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Reportagem
À descoberta da geografia artística do Porto
O Porto continua a ver nascer espaços independentes que alargam o mapa da criação artística na cidade. A pretexto do Circuitos'26, promovido pela Galeria Municipal do Porto, que acontece de 17 a 19 de julho, a Agenda Porto foi conhecer cinco espaços — PLATO, CATAPULTA, INSTITUTO, Raiz em Movimento e Atelier Amarelo.
Reportagem Espacos Criacao Artistica JulAgo26

Raiz em Movimento © Renato Cruz Santos

julho/ agosto 2026

São projetos distintos nas suas escalas e ambições, mas unidos por uma mesma convicção: a de que criar implica construir lugares de encontro. Estes espaços partilham a vontade de experimentar e abrir caminhos para a arte contemporânea no Porto, construindo comunidades em torno da criação artística.

PLATO

Quando, em janeiro de 2025, nasceu na Rua de Brito Capelo, a PLATO tinha já uma irmã alentejana. Três anos antes, o portuense Diogo Ramalho abrira uma galeria em Évora, onde residia, depois de anos em Lisboa. Consolidado o projeto, e seguindo uma lógica de “descentralização de conteúdos e de espaços expositivos” em relação à capital, decidiu cloná-lo para a sua cidade, onde acha que “no panorama artístico, se arrisca mais”: “No Porto, sempre existiu mais experimentação e isso é uma coisa maravilhosa”. 


Ramalho descreve a PLATO como “um espaço principalmente focado nos artistas emergentes, que pretende criar diálogos entre os vários territórios do país e levar artistas do Porto para outros lados e de outros lados também para o Porto”. Diz tratar-se de um projeto “híbrido”, pois apesar de ser uma galeria comercial, apresenta também “uma série de projetos experimentais” e uma linha editorial associada. “Todos os meses fazemos uma entrevista a um artista que já tenha passado por cá”, explica. As conversas são divulgadas nos canais digitais da PLATO e, no final do ano, compiladas numa publicação impressa. A galeria edita, também, livros para algumas exposições e ainda lançou a revista bienal Hedone, para a qual convidou quatro artistas a escrever ensaios livres em torno do tema “prazer”.

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Diogo Ramalho, PLATO © Rui Meireles

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© Carlos Campos 

A galeria divide-se em três espaços: “um project room, à frente, só para uma peça, uma obra de um artista do Porto ou residente do Porto; a Sala 2, que é um espaço maior, no centro; e, atrás, a terceira sala, para acervo ou outro conteúdo expositivo”. Desafiado a destacar alguns nomes já expostos, refere Eduardo António, Hernâni Reis Batista, Abel Motta e Tiago Rocha Costa, acrescentando que “quase todos” com quem trabalhou “são fantásticos”.


Dois diálogos artísticos – um entre Hernâni Reis Batista e Renato Chorão, outro entre Tomás Zott e Fernando Moletta – é o que o público pode esperar para o Circuitos, iniciativa que Ramalho considera “muito interessante”, seja pelo alargamento de horários das galerias, pela reunião dos espaços num mapa ou pela “criação da ideia de percurso”. 

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© Samuel Duarte Figueiredo

CATAPULTA

Olhamos agora para um espaço que ainda nem cumpriu um ano. A CATAPULTA foi fundada em setembro de 2025 por dois amigos, Daniel Lamas e Tiago Castro, com o lema “create, launch, repeat” [“criar, lançar, repetir”] e a seguinte motivação: “promover a criatividade, visibilidade e diversidade de artistas emergentes, abraçando novas ideias, lançando e potenciando a pluralidade artística”. Desde então, a sala que compõe a galeria já acolheu trabalhos de pintura, desenho, escultura, fotografia, arte têxtil ou performance.


À Agenda Porto, Daniel Lamas explica que a CATAPULTA difere um pouco das restantes galerias da cidade, já que “inaugura exposições de quinze em quinze dias” e tem um carácter mais acessível, se comparada com espaços “mais conservadores, onde é difícil entrar”. Além disso, segundo o galerista, beneficia do ecossistema do Centro Comercial Bombarda, onde está localizada: “encaixamos muito bem, há aqui um sentimento de comunidade muito forte, há muita entreajuda e achamos que também ganhamos com isso”. Dá como exemplo os dias das suas inaugurações, em que recorrem aos vizinhos – servem vinhos da Cave Bombarda e petiscos da Pimenta Rosa. 

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Daniel Lamas, CATAPULTA © Sofia Hugens

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Galeria CATAPULTA © Sofia Hugens

Na CATAPULTA há espaço não apenas para novos artistas como também para artistas novos na cidade. Foi o caso de Silvia Salvagno, argentina que se mudou há pouco para o Porto e foi a escolhida para a abertura do local. Lamas afirma que a comunidade estrangeira residente na Invicta constitui mesmo uma fatia importante entre os visitantes: “alguns vêm a todas as exposições desde o início”.


Artistas dos Estados Unidos ou de França e vários portugueses, como a fotógrafa Alexandra Cabral, a arquiteta-pintora Marta Lemos ou até um coletivo de alunos da Escola Artística Soares dos Reis (em resposta a uma convocatória) constam entre os nomes já “catapultados” pela galeria, que tem já fechada a agenda até ao fim do ano. 


Durante o Circuitos, vão apresentar pinturas a óleo de Beatriz Prada, criadas sobre o mote “estar é um segredo que se revela apenas a quem está”. A jovem portuense, formada na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), explica que quis refletir sobre as “mesas” enquanto local de “encontros”, “reuniões de trabalho” ou “aniversários”, mais concretamente sobre “que momento é este que é o vazio entre um acontecimento e outro, entre o que é o jantar e o convívio e o levantar a mesa no final”. Com a sua linguagem “um bocadinho impressionista, expressionista, não muito literal”, diz que tentou captar um “ambiente” muito comum na cultura portuguesa e fazer-nos pensar sobre “como nos conseguimos identificar com as mesas dos outros”.

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Beatriz Prada © Sofia Hugens

Ao estar em Bombarda, a CATAPULTA pertence há uns meses à rede das Inaugurações Simultâneas, que decorrem de dois em dois meses no quarteirão, mas acha benéfico e importante unir-se agora em circuito a espaços de outras zonas da cidade.  

INSTITUTO

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Paulo Moreira, diretor artístico do INSTITUTO © Renato Cruz Santos

De Miguel Bombarda descemos até à Rua dos Clérigos onde, no n.º 44, funciona o INSTITUTO. O nome deste espaço cultural preserva a memória do edifício que, em tempos, acolheu os armazéns do Instituto Pasteur. Depois de atravessar um túnel escuro, desemboca-se num pátio soalheiro, de paredes pintadas de azul, interrompidas apenas por uma intervenção do artista e ativista Miguel Januário, conhecido por ±MAISMENOS±. "We are not a loan", lê-se na parede, numa das mensagens políticas que caracterizam o seu trabalho artístico.


Paulo Moreira, arquiteto e diretor artístico do INSTITUTO, procurava um espaço para montar o seu ateliê de trabalho quando descobriu aquele edifício abandonado em pleno centro histórico do Porto. Ao perceber que o espaço era muito maior do que necessitava, surgiu a ideia de criar um projeto que fosse além da arquitetura e integrasse as artes visuais, o pensamento crítico e colaborações interdisciplinares. "A vontade de abrir as portas e interagir com pessoas e grupos não apenas de arquitetura, mas também de outras disciplinas, acabou por ser um ponto de partida", conta à Agenda Porto.

Hoje, o INSTITUTO tem uma equipa de 12 pessoas, oriundas de vários países, e desenvolve uma programação que cruza exposições, conversas, oficinas, publicações e residências artísticas com participantes nacionais e internacionais. Desde a inauguração, em dezembro de 2018, promoveu 48 exposições, 112 conversas, 27 oficinas, 14 passeios, 32 instalações, 12 edições de festivais, 37 residências artísticas e seis publicações. "Há uma diversidade, mas também uma intensidade na programação cultural", resume o diretor artístico.


A arquitetura permanece no centro da sua identidade e a relação com o espaço urbano atravessa toda a programação. "Muitos projetos dos arquitetos, fotógrafos, artistas visuais e investigadores que passam pelo INSTITUTO têm este olhar sobre o espaço urbano", explica Paulo Moreira. “É um olhar sobre o contexto local, para aquilo que acontece à nossa volta, na baixa do Porto”, mas também “sobre periferias, territórios escondidos ou invisibilizados e questões ligadas à nossa herança e história coloniais”. E, a propósito desta temática, defende que "um dos papéis que os espaços independentes ligados à arte e à cultura devem assumir é de criar desconforto e questionar temas complexos". "Tentamos abrir esses diálogos a partir da criação artística e sempre com a ideia de dimensão arquitetónica ou urbana presente."

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Paulo Moreira e a equipa do INSTITUTO © Renato Cruz Santos

Na sua perspetiva, o INSTITUTO tem vindo a ocupar "um espaço relevante na disseminação e reflexão sobre a arquitetura e as práticas espaciais" num panorama nacional onde existem poucos projetos com características semelhantes. Segundo Paulo, as residências artísticas assumem, nesse contexto, um papel determinante, ao proporcionarem o encontro com criadores internacionais: durante as suas estadias, artistas e arquitetos desenvolvem projetos e partilham publicamente os processos de trabalho, criando momentos de diálogo com a comunidade. Neste sentido, salienta o programa InResidence, da Câmara Municipal Porto, que promove oportunidades de residência artística com alojamento incluído, através do qual o INSTITUTO tem convidado artistas e arquitetos de vários países africanos.


Em 2024, para assinalar os cinco anos daquele espaço cultural, foi publicado o livro Aprender a Desaprender, que compilou as conversas desses criadores convidados, abordando a temática da descolonização, e que, no ano seguinte, recebeu o Prémio FAD de Pensamento e Crítica, em Barcelona, uma distinção ibérica dedicada às publicações de arquitetura. Para Paulo Moreira, este reconhecimento “motivou-o” e reforçou a importância de continuar a trabalhar temas que, muitas vezes, permanecem à margem. "Às vezes são assuntos que nem sequer entram na discussão da arquitetura contemporânea, mas acho interessante olhar para além dos limites da disciplina."

A mesma lógica de cruzamento disciplinar encontra expressão no Arquiteturas Film Festival, “o maior projeto anual” do INSTITUTO, cuja 13.ª edição acontece já de 1 a 5 de julho em vários espaços da cidade. Sob o tema "Época Urbana", a programação reúne 33 filmes provenientes de 22 países, aos quais se juntam debates, instalações e passeios urbanos dedicados às múltiplas dimensões da vida nas cidades. "Os filmes são uma âncora para uma série de outras atividades que acabam por transformar esta iniciativa em algo mais do que um festival de cinema", afirma o diretor artístico.


"Queremos ir para a cidade, estabelecer redes e criar um circuito pedonal em que a própria cidade se torna protagonista", explica Paulo Moreira, salientando as várias parcerias que têm sido criadas com outros espaços independentes, como a Térmita e a Circo de Ideias, e com espaços institucionais, como o Batalha Centro de Cinema e a Casa Comum." Existe essa vontade permanente de estabelecer relações com outros projetos e outros espaços."

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INSTITUTO © Renato Cruz Santos

No âmbito do Arquiteturas Film Festival será inaugurada, a 1 de julho, a instalação More-Than Cinema, de Claudia Sinatra, Ludwig Berger, Klearjos Eduardo Papanicolaou, Marios Kleftakis e Michael Walczak, que estará patente no INSTITUTO até ao final de setembro, e que integra, também, a programação do Circuitos’26. Com curadoria de Hubert Klumpner e Klearjos Eduardo Papanicolaou, da Chair of Architecture and Urban Design da ETH Zurique, entidade convidada do festival, a instalação articula investigação em pedagogia, imagem, som e práticas audiovisuais, propondo novas formas de leitura crítica do espaço urbano contemporâneo. 

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© Renato Cruz Santos

Raiz em Movimento

É numa antiga fábrica de brinquedos, na Travessa do Campo 24 de Agosto, que está sediada a Raiz em Movimento, um espaço de ateliês e oficinas de artistas e designers que deu origem a “um coletivo informal”, composto por cerca de 25 pessoas que ali encontra “um sítio de liberdade” que, “de vez em quando, abre portas para mostrar os seus trabalhos”. 


A história começou em 2023 quando Diogo Alexandre Machado teve de abandonar o ateliê onde trabalhava porque o prédio ia ser vendido. "A história habitual", resume. Designer de comunicação, produtor, técnico de museografia, encontrou naquele edifício no Bonfim a oportunidade de reunir outros profissionais que procuravam o mesmo: um espaço acessível onde pudessem desenvolver o seu trabalho. "O facto de sermos muitos faz com que o encargo com a renda se torne mais acessível para todos. A Raiz é um ponto de resistência na cidade em que vivemos", sublinha.


A Raiz tem vindo a crescer através da lógica de confiança. Quem chega fá-lo quase sempre por recomendação de alguém que já integra o coletivo. "Só entra amigo de amigo. Tem de partir de uma base de confiança”, diz Diogo. Hoje, o espaço reúne profissionais de áreas tão distintas como as artes plásticas, o cinema, o design, o grafite ou as artes circenses.

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Raiz em Movimento © Renato Cruz Santos

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Ana Maria Simões, Diana Gil e Diogo Alexandre Machado, Raiz em Movimento © Renato Cruz Santos

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© Renato Cruz Santos

Apesar de funcionar como local de trabalho, a Raiz, que, entretanto, ganhou um novo espaço do outro lado da rua, procura não se limitar à dimensão dos ateliês. "Também é importante não ser apenas um espaço de trabalho", sublinha Diogo, que está a reorganizar o edifício para reforçar as zonas de convívio. "Queremos que exista também um espaço social."


Essa convivência acaba por contaminar positivamente os projetos de cada um. Diana Gil conhece bem essa dinâmica. Designer gráfica, artista, música, integra a Raiz desde agosto do ano passado. Antes, trabalhava sobretudo a partir de casa, mas estava à procura de um lugar onde pudesse partilhar o quotidiano com outros criadores. Chegou por intermédio de uma amiga que já ali tinha ateliê. "Temos várias pessoas a trabalhar em áreas completamente diferentes e acabamos por pedir opiniões uns aos outros. Às vezes estou a desenvolver um projeto fora da área de quem está ao meu lado e, mesmo assim, surgem ideias, desbloqueiam-se problemas e criam-se colaborações que depois continuam fora da Raiz."


Formada inicialmente em percussão, Diana acabou por mudar de percurso depois de uma lesão na mão a impedir de continuar a tocar. Licenciou-se em Design Gráfico e desenvolve atualmente um trabalho que cruza design, imagem em movimento, performance e música improvisada. Essa multiplicidade de interesses encontra eco no ambiente da Raiz. "Enquanto designer também sou artista. Muitas vezes as fronteiras misturam-se e é bom estar rodeada de pessoas com quem posso discutir ideias e desbloquear processos."

Mais do que um conjunto de ateliês, a Raiz em Movimento afirma-se como um espaço de experimentação artística, de apoio mútuo e de encontro. Um lugar onde criar continua a significar, também, construir comunidade.

A abertura ao exterior acontece sobretudo através de iniciativas como os Dias Abertos e o X-Acto, que convidam o público a entrar num espaço que habitualmente funciona de forma reservada. "São momentos organizados por nós", explica Diana. "Cada pessoa decide o que quer mostrar, dividimos tarefas, há comida, música e acabamos por criar uma festa." Recorda, por exemplo, o Dia Aberto realizado em dezembro. “Havia pequeninos a correr lá em cima [na área dos ateliês] enquanto cá em baixo algumas pessoas pegaram em CDs e começaram a criar ritmos… foi tudo muito espontâneo, e foi bonito. Tornou-se um espaço experimental, sem idade, desde criancinhas que gatinham até pessoas mais velhas vizinhas que vêm ver o que é que está a acontecer."


Ana Maria Simões chegou à Raiz em abril, por altura do último X-Acto. Trabalha em direção de arte para cinema e desenvolve cenografia e adereços para teatro. Continua a dividir-se entre produções em Lisboa e no Porto, mas encontrou ali um lugar onde pode explorar técnicas de pintura e escultura entre projetos. "Precisava de um espaço para experimentar. Estar rodeada de pessoas de áreas diferentes acaba por promover outras dinâmicas de trabalho."

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© Renato Cruz Santos

Foi precisamente dessa vontade de criar pontos de encontro que nasceu o X-Acto. A primeira edição, dedicada à temática da alimentação, aconteceu em fevereiro e juntou performances, cinema e conversas em torno da agroecologia. A segunda, organizada na semana do 25 de Abril, escolheu a liberdade como mote e reuniu diferentes coletivos, música e convívio. O próximo X-Acto, previsto para outubro, terá como tema a bicicleta e procurará convocar coletivos ligados à mobilidade urbana. 


Ao contrário do que acontece em muitos projetos independentes, Diogo faz questão de sublinhar que todo o trabalho do coletivo é remunerado. "No X-Acto toda a gente recebe, não é tempo dado. Não acreditamos na lógica do voluntariado permanente." Para o fundador da Raiz, estes encontros também são uma forma de "responder à precariedade que marca grande parte do setor cultural". "Há uma luta de classes que nem sempre é assumida, mas existe."


Durante o Circuitos'26, a Raiz voltará a abrir as portas ao público. Ao contrário da edição anterior, desta vez sem uma programação específica. A opção é deliberada. 

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Raiz em Movimento © Renato Cruz Santos

Atelier Amarelo

O Atelier Amarelo é uma casa onde há um estúdio que, de quando em vez, vira galeria. A artista plástica norte-americana Holly Tempo fez do n.º 570 da Rua Pinheiro de Campanhã a sua morada e o seu local de trabalho. 

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Holly Tempo no Atelier Amarelo © Renato Cruz Santos

Holly mudou-se de Los Angeles para Portugal sem ter qualquer ligação ao país. Viveu primeiro em Viseu, onde permaneceu durante cerca de três anos e meio, mas acabou por sentir necessidade de encontrar um contexto artístico mais estimulante, que acabou por encontrar no Porto. "Pensei: há aqui uma cena artística, há coisas a acontecer", conta.


Decidiu procurar um espaço comercial que lhe permitisse trabalhar em telas de grandes dimensões e, ao mesmo tempo, viver no mesmo lugar. Encontrou o local ideal junto à Estação Intermodal de Campanhã. As paredes amarelas acabariam por dar nome ao ateliê. Com o apoio de uma arquiteta, adaptou o imóvel às suas necessidades e mudou-se em fevereiro de 2025. A parte da frente tornou-se o seu estúdio e, sempre que organiza um evento, transforma-o facilmente em espaço expositivo. "Quando tenho uma exposição, basta puxar as cortinas. Instalei ganchos especiais no tecto para pendurar as obras e funciona muito bem."


Holly reconhece que a mudança de país transformou a sua pintura. "Mudou sobretudo as cores que são cada vez mais vivas.” A artista atribui essa mudança às cores da cidade, aos azulejos e aos pequenos detalhes que vai encontrando enquanto percorre as ruas. Costuma fotografar graffitis, flores e plantas, manchas nas paredes ou a roupa de pessoas com quem se cruza. Chama-lhes “estudos do quotidiano” [pedestrian studies] e, muitas vezes, são esses fragmentos que alimentam a sua pintura abstrata.

"O Porto faz-me lembrar Los Angeles nos anos 90, e isso é um elogio." Recorda uma cidade onde predominava a vontade de experimentar e onde os pequenos espaços independentes desempenhavam um papel determinante na criação artística. "Hoje, Los Angeles continua a ser um grande centro internacional de arte, mas perdeu muito desse espírito. Aqui sinto uma enorme vontade de criar." É precisamente essa energia que identifica na proliferação de pequenos espaços independentes em Campanhã e no Bonfim. "Gosto destes lugares pequenos e excêntricos. Fazem-me lembrar aquilo que conheci em Los Angeles."


O ano passado, a artista candidatou-se ao Circuitos e apresentou a exposição coletiva Pin, que reuniu obras de Maria Constanza Ferreira, Pedro Moreira, Megan Sharkey, Anna Townley e da própria Holly Tempo, acompanhadas por uma conversa (LA and Porto: a tale of two art scenes) e uma performance.

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Atelier Amarelo © Renato Cruz Santos

No âmbito do Circuitos'26, o Atelier Amarelo vai apresentar Vibe, uma exposição dedicada exclusivamente ao trabalho de Holly. A programação inclui ainda uma conversa sobre o seu percurso, intitulada Nova Terra: uma viagem à autenticidade [Nova Terra: a journey to authenticity], e um Garden Bath, na varanda da casa-estúdio, prolongando a vocação do espaço como lugar de criação, encontro e partilha.

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Trabalho de Holly Tempo, Atelier Amarelo © Renato Cruz Santos

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