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outubro 2026
Ao longo das últimas décadas, José Pinhal foi redescoberto através do passa-palavra, tornando-se uma espécie de ídolo de massas. O fenómeno de popularidade ficou, também, a dever-se ao projeto que lhe presta homenagem: José Pinhal Post-Mortem Experience (JPPME). A banda que, durante dez anos, levou as canções do artista de Santa Cruz do Bispo a palcos de norte a sul do país (e ilhas), e fez com que ganhasse ouvintes que ainda não tinham nascido quando faleceu, despede-se agora com dois concertos nos coliseus do Porto e de Lisboa. Os JPPME prometem a última homenagem ao mestre de baile que, décadas depois do seu desaparecimento, pôs tanta gente a cantar que “a vida dura muito pouco”. A Agenda Porto esteve à conversa com a banda na sala de ensaios, no STOP.
Bigode farto, olhar grave, fato branco sobre uma camisa preta. A figura de José Pinhal parece saída do imaginário romântico dos bailes populares dos anos 80, década em que animou as noites do Porto, sobretudo em boates e discotecas, e editou três volumes em cassete (em 1984, 1985 e 1991). Desapareceu, em 1993, num desastre de automóvel, quando regressava de um concerto. Depois disso, durante muitos anos, não se ouviu falar do músico até que, em meados dos anos 2000, duas cassetes suas foram parar às mãos de Paulo Cunha Martins, fotógrafo, DJ e, nas palavras do próprio, “um apaixonado por músicas obscuras”. Começou por ouvi-las com amigos, digitalizou-as e passou a incluir alguns dos temas nos DJ sets das festas que animava. Rapidamente, as canções começaram a circular em pens, CDs e, claro, na Internet. Anos depois dessas primeiras partilhas, em 2016, surgem os José Pinhal Post-Mortem Experience (JPPME): João Sarnadas (Coelho Radioactivo) mostrou os temas aos colegas da Favela Discos, coletivo artístico e editora discográfica independente do Porto, e deu o primeiro passo para que nascesse a banda tributo.

José Pinhal © DR
“A Favela Discos tinha uma residência no Café Au Lait que promovia a criação de projetos musicais que eram uma espécie de one night bands; paralelamente, havia o evento O João Faz Anos, a festa de aniversário do João Paulo Granada, em que fui convidado a participar”, recorda Sarnadas. Interessaram-se pelos temas do artista e decidiram montar um projeto musical a partir do seu repertório. “Tínhamos descoberto José Pinhal há pouco tempo e a personagem era muito misteriosa porque havia pouca informação. As letras das músicas e alguns comentários em vídeos no YouTube de pessoas que o tinham conhecido eram as únicas pistas disponíveis. Foi, aliás, através de um dos comentários que descobrimos que tinha falecido.”
A formação juntava João Sarnadas (guitarra), Tito Silva (teclado/trompete), Nuno Oliveira (percussões), David Machado (saxofone), todos eles da Favela Discos, e José (Zezé) Cordeiro, que “se ofereceu para tocar baixo”. “Conhecia a música de José Pinhal, soube que havia a ideia de fazer uma banda de tributo com este nome e juntei-me imediatamente”, recorda. Ainda faltava a voz. A banda ensaiou algumas vezes sem vocalista até à chegada de Bruno Martins, que já no projeto Bruno de Seda encarnava o clássico cantor romântico português. “O Zezé mandou mensagem a perguntar se eu queria ser vocalista de uma banda de baile em que ele tocava e eu disse logo que sim.”
O primeiro concerto acontece em março de 2016, na festa O João Faz Anos, no extinto Cave 45, no Porto. Musicalmente, não foi um triunfo. “Correu particularmente mal”, atira Zezé, entre risos. Nuno Oliveira prefere outra perspetiva: “Foi muito mau em termos de prestação musical, mas foi muito bom em termos de emoção.” E concretiza: “Percebemos que havia uma magia e um potencial agregador no projeto. Toda a gente sai afetada (risos). No início, as pessoas ficavam surpreendidas: como é que as músicas são todas tão sonantes, catchy e divertidas, e isto não era conhecido até hoje!? Como é que isto estava escondido?”
No ano seguinte, fazem a segunda aparição na mesma festa, desta vez no GrETUA, em Aveiro. O grupo só voltaria a atuar mais de um ano depois, nas Festas de São João do Porto. É aí que José Pedro Santos (bateria) se junta à banda. O músico e programador estava a organizar a festa da Suave Geração, que acontecia aos domingos e que, naquele ano, coincidia com o São João. A festa teria lugar na Praça da Batalha, com direito a camião-palco; José Pedro pensou que seria uma boa oportunidade para os JPPME atuarem. A banda aceitou o desafio, mas com uma condição: ele teria de entrar para o grupo, porque “precisavam de um baterista”. Ficou assim completa a formação.

JPPME © Renato Cruz Santos

JPPME: José Pedro Santos, João Sarnadas, Bruno Martins, David Machado, Nuno Oliveira, Tito Silva e Zezé Cordeiro © Renato Cruz Santos
Em palco, os JPPME apresentam-se a preceito: Bruno Martins veste-se de branco, à imagem de José Pinhal, enquanto os restantes músicos envergam camisas cor de vinho, numa referência a um raro registo em vídeo de uma atuação do cantor numa boate. Nesse vídeo, um garçon surge junto do artista a despejar champanhe para um frapê. “Tentamos trazer o imaginário do José Pinhal para os concertos para terem mais profundidade; o Bruno foi apanhando alguns trejeitos, e a sua filha Marina, de quem ficámos amigos, deu-nos dicas”, conta Sarnadas.
Mas havia uma fronteira que, desde cedo, quiseram deixar clara: JPPME não era uma paródia. Essa preocupação acompanhou o projeto desde os primeiros tempos. “Houve muita atenção ao que é o respeito pela memória daquela pessoa”, explica Sarnadas. E também existia o receio de que o público não percebesse o que estavam a fazer. “Este projeto até pode ter algum humor, mas não é gozar”, sublinha Zezé. “Os concertos costumam acabar com o tema A vida dura muito pouco, que tem uma mensagem de alegria e boa disposição, e que era a forma de estar do próprio José Pinhal. Sempre tivemos o cuidado de não passar a ideia de paródia”, vinca. A conclusão de Sarnadas é simples: “A parte divertida é do próprio José Pinhal; não é nossa.”
Apesar de reconhecerem que o projeto contribuiu para que “um tipo de música que dificilmente chegaria ao mainstream” encontrasse novos públicos, apontam outros responsáveis pelo ressurgimento do artista: o já citado Paulo Cunha Martins e também Joaquim Gomes, um arquivista de música popular portuguesa no Youtube. “A música de Pinhal já era conhecida em vários circuitos, mas o facto de existir uma banda a tocar as canções ao vivo deu-lhe outra organicidade”, frisa Nuno Oliveira. “Nesse sentido, acho que fizemos muito pela propagação da sua música”, acrescenta Sarnadas.
Zezé relaciona o ressurgimento de Pinhal com “uma tendência para um certo revivalismo”, referindo que, “no fim dos anos 2010, houve um revival dos anos 80”. O músico aponta, ainda, como causas para o fenómeno de popularidade “a facilidade com que a música se espalha”, graças à Internet, e “a mudança na forma como determinados géneros musicais são escutados e revisitados”. Nos concertos de JPPME, há pessoas de diferentes faixas etárias e origens. E há quem atravesse fronteiras para ouvir a banda. Numa das atuações, os músicos conheceram uma fã que tinha vindo da Finlândia de propósito. Tinha descoberto José Pinhal no Spotify e aquele era já o terceiro concerto a que assistia.
São muitas as histórias reveladoras da “alegria contagiante” de JPPME. Nuno Oliveira recorda um episódio com uma pequena fã, “uma menina que não arredou pé num concerto em Freamunde, nas Sebastianas, em que chovia imenso”. “Houve muitos cancelamentos [por causa do mau tempo], mas nós decidimos tocar. Houve uns resistentes que viram o concerto à chuva. No final, essa menina e a irmã, que eram pequeninas, vieram ter connosco cumprimentar-nos. Tempos depois, num concerto nos Banhos Velhos, a menina apareceu com uma t-shirt que tinha era a montagem de uma fotografia nossa com ela ao nosso lado.” “Essa t-shirt é espetacular!”, corta Zézé, entre risos.
Há uma preocupação que atravessa o trabalho dos JPPME: tocar as músicas sem perder a essência das originais. “Há músicas em que somos obrigados a fazer a versão da banda; e a tocar em banda há canções que soam diferente da versão original”, diz Sarnadas. Zézé aponta como exemplo o tema Perdoa-me, que sofreu "uma transformação considerável". A gravação original tem uma batida mais rápida do que aquela que a banda toca ao vivo, mas “a reinterpretação foi feita a pensar como soaria se nós fossemos a banda de José Pinhal”. “Portanto, nós não tentamos fazer algo diferente do espírito da música dele.”
Uma das ambições dos JPPME sempre foi tocarem todo o repertório do cantor. É uma tarefa que os músicos levam a sério ao ponto de “começarem a questionar as próprias capacidades”, como admite Sarnadas, entre risos. O terceiro volume da discografia colocou desafios diferentes. A instrumentação é mais reduzida do que nos primeiros discos, onde havia bateria, teclado e uma formação mais próxima de JPPME. Para adaptar essas canções, os músicos recorrem aos restantes volumes. “Quando temos de adaptar músicas do volume 3, vamos ouvir os outros volumes e tentar perceber como é que estas músicas seriam tocadas por uma banda”, refere Bruno de Seda.
Do primeiro volume, já tocaram tudo. Do segundo, aquando da entrevista, faltavam duas músicas. No total, restavam sete temas para completar a discografia. Agora, nos coliseus, haverá espaço para algumas dessas descobertas. Talvez se ouça a versão de Pinhal do tema brasileiro Rancho Fundo, um dos mais pedidos pelos fãs. O repertório completo “não cabe em dois concertos”, por isso “haverá músicas que serão tocadas num espetáculo e não no outro”. A intenção é que as duas noites no Porto e em Lisboa sejam diferentes. Mas garantem: “Vamos tocar músicas que nunca tocámos ao vivo."

Cassete de José Pinhal, Vol. 1 © DR

Na sala de ensaios de JPPME © Renato Cruz Santos
Canções que o tempo não apagou
Em Não é possível, single do quarto trabalho de José Pinhal, que nunca chegou a ser editado, mas foi apresentado, em 1991, na Rádio Paralelo, há um verso que hoje parece quase uma profecia: Não é possível pensar que o tempo vai tudo apagar. E não apagou. Para os JPPME, a sobrevivência da música está também ligada à preservação das gravações. “As cassetes desaparecem e, se ninguém as digitalizar, perde-se essa memória para sempre”, lembra Nuno Oliveira. Neste sentido, Tito reforça a importância da digitalização e destaca como exemplo o trabalho de Joaquim Gomes, através do qual conheceram muitos outros artistas e projetos musicais. No caso de José Pinhal, aconteceram vários processos em paralelo: as cassetes foram digitalizadas, as músicas começaram a circular, foram recuperadas por DJs, chegaram à Internet e ganharam uma banda que as passou a tocar ao vivo.
Agora, ao fim de uma década, os JPPME decidem deixar os palcos, mas com “a sensação de que foi cumprida uma missão”. “Atingimos um número redondo; vamos fechar este capítulo”, diz Zezé. Os músicos têm outros projetos e querem voltar a eles, e sabem que as canções de Pinhal continuarão a circular com o seu contributo e de muitas outras pessoas. “A música de José Pinhal já está bastante difundida e tornou-se um standard em vários grupos de baile”, nota Bruno Martins.
A despedida acontece a 9 de outubro, no Coliseu Porto Ageas, e a 7 de novembro, no Coliseu dos Recreios. A banda quer que sejam concertos especiais. “Prometemos que vamos ter o nosso barman presente, e gostávamos de convidar algumas pessoas que fizeram parte do percurso de José Pinhal; músicos, o produtor, letristas e outras pessoas que ainda estão vivas”, adianta Sarnadas. A última oportunidade para homenagear José Pinhal será também uma oportunidade para reconhecer quem fez parte da história da sua música.
Depois, cada um seguirá os seus caminhos (sendo que se cruzam noutros projetos musicais). João Sarnadas tem trabalhado no quarto disco do seu projeto a solo, Coelho Radioactivo, com lançamento previsto para 31 de outubro; o primeiro single, Fogo de Artifício, chegou em setembro. O segundo álbum de Bruno de Seda está previsto para novembro, e David Machado prepara um novo álbum dos Bezbog.
Talvez esta seja a melhor forma de uma banda de tributo se despedir: deixar de ser necessária porque aquilo que quis recuperar já não está esquecido. Afinal, como se ouve nos concertos de JPPME, “José Pinhal [é] imortal”.

José Pinhal © DR
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