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Reportagem
Clubes de Leitura no Porto
Ler é cada vez mais um gesto social e menos solitário
Reportagem Clubes Leitura Abr26

Clube de Leitura do Batalha © Renato Cruz Santos

Abril 2026

São um incentivo à leitura, lugar de descoberta de novas obras e autores e um espaço de partilha e confronto de ideias. Presenciais ou online, os clubes dedicados ao livro têm-se multiplicado, nos últimos anos, na cidade e no país. No mês em que se assinala o Dia Mundial do Livro (23 de abril), a Agenda Porto destaca seis destes projetos — The Book Club; Heróides; A Poesia Adora Andar Descalça; Clube de Leitura do Batalha; Picnic Book Club; Literacidades — onde a literatura serve de pretexto para algo mais raro: a criação de verdadeiras comunidades em torno dos livros. Talvez seja isso que explica a vitalidade dos clubes de leitura.

The Book Club - Fisga Warehouse

Na Fisga Warehouse, há um clube do livro (em inglês) que começou por ser apenas um refúgio de inverno e depressa se transformou numa pequena comunidade. Quando Liyana Balkanska chegou à Fisga, em setembro de 2024, o programa cultural do espaço fazia-se sobretudo de concertos e performances, mas a equipa percebeu que, “durante os meses mais frios, as pessoas procuravam eventos mais aconchegantes”.


A ideia do clube surgiu por acaso: “uma das nossas colegas comentou que adorava participar em clubes de leitura, porque era uma forma de conhecer pessoas novas; como eu adoro ler e sou expat, achei que seria uma comunidade que gostaria de criar e dinamizar, enquanto trazia uma proposta mais intimista e acolhedora ao programa cultural da Fisga”, conta Liyana à Agenda Porto.


O projeto começou por se chamar Plot Season, tendo sido pensado como “uma série de encontros”. “No entanto, à medida que a comunidade foi crescendo, tornou-se claro que as pessoas queriam continuar ao longo de todo o ano, e a equipa acabou por lhe chamar The Book Club”, explica.


O crescimento foi de tal forma exponencial que no início havia “quatro ou cinco pessoas nas sessões; ao fim de meio ano já eram cerca de cinquenta, e hoje são mais de 140 membros”.

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The Book Club © Fisga Warehouse

“A leitura tornou-se um gesto de rebeldia”

Para a jovem leitora de 23 anos, mais do que um hábito, a leitura “tornou-se quase um gesto de rebeldia”. “É uma forma de abrandar e de nos voltarmos a conectar com formas mais profundas de atenção”, vinca. E recorda, neste sentido, que, sendo a Fisga um espaço de cowork, “muitos de nós passam o dia inteiro a olhar para ecrãs e a interagir com outras pessoas que também estão a olhar para ecrãs”. "Esta pequena forma de rebeldia torna-se ainda mais necessária”, defende, acrescentando que isso a “entusiasma em fazer crescer esta comunidade e em experimentar novas formas de nos relacionarmos com os livros”.


Não surpreende, por isso, que o clube não se limite à discussão literária: há chá, sobremesas caseiras, jogos, experiências. Houve até um “Book Tasting”, onde livros e vinhos se cruzaram numa espécie de prova sensorial, em parceria com a Rosebud Bookshop e o GWines Wine Club. “Combinámos livros e vinhos e convidámos os participantes a ‘provar’ diferentes géneros e histórias que provavelmente não escolheriam normalmente.”


Mas o que distingue este clube não é apenas o formato — deliberadamente informal — nem o facto de as sessões decorrerem quinzenalmente em inglês. É, sobretudo, a forma como se constrói em conjunto: aqui, todos podem propor livros, votar nas próximas leituras e conduzir a conversa.


Essa abertura reflete-se na própria comunidade. Entre os participantes encontram-se “leitores habituais e leitores ocasionais; pessoas que trabalham como professores de literatura ou de línguas e que já leram centenas de livros, mas também estudantes curiosos que simplesmente querem explorar novas ideias”.


Como as sessões acontecem em inglês, uma parte significativa da comunidade é composta por expats, mas também já conta com muitos membros portugueses. As idades variam entre os 20 e os 60 anos, e, assegura Liyana, “aquilo que torna as conversas interessantes é precisamente o facto de todas as perspetivas serem valorizadas”.

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The Book Club © Fisga Warehouse

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Book Cards © DR

A escolha dos títulos segue essa lógica plural. “Até agora explorámos tanto clássicos como literatura contemporânea.” Recentemente, leram Crooked Plow, de Itamar Vieira Junior, e nos últimos meses discutiram livros como Ensaio sobre a Cegueira, Pachinko e Little Women. Em março, pela primeira vez, tiveram uma novela gráfica, Watchmen, “numa sessão especial”, refere.


Para facilitar a conversa entre participantes, a equipa da Fisga criou as Book Cards, um jogo de cartas em que cada carta propõe perguntas gerais que podem aplicar-se a quase todos os livros — “O livro fez-te mudar de opinião sobre alguma coisa?” ou “Com que personagem te identificas mais?” — e que funcionam como chaves de entrada num diálogo mais amplo. “São especialmente úteis quando o grupo é grande, porque permitem dividir os participantes em grupos mais pequenos e dar espaço para que todos possam partilhar as suas ideias”, explica Liyana.


A jovem refere que o Book Club atrai pessoas que “procuram espaços mais centrados nas relações humanas”. “As pessoas encontram aqui um ambiente onde se sentem confortáveis, bem-vindas e, esperamos nós, cuidadas. O foco está menos na análise literária formal e mais na conversa significativa e na experiência partilhada através do gosto pela leitura”, sustenta.

Heróides - clube do livro feminista

As Heróides - clube do livro feminista é um projeto de leitura, discussão e conversa à volta de livros, com encontros mensais, que junta online centenas de pessoas, contando também com algumas sessões presenciais. O desafio é “ler um livro por mês, e no último sábado de cada mês realiza-se um encontro num clube de leitura via Zoom”.


Criado em 2021 no seio da Cassandra, este clube surgiu “depois de quase um ano de sucessivos confinamentos”. “Se, por um lado, para algumas pessoas esse foi um tempo em que puderam retomar hábitos de leitura, por outro, a maioria delas não tinha com quem conversar sobre o que lia. Então, as Heróides surgem de uma vontade de descobrir outras pessoas para conversar sobre livros, e, com elas, descobrir novas formas de olhar para o mundo”, afirma Sara Barros Leitão, diretora artística da Cassandra.


Foi apenas em janeiro deste ano, seis anos depois da sua criação, que se leu, pela primeira vez, o livro que deu origem ao nome do clube, Heróides, de Ovídio, e que consiste “num conjunto de cartas assinadas apenas por mulheres (a maioria delas, personagens fictícias e mitológicas)”. “Apesar de reconhecermos em Ovídio um gesto disruptivo no seu tempo — o de dar voz às mulheres — ele não deixa de ser um homem a escrever. Por isso, apropriamo-nos do nome do seu livro para tomar e reivindicar para nós essa voz e lermos, fundamentalmente, mulheres escritoras, que escrevem as suas próprias histórias”, explica Sara Barros Leitão à Agenda Porto.

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Heróides - clube do livro feminista © Cassandra

“Aquilo que decidimos ler é um gesto político”

Nas Heróides lêem-se, sobretudo,” mulheres escritoras”, e procura-se que haja uma diversidade no que respeita à geografia de onde são oriundas, “de modo a não ficarmos reduzidas a escritoras europeias ou norte-americanas”. “Aquilo que decidimos ler é, sem dúvida, um gesto político”, sublinha.


Contudo, para Sara, “o maior gesto político” das Heróides são os encontros mensais “que juntam entre 60 e 80 pessoas para falar sobre livros, e, sobretudo, criar nesse lugar de encontro um espaço de estímulo intelectual, respeito pela opinião do outro, companheirismo, empatia e amizade”.  


A próxima sessão acontece a 18 de abril e vai debruçar-se sobre a obra Destemidas - Mulheres que só fazem o que querem, de Pénélope Bagieu (volumes 1 e 2), tendo como convidada Cláudia Varejão. A participação nas sessões é gratuita, mas necessita de inscrição no site da Cassandra. As inscrições são abertas mês a mês, no dia 1, às 10h00. Cada sessão tem a duração estimada de duas horas.

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Heróides - clube do livro feminista © Cassandra

Sugestões de leitura da Heróides

"A melhor sugestão de livros que ainda não lemos que podemos deixar é recuperar os livros que têm estado sucessivamente na lista de livros mais sugeridos para os meses em que o livro é escolhido pela comunidade, pois assim garantimos que são realmente sugestões colectivas", afirma Sara Barros Leitão. São eles:

 

Uma Educação, de Tara Westover 


O Acontecimento, de Annie Ernaux 


A Vegetariana, de Han Kang 


O Caderno Proibido, de Alba de Céspedes

Clube de Leitura do Batalha

Um diálogo entre cinema e literatura


O Clube de Leitura do Batalha, que vai já na sua quarta edição, parte da premissa de que “os filmes têm a capacidade de transformar a nossa relação com a palavra escrita, e vice-versa”. “O clube de leitura faz parte integrante da missão do Batalha de se constituir, desde que abriu, enquanto centro cultural comunitário, onde a exibição de cinema dialoga com outras formas de convivência social em torno de expressões culturais sem as quais o cinema não poderia existir: a escrita é uma delas, sem dúvida”, afirma à Agenda Porto o diretor artístico da instituição, Guilherme Blanc.


Através de filmes que integram a programação deste centro de cinema, a proposta é a leitura e a análise conjunta de romances, contos, textos dramatúrgicos, poemas ou ensaios, sendo que para esta edição foram convidados como coordenadores Gabriela do Amaral, poeta, escritora e designer, e Rui Manuel Amaral, escritor e editor.


Segundo Rui Manuel Amaral, experiente organizador de encontros à volta dos livros em espaços como o Gato Vadio e a Térmita, o objetivo destas sessões é “ler e conversar sobre textos que funcionem como pistas de leitura de alguns filmes da programação do Batalha, mas não exclusivamente; textos de todos os géneros, incluindo os que não pertencem a género nenhum”.

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Clube de Leitura do Batalha © Renato Cruz Santos

“Eu e a Gabriela achámos que era necessário fazer essa ponte entre os textos e os filmes. Muitas vezes, vês um filme e queres falar com alguém sobre o que acabaste de ver; a tua maneira de imaginar as coisas funciona melhor se estiveres a conversar com alguém. Se ficaste sozinha com os teus pensamentos, funciona, mas não é a mesma coisa. E a literatura pode ajudar a fazer essa ponte. Tu vês um filme, ou um ciclo, e podes tentar procurar textos que te possam iluminar, lançar pistas sobre esses filmes”, sustenta.


A propósito, Gabriela do Amaral defende que "pode ampliar as conversas que os filmes principiam". "Eu e o Rui estamos sempre pensando em formatos híbridos, como entrevistas, ensaios, poemas, contos, cartas, que levem o público a ter ferramentas para refletir sobre a temática que propomos", diz, acrescentando que "mesmo que a pessoa entre e saia sem falar nada, o importante é também estarmos fazendo isto num cinema, em conjunto, e em carne e osso".


Ao contrário de outros clubes de leitura, “não há um livro que é escolhido para ser lido”. “Estamos muito habituados a que seja proposto um livro, as pessoas lêem-no durante o mês e depois juntam-se e falam sobre ele. Aqui é exatamente o contrário; propomos textos curtos, que lês sem grande esforço, e pode ser um conto, poesia, ensaios, ou até excertos de entrevistas, que permitam que as pessoas descubram outros autores”, esclarece Rui. 


E neste clube, sublinha, “ninguém é obrigado a ler nada”. “Os participantes recebem um dossiê com duas semanas de antecedência, mas podem vir sem terem lido; tomam um copo e ouvem a malta a falar. A liberdade é total”, diz. O importante, frisa, é as pessoas “sentirem-se confortáveis para dizerem o que pensam”: “se me apetecer dizer qualquer coisa, mesmo que seja uma palermice, posso dizê-lo, e eu sou o exemplo disso; sendo o coordenador, tento ser o mais pateta possível para deixar o resto dos leitores à vontade. E nada daquela coisa muito solene, tudo muito sério”, ri-se.

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Clube de Leitura do Batalha © Renato Cruz Santos

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Gabriela do Amaral e Rui Manuel Amaral no Clube de Leitura do Batalha  © Renato Cruz Santos  

Para a sessão de abril, Rui e Gabriela vão inspirar-se no documentário etnográfico Máscaras (1976), da cineasta portuguesa Noémia Delgado, que será exibido no Batalha nos dias 10 e 15 de abril. “Mas o tema é apenas um ponto de partida para abrir espaço”, reforça.


Edição após edição, o Clube de Leitura do Batalha tem crescido e criado, como refere Guilherme Blanc, “uma comunidade coesa e crescente”. Este ano, dada à procura, foram constituídos dois grupos pelos quais se dividem os 70 participantes inscritos.


Rui conta que, na primeira sessão, perguntou aos participantes o motivo de se terem inscrito, sendo que “uma boa parte disse que vinha porque trabalhava em casa, e isto era um momento para sair e estar com mais gente”. “Eu achei extraordinário o pretexto ser literatura”, exclama.  "Me parece uma grande revolução que as pessoas hoje saiam de casa para se encontrar e ler em conjunto. Sinceramente, acho que é isto, uma revolução", acrescenta Gabriela.


“A literatura é para teres prazer, e se conseguirmos chegar a isso, pelo menos um bocadinho, tanto como estar a ouvir música ou a ver um filme, maravilha!”, remata Rui. 

Picnic Book Club

Foi precisamente no Clube de Leitura do Batalha que, em 2024, a paixão de Cristiana Rodrigues pelas leituras conjuntas ganhou outra espessura. “Eu andava à procura de um clube que me motivasse a voltar a ser a leitora ávida que tinha sido na infância e adolescência. Experimentei alguns clubes com os quais não me identifiquei e encontrei outros que eram online. Eu queria a possibilidade de discutir cara a cara, de partilhar e ouvir opiniões diferentes e foi exatamente o que encontrei no Clube de Leitura do Batalha”, conta a fundadora do Picnic Book Club à Agenda Porto. Como este clube funciona por temporada, quando acabou, Cristiana sentiu “um certo vazio” e tomou, por isso, a decisão de criar o seu próprio clube literário.


Assim nasceu o Picnic Book Club, que cruza literatura, convívio e pensamento crítico num registo informal — muitas vezes em modo piquenique — e com uma identidade assumidamente feminista. O que distingue este clube de leitura, sublinha, é “o foco em temas feministas e questões sociais”. Os encontros partem dos livros, mas raramente se ficam por eles: “normalmente, extrapolamos sempre o tema do livro para a nossa realidade”, num movimento que abre espaço a discussões mais densas e implicadas.


Para Cristiana Rodrigues, a leitura é tudo menos neutra. “Eu acredito que a leitura é inerentemente política e que a escolha dos livros que lemos deve ser consciente”, afirma, recusando, ainda assim, qualquer hierarquia rígida entre géneros literários. No clube, lê-se de tudo — do romance ao teatro — desde que os textos convoquem questões sociais. É essa camada que, no seu entender, sustenta a riqueza das conversas: “porque nos sentimos representados ou empatizamos com os problemas retratados, porque nos faz questionar a nossa perspetiva do mundo”.

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Picnic Book Club © DR

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Picnic Book Club © DR

A jovem leitora conta que sempre quis evitar que o clube se reduzisse a um ponto de encontro entre pessoas com gostos semelhantes — “apesar de a comunidade também ser muito importante”, interessa-lhe o que acontece quando a leitura toca o quotidiano e o desestabiliza: “acho que uma discussão é muito mais produtiva e a leitura de um livro é muito mais marcante quando está associada a questões que nos tocam no dia a dia”.


Neste sentido, “no estado atual do mundo e na conjuntura política que vivemos”, reforça a importância de “lermos de forma política, alargando os nossos horizontes e vivendo com espírito crítico”.


A programação do Picnic Book Club organiza-se em torno de temas mensais, que tanto podem nascer de datas simbólicas — “por exemplo o 25 de Abril ou o Pride Month” — como de urgências contemporâneas, como a leitura de autores palestinianos.

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Picnic Book Club © DR

Segundo Cristiana, o processo de escolha cruza críticas online, “tanto de críticos literários como de leitores comuns da internet”, com sugestões dos próprios membros, numa curadoria aberta e partilhada. Procuram-se livros com densidade, capazes de “levantar questões ou de oferecer perspetivas menos familiares”, equilibrando, sempre que possível, autores portugueses e estrangeiros.


Com um formato presencial, o clube de leitura não está, neste momento, a aceitar mais membros “para garantir o bom funcionamento dos encontros”. No entanto, está disponível um formulário de inscrição em que os interessados podem ficar em lista de espera para serem contactados quando surgirem vagas.


“Acho que juntarmo-nos em comunidade é muito importante e, por isso, mesmo é que eu quis que o clube fosse presencial. Este contacto humano e troca de opiniões cara a cara acrescenta muito”, sublinha. “Vários membros, incluindo eu mesma, já fizeram amigos através do clube, o que acredito que seria mais difícil virtualmente”, conta Cristiana.

Clube de Poesia: A Poesia Adora Andar Descalça

É um dos mais recentes clubes de leitura do Porto: sob o verso de Eugénio Andrade, A poesia adora andar descalça, nasceu, no final de fevereiro, na Biblioteca Poética Eugénio de Andrade um espaço dedicado a quem quer sentir a poesia de perto, sem receios nem formalismos.


Carla Teixeira e Maria Adelaide Silva são as responsáveis por este encontro semanal, que decorre às quartas-feiras, entre as 15h e as 16h, com o intuito de dinamizar a única biblioteca do país especializada em poesia contemporânea.


“Como é uma casa de poesia, tivemos a ideia de criar um clube que, no fundo, refletisse a coleção que temos na biblioteca”, conta Carla Teixeira, bibliotecária da Biblioteca Almeida Municipal Garrett e coordenadora do serviço de apoio às bibliotecas escolares. “Queremos suscitar pensamento crítico e debate e criar uma relação entre os participantes e este espaço.”

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Carla Teixeira © Rui Meireles

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Clube de Poesia - A Poesia Adora Andar Descalça © Rui Meireles

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Clube de Poesia - A Poesia Adora Andar Descalça © Rui Meireles

Sophia de Mello Breyner, Vasco Graça Moura, Eugénio de Andrade, Rosa Alice Branco, Manuel António Pina, Miguel Torga, Maria do Rosário Pedreira e Nuno Júdice são alguns dos poetas que passaram ou vão passar pelas sessões do clube que pretende ser “um espaço para explorar, discutir e partilhar o universo da palavra num ambiente descontraído e informal, seja através da leitura e análise de poemas de autores reconhecidos ou da reflexão sobre temas universais”.


“Não estamos numa aula. A ideia é que as pessoas se sintam livres de partilhar, de descobrir o poeta que lhes toca, que condiz com elas”, diz Maria Adelaide. “A gente para vir para aqui para estar a dormir, vai à missa”, ri-se. Para esta mediadora, o desafio é tornar a poesia acessível: “As pessoas costumam ter dificuldade em entrar na poesia. Queremos mostrar-lhes que os poemas têm recados e pedaços da nossa vida.”


O público-alvo é amplo, “dos 16 anos para cima”, embora a maioria dos participantes atuais seja sénior. A entrada é gratuita, carecendo apenas de inscrição através do site das Bibliotecas do Porto. Mas ainda que não se tenham inscrito, os interessados e curiosos podem aparecer porque o clube funciona sempre de porta aberta – um convite para caminhar descalço no universo da poesia.

Literacidades

O Literacidades nasceu em 2019, nas redes sociais, como um projeto de divulgação literária que começou por associar livros a lugares, especialmente no Porto, e que rapidamente se tornou num dos perfis portugueses dedicados à leitura mais seguidos. Hoje, promove um clube do livro online e presencial, com sessões mensais dedicadas, sobretudo, a livros de autores de língua portuguesa, e que acontecem em diferentes espaços da cidade do Porto e arredores.


Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, ambos ligados à Universidade do Porto, começaram com “essa pequena premissa” de escrever críticas curtas sobre obras que tinham acabado de ler, fotografando-as depois num espaço da cidade, mas com a pandemia “o foco mudou”, como contam à Agenda Porto. A covid-19 “atirou-os para casa” e pensaram em formas de reinventar o projeto, nomeadamente através de conversas em direto com autores, “durante umas horas, ao domingo à tarde”. José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe, Dulce Maria Cardoso foram alguns dos seus convidados, como recordam agora. Simultaneamente, iam recebendo, por parte dos seguidores, cada vez mais pedidos de sugestões de leitura. “O Literacidades foi crescendo e tornou-se num projeto [que ia] muito além da partilha de opiniões sobre livros.”


Foi em dezembro de 2024 que criaram o clube do livro “para trazer o online para o presencial” e “para promover a literatura em língua portuguesa”. Ambos consideram que, apesar de em Portugal se publicar cada vez mais autores de língua portuguesa, continuam a ter “pouco espaço nas livrarias”. “A nossa intenção com este clube é ler livros de autores de língua portuguesa vivos, sejam eles portugueses, brasileiros, moçambicanos, angolanos… há muitos autores pouco conhecidos que merecem ser lidos”, defendem, desfiando nomes como Ana Teresa Pereira, Hélder Gomes Cancela, Mariana Salomão Carrara e Vítor Vidal.

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Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, Literacidades © Rui Meireles

“As pessoas conseguem falar sobre livros como quem fala de equipas de futebol”

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Sugestões de leitura da equipa do Literacidades © Rui Meireles

Para a conversa com a Agenda Porto, fazem-se acompanhar de Matilde, de Hélder Gomes Cancela, a obra que no clube “deu origem a uma discussão mais vasta”. “Tivemos quase duas horas a falar praticamente só sobre a personagem deste livro, o que foi muito interessante.”


Álvaro conta que certos títulos debatidos no clube do livro já geraram discussões inesperadas. “As pessoas conseguem falar sobre livros como quem fala de equipas de futebol, o que às vezes acaba por ser engraçado”, ri-se.


Para a sessão do mês de abril, selecionaram dois títulos de Rute Simões Ribeiro, A Breve História da Menina Eterna e O Homem sem Mim. “É uma autora portuguesa muito pouco conhecida e escreve muito bem”.


Álvaro e Ludgero costumam fazer um apanhado dos clubes de leitura que existem pelo país fora e contabilizaram já cerca de uma centena.  “Há clubes para todos os gostos e feitios, presenciais e online, com grupos no Discord, onde as pessoas comentam os livros por capítulos, por exemplo.”


Sobre a multiplicação destes fóruns dedicados aos livros e à leitura, não têm dúvidas: “as pessoas estão fartas do online”. “As pessoas sentem falta de estar umas com as outras, e estar num clube de leitura é poder abrir horizontes, é poder partilhar experiências de leitura — e não só.” A prova está no que vai acontecendo fora das sessões do Literacidades, dizem. “Já percebemos que surgiram alguns grupos dentro do clube, isto é, pessoas que saem juntas para eventos literários, por exemplo. Gera-se mesmo uma comunidade e isto é muito bom.”

Sugestões de leitura


Álvaro Curia sugere o novo livro da Marta Paz Oliveira, intitulado Como Caminhar Num Pântano. “É um livro riquíssimo que nos fala de uma personagem, uma mulher, que gosta de sair à noite e que tem como obsessão roubar as malas das outras mulheres. Ela fá-lo, depois conta, para tirar o peso que as mulheres carregam. Rouba-lhes as malas e acha que está a fazer uma boa ação. Essa personagem vive em tumulto, numa espiral de loucura, mas o fluxo de consciência está tão bem construído que uma pessoa não consegue parar de ler. Gostava de conhecer essa mulher e, se calhar, ia sair com ela à noite uma vez, devia ser giro”, ri-se.


Ludgero Cardoso sugere Moçambique com Z de Zarolho, de Manuel Mutimucuio. Nesta história, “o governo de Moçambique institui o inglês como idioma oficial, substituindo as suas línguas locais e a língua portuguesa imposta pelo ex-colonizador”. “Isso remete-nos para uma reflexão sobre o papel da língua. A língua molda a cultura ou é a cultura que molda a língua? E até que ponto é que adianta substituir uma língua, sendo que a antiga também já não era falada pelos povos originais daquele lugar? Até que ponto é que a imposição de uma língua vai beneficiar a população?”

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