa Oliveira

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