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Reportagem
Os guardiões da comunidade
Outrora efervescentes polos desportivos e culturais, as coletividades são hoje espaços de identidade e memória que teimam em manter viva a alma dos seus bairros, promovendo o encontro entre vizinhos e organizando eventos e atividades de lazer e entretenimento. A Agenda Porto visitou quatro.
Reportagem Jun Os guardioes da comunidade

junho 2026

Associação de Moradores de Massarelos

Numa tarde soalheira de maio, a Alameda Basílio Teles transforma-se num museu de croché ao ar livre, com quase 30 árvores vestidas com trajes coloridos feitos de mais de 1000 granny squares (quadrado tradicional de croché) e uma dezena de peças, como guarda-chuvas ou espanta-espíritos, dispostas no seu entorno. A obra é da autoria do Olhó Nobelo, projeto do centro de convívio da Associação de Moradores de Massarelos (AMM), e foi idealizada ainda na pandemia.


“Eu sabia que algumas senhoras faziam croché e, como estavam há meses em casa, imaginei algo que lhes pudesse levar para estarem entretidas”, recorda Marina Pinto, diretora técnica da AMM e mentora da iniciativa. “A ideia era decorar as árvores como uma chamada de atenção para o facto de haver muitos idosos sozinhos em casa.” Na altura, o projeto não teve autorização para avançar, mas a semente estava lançada.

Com o desconfinamento, os utentes regressaram ao centro, mas o medo de estarem numa sala persistia. Nesses primeiros tempos, o Olhó Nobelo desenrolou-se no espaço público. “Fizemos croché no bairro, no jardim, no museu, e começámos a chegar às pessoas”, observa. Ao mesmo tempo, o grupo começou a enfeitar os corrimões do bairro, nomeadamente da Calçada da Boa Viagem, onde fica uma escadaria com um miradouro para a Ponte da Arrábida. As redes sociais trataram do resto.


Desde então, as “Nobelitas” já expuseram o seu trabalho em locais como o Mercado do Bolhão e a Estação de São Bento, colaboraram com o artista urbano Godmess na criação de um mural, dinamizaram oficinas em escolas, faculdades e noutros centros de convívio e foram várias vezes à televisão. “Se não fosse isto, algumas pessoas já não estavam cá, ou ainda estavam coladas ao sofá.”

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Marina Pinto, diretora técnica da AMM © Rui Meireles

Tal como noutras iniciativas realizadas na cidade, a decoração das árvores teve o apoio da comunidade, que foi desafiada a fazer os seus próprios quadrados e a entregá-los à associação. Também a União de Freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos foi “fundamental” para concretizar a peça, doando kits com material e divulgando a iniciativa junto de outras instituições.


Atualmente, o Olhó Nobelo é a face mais visível da Associação de Moradores de Massarelos, nascida no pós-Revolução, quando alguns moradores ocuparam um armazém de cimento na marginal para construir as respostas sociais e de habitação, educação e cultura necessárias. Ali se manteve durante 37 anos com uma sólida oferta cultural e desportiva – futebol, canoagem, teatro e música – e valências sociais como berçário, ATL, creche e centro de convívio.


Agora sediada na Rua Casal de São Pedro, mantém a creche e o centro de convívio, um espaço “fora da caixa, quer nas atividades diárias, quer nos projetos fora de portas”, avalia Marina Pinto. A educadora social chegou à AMM em 2019 e, deparando-se com uma rotina de marasmo e letargia, começou a engendrar planos para uma mudança através de uma série de atividades. “Ainda há muito por fazer” é o lema que, ainda hoje, repete aos seus utentes.

Reportagem Jun Os guardioes da comunidade

© Rui Meireles

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© Rui Meireles

A instituição acolhe diariamente quase 30 pessoas e tem o calendário preenchido: costura à segunda, pintura à terça, dança à quarta e croché à sexta, dia em que pessoas de várias idades e freguesias se juntam às “Nobelitas”. Os resultados destas oficinas são mostrados em eventos abertos à comunidade, como desfiles de moda, flashmobs ou os já mencionados projetos de croché.


Duas vezes por ano, a AMM organiza os Encontros de Crocheteiras, normalmente num sábado de tarde, para “dar possibilidade às pessoas que acompanham o projeto nas redes sociais de participarem”. Mas ninguém fica excluído; quem estiver longe e quiser contribuir, pode enviar o seu quadrado por correio.


A 31 de julho, a Associação de Moradores de Massarelos volta ao local onde tudo começou. O hotel que está hoje nas antigas instalações cedeu a esplanada para a ocasião e já estão a ser feitos os preparativos para comemorar cinco décadas ao serviço da população.

Associação Branco e Negro Vitória e Campanhã

José Miguel Silva nunca teve jeito para a bola, mas cresceu nas proximidades do Vitória Sport Clube de São Pedro de Campanhã, fundado em 1960 e outrora um nome de peso no circuito do futebol amador da região. Os avós e os pais moravam perto da sede, no Largo de São Pedro, e o irmão e o primo jogaram no clube, que mais tarde se lançou no futebol juvenil. “Isso criou uma relação incomum entre a coletividade e a população de São Pedro de Campanhã”, recapitula.


A mudança foi implementada pelo “mítico presidente” Joaquim Castro, que em 1992 conseguiu adquirir um pavilhão a 200 metros dali. “O clube tornou-se conhecido nas gerações que hoje têm 30, 40 e 50 anos”, afirma José Miguel, que por volta da mesma altura se tornou treinador-adjunto de uma equipa de jogadores dos 12 aos 14 anos. “Chamaram-me [não por ser bom futebolista, mas] porque tinha entrado na universidade e queriam que as crianças vissem em mim um exemplo.”

Os tempos de glória duraram até 2013. No início dessa década, as pessoas mais ligadas ao futebol e ao passado do clube tinham saído e “a equipa mais jovem não soube dar-lhe continuidade”. Durante cinco anos, a emblemática sede ficou fechada. O pavilhão já não pertencia à coletividade. Em 2018, um grupo de antigos membros com espírito revivalista reuniu-se através das redes sociais. “Eles ajudaram-nos tanto quando éramos miúdos, é hora de recuperarmos a coletividade”, declararam.


A segunda vida da associação arrancou com um novo nome, por forma a deixar para trás os constrangimentos vindos dos últimos anos de atividade: Associação Branco e Negro Vitória e Campanhã. Sob a batuta de Joaquim Castro, o grupo renovou as instalações degradadas e recuperou o pavilhão. Depois, começou a “mobilizar o pessoal” para voltar, organizando festas, bailes e passeios. Na pandemia, o Vitória pausou os eventos e passou a prestar apoio social aos idosos.

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José Miguel Silva, presidente da Associação Branco e Negro Vitória e Campanhã © Sofia Hügens

“Esse foco na comunidade é muito mais o meu registo”, admite José Miguel, também vogal com o pelouro do Desporto na Junta de Freguesia de Campanhã. Foi nessa qualidade que, inicialmente, se ofereceu para ajudar a reavivar a coletividade, mas acabou como presidente porque o primo não quis o cargo. Hoje, o papel assenta-lhe naturalmente, mas só o consegue cumprir com o apoio de um núcleo duro onde se inclui Lina, “histórica” da vizinhança e do clube. “Estão-nos sempre a perguntar quando recomeça o futebol”, nota a tesoureira.


Neste momento, a sede funciona com base no “turismo de saudade”, como lhe chama o presidente. “A maioria das pessoas que vem aqui jogou em diferentes décadas e gosta de voltar ao lugar onde nasceu para ver os amigos”, revela.

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© Sofia Hügens

Os ex-jogadores juntam-se na sede, que está aberta todos os dias, com exceção de segunda-feira à tarde, para jogar cartas e bilhar, conviver e petiscar. Apesar de também se servirem almoços à semana, “sábado é o dia com mais gente”. Paralelamente, o Vitória realiza atividades lúdicas e culturais no pavilhão, como “festas, bailaricos e noites de fado”. Em agosto, fazem a “Festa do Emigrante”, onde convergem sampedrenses que emigraram, vizinhos, amigos e familiares.

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Festa de 10.º aniversário da Pérola Negra Rádio © Paulo Cunha Martins

Nesta segunda encarnação, a coletividade tem, igualmente, acolhido eventos de outros projetos ou espaços culturais da freguesia e da cidade, como o Clube de Cinema de Campanhã, a CRL – Central Elétrica ou a Pérola Negra Rádio, que recentemente festejou o 10.º aniversário no pavilhão do clube. Além de promover mais eventos, a solo ou em parceria, o Vitória quer retomar o futebol.


O terreno adjacente ao pavilhão “tem as medidas certas para um campo de futebol de sete”, aponta José Miguel. Há poucos anos, lembra, foi desenhado um projeto que nunca viu a luz do dia. “Precisamos de ajuda para fazer o campo ou, pelo menos, para o relvar; aí teremos todas as condições para voltar ao futebol.”

Associação Recreativa e Desportiva de São Pedro de Miragaia

“A nossa essência é saber receber”, envaidece-se Jorge Sequeira, antigo presidente e membro da Associação Recreativa e Desportiva de São Pedro de Miragaia (ARDSPM). Nascido e criado em Miragaia, tornou-se sócio ainda antes da maioridade requerida ao integrar a equipa de hóquei em campo da coletividade, surgida em 1923 pela mão de um grupo de amigos que queria criar um clube de futebol na freguesia.


Durante quase quatro décadas, a atividade da ARDSPM girou em torno do futebol, como atestam os vários troféus nas estantes da sede. Mais tarde, o clube incorporou outras modalidades, como hóquei, atletismo e pesca e, em meados dos anos 1960, passou a ter uma forte vertente cultural, com teatro, balé, música, um rancho folclórico e, até, concursos de imitações que reproduziam o que se fazia em programas de televisão da época.

“Todos os fins de semana havia qualquer coisa a acontecer”, conta Paulo Ferreira, presidente do conselho fiscal, recordando carinhosamente o “palacete” onde se situava a sede original, um edifício de dois andares que é hoje um hotel. “Nós tínhamos uma discoteca que sustentava o futebol e o teatro”, relata.


A saída para as atuais instalações no Largo de São Pedro, com uma dimensão bem mais modesta, e o esvaziamento populacional da freguesia, exacerbado pelo boom turístico e económico da década de 2010, levou a que a ARDSPM perdesse a sua oferta desportiva e cultural e a massa humana que lhe dava forma.


“Isto esteve mesmo para acabar”, confessa Jorge Sequeira, também vice-presidente da Associação de Coletividades do Concelho do Porto (ACCP). “A nossa sorte é a carolice de alguns elementos que ainda conseguem vir e fazem questão que isto esteja aberto.”

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Jorge Sequeira, antigo presidente e membro da ARDSPM © Rui Meireles

Em 2019, a direção decidiu abrir portas à comunidade, o que deu um novo fôlego à associação. Nos dias que correm, param na sede alguns sócios que vivem no bairro, outros que não são residentes, mas que tiram tempo para estar com os amigos na coletividade ao fim de semana e “público exterior”, isto é, pessoas que, não sendo sócias, frequentam a associação.


Esse grupo é constituído por estrangeiros que se mudaram para Miragaia e por turistas, quer os que estão alojados ali, quer os que estão de passagem pela zona da Alfândega e ficam curiosos com o movimento debaixo das arcadas. “Às vezes, vêm beber um vinho do Porto ou uma cerveja, porque é mais barato que noutros sítios”, nota Paulo. O bar está aberto durante a semana, mas é, principalmente, ao fim de semana que se servem pregos, cachorros e bifanas.

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© Rui Meireles

A par dos comes e bebes, a coletividade voltou a aventurar-se nas atividades desportivas e culturais: criaram um grupo de cicloturismo, que recentemente levou o emblema do clube a Santiago de Compostela, e começaram a organizar concertos de música popular mesmo à entrada da sede. “Os conjuntos põem aqui os instrumentos e cantam e, como isto está virado para a rua, cativa.” Além disso, a ARDSPM integra o Há Fado na Freguesia, roteiro de concertos de fado organizado pela União de Freguesias do Centro Histórico do Porto (UFCHP). O próximo está agendado para dia 12, às 16h00.


Para a coletividade, junho chega com a promessa da enchente de outrora, uma vez que Miragaia é um dos bairros incontornáveis nas celebrações de São João, com sardinhadas e bailaricos a tomarem conta do largo e da sua envolvente. Como é habitual, a ARDSPM estará de portas abertas para receber os foliões, mas a festa prolongar-se-á até dia 28, data em que a coletividade soprará as 113 velas.

Associação de Moradores do Bairro de Aldoar

Há pessoas que ocupam um cargo. E há pessoas que ocupam um lugar. Em Aldoar, Esmeralda Mateus ocupa os dois. Presidente da Associação de Moradores, conhece toda a gente e toda a gente a conhece. “Esmeralda só sou eu aqui”, diz, com a naturalidade de quem vive há quase seis décadas entre as mesmas ruas e os mesmos rostos.


Nasceu no antigo “bairro de lata” de Xangai, onde hoje se estende o Parque da Cidade. “O povo de Xangai era gente de barracos”, recorda. Mudou-se para Aldoar aos 16 anos.


 “Conheço o bairro por dentro e por fora. Sei onde toda a gente mora.” Sabe quem vive sozinho e dá pela falta de “quem não desce as escadas há dois dias”. Talvez por isso seja a guardiã das chaves de várias casas de moradores idosos. “Eu subo as escadas quando as pessoas não aparecem aqui e já me tem acontecido coisa má”, diz.


Todos os dias, Esmeralda prepara cabazes alimentares para 17 famílias do bairro e há também refeições prontas no frigorífico para quem aparecer à hora do almoço. Esta ajuda é possível graças ao projeto Re-food, uma organização criada para reaproveitar excedentes alimentares e alimentar quem mais precisa. “Lido com as dificuldades de cada um; o meu papel é pedir [ajuda] para dar àquela ou àquele — e consigo muitas das vezes.”

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Esmeralda Mateus, presidente da Associação de Moradores do Bairro de Aldoar © Rui Meireles

Esmeralda fala do bairro como quem fala de uma família extensa — complicada, mas unida. Este espírito coletivo continua a crescer em pequenas frentes. Há “rapazes novos” que, desde março, se dedicam a dinamizar treinos de futebol com crianças do bairro com idades entre os 8 e os 16 anos para formarem equipas. “Quando estiverem bem treinados, vamos jogar com as equipas de Fonte da Moura, Campinas, e por aí fora”, conta, animada.


Em Aldoar, também a festa continua a ser uma forma de resistência. Durante anos, a associação de moradores, com o apoio da junta de freguesia, organizou arraiais de São João, “que eram uma maravilha para esta gente”, com música ao vivo. A Covid interrompeu essa “tradição” e agora são os próprios moradores quem faz a festa.

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Esmeralda Mateus © Rui Meireles

Entre todos os afazeres, o apoio aos idosos e os lanches dados depois de treino aos miúdos do futebol, Esmeralda também se tem dedicado ao Cortejo do Traje de Papel de São Bartolomeu, que acontece no final de agosto. Há cerca de sete anos que a associação participa no desfile que termina no mar da Praia do Ourigo. São serões inteiros entre papel colorido, moldes, tecidos e ferro de engomar. Quando a Agenda Porto visitou Aldoar, já estavam em produção várias dezenas de fatos de papel para os cerca de 50 figurantes do bairro, com idades entre os 7 e os 70 anos. “Já tirámos medidas a todos!”.


Na pequena oficina improvisada na sede da associação, fala-se de lobos e capuzes. Este ano, o bairro vai representar a história do Capuchinho Vermelho. “Sinceramente, o que me está a custar é fazer a cabeça do lobo, que isto não pode levar plásticos”, conta Esmeralda, acrescentando, entusiasmada, que para isso vai recorrer a um balão, jornal e cola. Com ela, afoita nesta tarefa, está outro elemento da associação, Ana Maria Silva, costureira “artista”, e outros braços-direitos que ajudam a cortar, passar a ferro e a compor os fatos. O trabalho costuma prolongar-se noite dentro. “A gente trabalha de corpo e alma”, diz Esmeralda. E percebe-se que, naquele espaço, “a gente” é sempre mais importante do que “eu”.

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© Rui Meireles

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