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maio de 2026
Especialistas em ouvir, os bebés são cada vez mais protagonistas da oferta cultural da cidade. Amplamente procuradas, e recorrentemente esgotadas, as sessões de música para bebés são momentos de contemplação e partilha entre famílias que permitem fortalecer laços e cultivar a sensibilidade perante a arte e o outro. A Agenda Porto apresenta seis projetos que dão música à pequenada.

Paulo Lameiro, diretor artístico da Musicalmente © Casa da Música
Musicalmente
“Não há bebés, há Marias e Manéis”, responde categoricamente Paulo Lameiro sempre que lhe perguntam qual a melhor música para esta faixa etária. “É a mesma coisa que perguntar ‘qual é a melhor música para quarentões?’; cada um tem as suas preferências.”
Musicólogo, pedagogo e diretor artístico da companhia Musicalmente, tem mais de 30 anos de experiência em projetos de educação e produção artística para a primeira infância. Em 1992, com 18 anos, depois de ficar de fora do Conservatório de Lisboa por “ser muito velho face aos concorrentes”, regressou à sua aldeia natal, Pousos, Leiria, para desenhar um programa de ensino artístico a começar nos bebés, o Berço das Artes.
A partir dessas aulas criou, em 1996, o Músicos de Fraldas, programa de formação para profissionais no âmbito do ensino artístico para a primeira infância, altamente influenciado pela primeira vinda a Portugal de Edwin Gordon, professor e investigador em formação musical, em 1995. “Percebi que não só era possível, mas fundamental trabalhar com bebés.”
No ano seguinte, fundou os Concertos para Bebés que, como costuma dizer, “são simplesmente concertos”. Ao longo do ano, há 11 programas cujo repertório vai do clássico ao jazz, do tradicional português à world, da eletrónica à música alternativa ou aos improvisos e bailes. “Ir a um concerto é tão importante para um bebé como é para um adulto ir ver uma exposição ou o pôr do sol”, elabora o musicólogo. “Ele vai fruir aquele momento, vai sentir algo e descobrir coisas dele que só a exposição à arte permite.”
Durante 10 anos, os Concertos para Bebés estiveram mensalmente na Casa da Música, onde Paulo Lameiro regressa amiúde com a Musicalmente para outras sessões. No dia 9, apresenta ali O Bebé Compositor, formação inserida no Amplify, projeto concebido por um consórcio europeu para pôr os bebés a “compor” com apoio da IA. Os bebés terão sensores no corpo que vão ler as suas reações à música e traduzi-las em partituras, transmitidas em tempo real para os músicos através de óculos de realidade virtual. Haverá, ainda, câmaras a filmar os pais ou cuidadores.
“O grau de envolvimento de bebé está indexado ao grau de envolvimento dos pais”, nota Paulo. Nesse sentido, se é verdade que há música mais propícia a captar a atenção dos bebés – a barroca, por exemplo, é feita em andamentos mais curtos do que a romântica –, os melhores temas e compositores a tocar para bebés são aqueles de que se gosta mais. “O bebé ouve, essencialmente, uma boa relação com a música.”
Música com Bebés & Papás
Para Indy Paiva, o trabalho com a primeira infância foi “um acaso que se transformou numa paixão e no encontro de uma vocação”. Em 2011, foi convidado pela diretora de programação do extinto Clube Literário do Porto, onde dava aulas de guitarra, a dinamizar uma oficina de música para crianças e famílias. Aceitou prontamente o desafio, não sem antes frequentar o programa Músicos de Fraldas, promovido por Paulo Lameiro em Pousos, Leiria.
“Tinha sido pai pela segunda vez em agosto de 2010 e a minha filha era mais uma inspiração e ‘cobaia’ no processo”, conta. Em finais de abril, arrancava o Música com Bebés & Papás, projeto em trio com Lipe Paiva (piano e outros instrumentos) e Kate Rodrigues (voz e percussão), e em que Indy assume a narração, voz, guitarra e percussão.
Nos últimos 15 anos, Indy & Trupe têm desenvolvido centenas de sessões de música e expressão musical para bebés e famílias. Por norma, há um tema mensal, a partir do qual são escolhidas estórias onde se incluem “canções e paisagens sonoras com padrões tonais e rítmicos”. Indy reitera a vertente colaborativa dos espetáculos. “Há uma partilha de instrumentos ergonómicos e adaptados a bebés e crianças com quem fazemos música.”
Tirando partido da música como linguagem em que “a expressão verbal nem sempre é o mais importante”, Indy & Trupe focam-se, primordialmente, em aspetos como “aquisição de cancioneiro, repertório tímbrico e escuta ativa” para preparar as sessões. Também questões como a motricidade, lateralidade e equilíbrio são tidas em consideração.
Sob o chapéu do Música com Bebés & Papás, projeto que circula regularmente por vários concelhos limítrofes do Porto, surgiram eventos como o Música com Dragõezinhos, com sessões mensais no Museu FC Porto (no dia 3, estarão por lá com o tema “Mãe”). Pontualmente, Indy & Trupe realizam apresentações em creches, escolas, associações e autarquias de norte a sul do país.

Dulce Moreira e Mariana Santos d'O Som do Algodão © Lara Jacinto / Coliseu Porto Ageas
O Som do Algodão
Palavra e música vão de mão dada n’O Som do Algodão, projeto de Dulce Moreira e Mariana Santos que, desde 2012, realiza espetáculos e oficinas para os mais pequenos. Começaram por criar histórias para crianças e, em 2016, mergulharam no universo dos bebés com a trilogia Aves (Ovo, Ninho, Voar), desenhando paisagens sonoras e literárias com várias texturas rítmicas e tímbricas.
“Os bebés requerem uma grande variedade de estímulos, por isso tentamos que as criações sejam o mais plásticas possível”, refere Dulce, música e autora das canções originais do coletivo. A palavra fica a cargo de Mariana, atriz que assina a dramaturgia, narração oral e performance teatral dos espetáculos.
Para a dupla, pensar espetáculos para bebés passa, obrigatoriamente, por incluir os seus cuidadores. “Eles não estão lá só a tomar conta dos bebés, queremos que participem ativamente.” Para isso, socorrem-se de referências musicais e sonoras de determinada geração para acionar uma “memória identitária”.
Frequentemente, a experiência é vivida pelo núcleo familiar próximo, ou seja, pais, bebé e irmão mais velho, o que gera uma multiplicidade de interações. “Os mais velhos já vão acompanhando a história”, diz Mariana. “Às vezes, vêm ter connosco para perguntar sobre as músicas e nós dizemos: ‘vai perguntar ao teu pai se ele conhece!’.”
Com o tempo, O Som do Algodão foi angariando espectadores fiéis por todo o país. “Noutro dia, uma mãe veio com um bebé e uma filha de 11 anos que já tinha levado a um espetáculo quando era bebé”, recorda a atriz. “É engraçado ver as famílias a crescer connosco.”
A par dos espetáculos, o coletivo desenvolve um projeto artístico para bebés, que inclui artes plásticas, movimento, teatro e música, no Guli Family Club. Ainda numa “fase experimental”, a oficina pretende proporcionar o contacto com as diversas expressões artísticas durante dois meses, mas pode ser experienciada em sessões avulso.
Dulce e Mariana esperam que os espetáculos e oficinas sejam apenas o início de uma experiência artística contínua em família. “Seja a cantar as músicas ou a falar do que viveram, a ideia é que depois consigam transportar isto para casa.”

HÁ~Vento, O Som do Algodão © Pedro Sardinha

Há Um Rio Nesta Gota, espetáculo do Frenesim © Renato Cruz Santos
Frenesim
Fundado por um grupo de artistas-educadores, o Frenesim arrancou como “um serviço de mediação cultural que começava nos bebés e acabava nos avós”. No início, realizavam laboratórios artísticos enquanto investigavam “como trabalhar com cada faixa etária”. “Criámos uma metodologia de trabalho a partir das muitas sessões que fizemos com famílias”, relata Rita Campos Costa.
Primeiramente, vem o “começar começando”, um momento que envolve quem chega mais cedo sem excluir quem se atrasa. Depois, sucedem-se “um acolhimento, um padrão rítmico, uma coisa que faça movimentar, uma coisa de cantar, um ostinato [frase ou motivo que se repete durante uma música], um instrumento estranho coletivo e uma música de ir embora”.
“As crianças sobrevivem de rotinas”, realça a coordenadora artística e pedagógica do projeto. “Há um lugar de expectativa em que pensam: ‘Ah, ela vai fazer aquilo outra vez!’.” Também o dispositivo cénico está ao serviço destas criações que são um “meio-termo” entre espetáculo e oficina, estando desenhados em “redondo” – músicos e famílias formam duas meias-luas de lados opostos.
A sonoridade das atividades do Frenesim vai beber às experiências musicais de Zé Figueiredo (membro dos peixe:avião e ligado ao rock e eletrónica) e de Rita Campos Costa (integrante da Sopa de Pedra, ensemble feminino de música tradicional) e pode refletir-se em composições adaptadas ou originais. “Não há música fofinha para bebés”, avalia Rita. “Há música e ela é ou não pertinente consoante o enredo e contexto que temos.”
As famílias são convidadas a cocriar as “camadas de som” dos espetáculos-oficina, gravando as suas vozes com apoio da equipa, que usa apenas instrumentos não convencionais, isto é, “coisas que fazem som” da sua autoria.
Há, igualmente, uma dimensão plástica significativa. Exemplo disso é o espetáculo Há Um Rio Nesta Gota, que estará na Biblioteca Almeida Garrett no dia 3 de maio, às 10h30. Há lenços que servem de barcos, pincéis que fazem de remos e, no final, um rio aberto que é um rolo grande de papel kraft, onde os bebés pintam com água. “Os pais ficam surpreendidos por eles ficarem ali tanto tempo”, revela Rita. “Não é preciso fazer muito; é preciso fazer menos, porque as crianças estão sobrestimuladas.”

Espetáculo do Bebé em Cena / Espaço Aurora © Jorge Costa / Cultura em Expansão
Espaço Aurora

Espetáculo do Bebé em Cena / Espaço Aurora © Jorge Costa / Cultura em Expansão
“Observar”, “sentir” e “experimentar” são verbos que Susana Brandão conjuga diariamente no Espaço Aurora, que abriu em 2020 com o nome da sua mãe. Formada em Arquitetura e uma autointitulada curiosa incorrigível, estudou aeróbica, moda e teatro, e nunca largou o último. Depois de deixar as maquetes, deu aulas de teatro a crianças e jovens e questionou-se com o bloqueio criativo que muitos enfrentavam. “Percebi que tinha a ver com as primeiras experiências ligadas ao lado criativo e sensorial”, lembra.
Foi para trabalhar esses elementos nos primeiros anos de vida que imaginou o Aurora, assente em três eixos: Aurora Casa, espaço físico que acolhe crianças diariamente para experiências diversas, incluindo artísticas; Aurora Semente, unidade móvel que vai às escolas e desenvolve atividades à medida de cada uma; e Aurora Palco, projeto de teatro para a primeira infância cocriado com o artista-educador brasileiro Thiago Franco.
Designado Bebé em Cena, parte de um artista ou obra contemporâneos e de investigações feitas com as crianças que frequentam o Aurora para construir a narrativa de espetáculos-ateliê. “O início é mais teatral, mas depois as crianças vão para cena connosco e ficam o tempo que quiserem”, desvenda.
Embora integrada de forma atípica, a música povoa os três núcleos do Aurora. No Casa, surge na curadoria de canções que acompanham as experiências, em atividades concretas para trabalhar o ritmo com o corpo ou para manusear instrumentos e nas sessões de sensibilização sonora, que envolve a experimentação musical com materiais que não são instrumentos, como madeiras ou metais.
No Semente, não há uma atividade musical per se, mas o som está associado às ações realizadas, nomeadamente através de uma playlist curada para “entrar no ambiente, animar um bocadinho ou acalmar um pouco”, respetivamente. Já no Palco, são tocadas canções originais e de outros autores com recurso aos instrumentos feitos com objetos comuns, que podem igualmente ser exploradas pelos bebés. “Temos um que é todo com cápsulas de café, do [espetáculo] Estado de Pássaro, que faz um som incrível.”
Todos os dias, Susana Brandão tem provas da importância da música na primeira infância. “A maior parte das crianças reage a esta arte”, frisa. “Se lhes puser tintas, primeiro ficam a ver e nem sempre vão logo, mas aderem muito ao som.”
Com circulação regular por vários municípios, o Aurora apresenta-se em casa no dia 23 de maio, às 10h30, com o espetáculo Liberdade das Cores, no Guli Family Club.
Música com a Eva
Eva Nascimento ouviu as primeiras canções ainda na barriga da mãe. Mais tarde, passou a cantarolá-las à irmã, nascida quando já tinha 11 anos. Foi com ela que ensaiou jogos, brincadeiras e estórias e que percebeu que queria estar na órbita dos mais novos a longo prazo. “Tornei-me professora para lidar com crianças do primeiro ciclo, mas depois descobri que a minha paixão eram os bebés”, recapitula.
Em 2006, começou a dedicar-se à música para bebés, integrando projetos de outros criativos que tinham uma educação e visão mais formal desta arte. A vontade de imprimir o seu cunho pessoal a estas atividades levou-a a criar o Música com a Eva há quatro anos. “O meu objetivo é utilizar a música como ferramenta para o desenvolvimento cognitivo, motor, emocional e, sobretudo, social dos bebés”, resume.
Geralmente, Eva dá início às sessões com o apoio de uma coruja de pelúcia, que funciona “como um canal de comunicação com os bebés”. Depois, bebés e famílias são convidados a envolverem-se numa experiência musical partilhada, pautada por momentos de calma, euforia, mistério e surpresa. As atividades são pensadas a partir de “um livro, um acontecimento ou uma brincadeira” e podem incluir, também, histórias inventadas por Eva, como a do “pássaro grande e mau que não deixava os outros pássaros voar mais alto que ele”, alusiva ao 25 de Abril.
O cancioneiro tradicional português, assim como a música do mundo, são presença assídua nas sessões. Há, também, uma importante componente motora e sensorial, já que os bebés são incentivados a movimentar-se pelo espaço e a manusear os instrumentos e outros objetos.
Atualmente, o Música com a Eva dinamiza sessões em espaços como o PlayLab Porto – a próxima, intitulada "A minha Mãe é uma floresta", decorre no dia 10 às 10h00 –, creches, estabelecimentos de pré-escolar e em festas de aniversário. “Cada vez mais se sente a necessidade de pais e filhos terem tempo e espaço para estarem juntos e fortalecerem vínculos sem distrações.”

Música com a Eva © D.R.
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