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A falta de rumo na juventude, o desencanto dos perdedores do capitalismo, os códigos de rua e a pequena criminalidade, os conflitos resultantes das migrações ou o isolamento nas pequenas cidades são alguns dos temas retratados em Entroncamento, filme de Pedro Cabeleira que estreou na última edição da ACID, secção paralela do Festival de Cannes ligada à difusão de novo cinema independente.
Depois de Verão Danado (vencedor de uma menção especial em Locarno) e das curtas Filomena e By Flávio (estreada na Berlinale 2022), o jovem autor decidiu rodar na terra onde cresceu até aos 18 anos. Na história, onde “sobressaem as lealdades, a ganância, a violência e a má sorte”, como refere na sinopse, mas “onde toda a gente só quer uma vida melhor”, os caminhos dos que nunca partiram entroncam-se com os de quem entretanto chegou, como as linhas ferroviárias da zona. E há também um pouco de Porto na história.
O cineasta repetiu a opção usada na primeira longa: seguir “uma planificação mais livre” e filmar tudo de câmara ao ombro, para dar “espaço à improvisação dos atores, permitindo-lhes liberdade de movimento”. Entre eles estavam Ana Vilaça, Cleo Diára, Tiago Costa ou Sérgio Coragem, parceiros em projetos anteriores, mas também Rafael Morais ou o estreante Henrique Barbosa. Na direção de fotografia voltou a contar com Leonor Teles, enquanto na produção, além da portuguesa OPTEC Filmes, teve o apoio da francesa Kometa Films.
A exibição de Entroncamento no Trindade está marcada para as 21h45 de sábado, 7 de fevereiro, e insere-se no aniversário da sala portuense (a estreia em sala acontece a 26 de março). Falámos com Cabeleira horas antes da sessão, na qual ele conta estar presente, “se conseguir lá chegar”.

© Pedro Cabeleira
AGENDA PORTO: Depois de estudar e trabalhar em Lisboa, voltaste ao Entroncamento para gravar um videoclipe de rap para um amigo. Foi desse novo contacto, através da câmara, com a tua cidade que nasceu a vontade de fazer este filme?
PEDRO CABELEIRA: Sim, mas também do contacto com as histórias de lá. E também por sentir que havia um espaço que ainda não tinha sido preenchido no nosso cinema, o das pessoas destas pequenas cidades. Porque há uma ideia de que Portugal fora de Lisboa ou das grandes cidades é quase todo rural, e não é bem assim nos dias de hoje. Há estas pequenas cidades que acabam por estar numa zona de indefinição, ligadas a costumes, não digo rurais, mas com um espírito quase de toureiro, e ao mesmo tempo já muito afetadas pela cultura do subúrbio. O Entroncamento acho que reunia essas condições. Então, isso fez-me questionar um bocadinho o sítio de onde vim e filmar algo ao qual eu tinha acesso privilegiado, por ser de lá, por conhecer as pessoas.
E o universo de gangsta rap desse videoclipe também transcendeu em parte para esta história, certo?
Sim, sim. Porque a ideia era filmar as pessoas que tinham entrado no videoclipe. O imaginário gangsta rap não só estava ligado à própria maneira de fazerem música, mas também ao seu próprio lifestyle, àquilo que eram as suas filosofias, os seus ideais. E, sim, o filme trabalhava um pouco como é que, numa cidade pequena, num país em que fora dos grandes centros tudo é rural, de repente há este imaginário quase americano, de periferia de Nova Iorque, de Los Angeles. Mas isso foi o ponto de partida. Fui amadurecendo com os anos, desconstruindo esse ponto de vista, e trabalhei outras coisas, como a ideia de uma cidade em que tudo à volta é movimento, mas lá parece que as coisas param. E tentei desconstruir também esse imaginário muito masculino através do olhar de uma mulher. Mas, sim, o gangsta rap esteve na origem da ideia [risos].
Na tua primeira longa, Verão Danado, falavas de jovens que se tinham mudado para Lisboa, ou seja, mostravas a cidade de um ponto de vista de quem vem de fora. Agora, a personagem principal de Entroncamento também é uma jovem adulta que chega à cidade. O que é que te atrai nestes olhares exteriores, nomeadamente em termos narrativos?
Tanto no caso do Verão Danado como agora no caso da Laura [personagem principal de Entroncamento], o olhar de fora tem uma vantagem que é ser um olhar de descoberta, de alguém que está a conhecer, e quase pode ser uma espécie de olhar do espectador dentro do filme, não é? Se o protagonista está a conhecer o universo, o próprio espectador, quando entra no filme, também o está a conhecer. Há esse lado que a Laura traz, e isso é fixe também para ir desvendando e descobrindo a história, porque estás meio na perspetiva daquilo que está a acontecer. Na verdade, a primeira cena até se passa com pessoas que são da cidade e que vivem lá, mas, a partir daí, parece que dás um passo atrás e começas a descobrir essas pessoas de novo. Acho isso fixe, é um mecanismo narrativo. E também se aproxima ao meu próprio olhar, porque na altura do Verão Danado eu era efetivamente alguém que tinha vindo de fora para Lisboa, e no caso do Entroncamento, apesar de eu ter crescido lá e conhecer as pessoas, também saí, portanto, há um regresso meu à cidade. O olhar da Laura também permite ser o meu olhar, o olhar de alguém que tem algum distanciamento sobre a bolha.
Pois, mas apesar da figura da Laura, aqui a história está muito centrada em quem não sai dessa bolha.
Exatamente. A ideia era também ser uma espécie de contracampo do Verão Danado. Há quem sai e há quem fica. A Laura tem só que ver com um ponto de vista sobre essas pessoas e sobre a cidade que, na verdade, não é um ponto de vista muito de dentro, porque eu efetivamente saí. Para mim. é fixe tentar perceber as coisas com um olhar de fora, que é um olhar mais honesto. Também não queria fingir uma coisa que não era, há uma realidade que eu conheço até certo ponto, prefiro assumir isso.

Entroncamento | © OPTEC Filmes
No teu cinema, interessa-te, sobretudo, olhar para estas realidades que, de certo modo, dominas? Ou os imaginários das duas longas-metragens foram estes como poderiam ter sido outros?
Acho que as ideias aparecem sem uma explicação muito lógica. Na altura, aquilo apareceu-me e senti que eram ideias que eu podia fazer bem e nas quais estava realmente empenhado. Mas se calhar a próxima já não terá nada que ver. Também penso sempre nos filmes de acordo com aquilo que está ao meu alcance, não vou pensar em criar um filme sci-fi, que é algo que até gostava de fazer, mas que para já está completamente fora do meu alcance, nem vale a pena percorrer esses caminhos. Também são ideias que se ajustam ao que eu sei que vai ser possível filmar bem.
Antes, referiste que Entroncamento está fortemente marcado por uma masculinidade tóxica e falaste na escolha de uma protagonista feminina, que naturalmente coloca esse aspeto em evidência. Foi mesmo para provocar conflito?
Sim, completamente. Eu cresci naquela zona com conversas tipo “os homens não devem chorar”, “não devem dar parte de fraco”, e com papéis de género muito definidos, que depois vão ficando cada vez mais assimilados pelas pessoas. Foi algo de que me fui apercebendo também à medida que fazia o filme: há ali uma fase na vida, entre os 16, 18, 20 anos, em que as pessoas estão mais permeáveis, até a mudar de opinião. Mas à medida que vão avançando na idade, vão ficando cada vez mais agarradas a ideias feitas, a preconceitos. E o filme trabalha um bocado esse lugar, o das pessoas que estão nos seus trinta e tal anos e que acabam por ficar mais agarradas a essas ideias de masculinidade, há uma virilidade exacerbada, com dinâmicas de poder ultramasculinas, de “eu é que mando” ou “eu sou mais forte”, ou “tenho mais do que o resto”. São tudo lógicas muito masculinas e, ao fim e ao cabo, bastante capitalistas. A Laura vem desconstruir um bocado isso e o grande erro de algumas daquelas personagens – a meu ver até com uma certa ironia – é que, pelo facto de ser mulher, ela é automaticamente desconsiderada e tratada com condescendência. É essa condescendência, que a própria também conhece pela sua experiência de vida, que faz com que ela depois no fundo consiga dar a volta às coisas. Quis fazer a experiência de ver uma mulher que se quisesse impor nesta realidade. É uma personagem inventada, não tem muitas referências a pessoas que existiam, mas foi interessante tentar descobrir como é que esta mulher, com esta personalidade, entraria nestas dinâmicas.
Uma personagem, interpretada pela Ana Vilaça, com marcado sotaque do Porto…
Sim, a personagem é do bairro do Cerco. A proposta do filme é que a personagem tem um passado ligado a um tipo de criminalidade muitíssimo maior do que aquela que acontece no Entroncamento. Ela está fugida de algo que lhe aconteceu no Porto, vai-se refugiar em casa de um primo que vive lá e acaba por entrar nas dinâmicas da cidade. Por vezes, ela brinca um bocado com tudo porque, vinda do Cerco, aquilo para ela é brincadeira, são jogos de rapazes quase. Tratam-na com condescendência por ser mulher quando, na verdade, ela vem com uma bagagem muito maior do que qualquer um deles. Mas, sim, o filme é conduzido com o sotaque do Porto.
Um espectador francês ou alemão não vai captar essas subtilezas, mas alguém do Porto se calhar vai logo associar ao imaginário guna da cidade…
É assumidíssimo. Inclusive, há uma cena de um jantar de Natal, que é ela com um tio, irmão da mãe dela, em que ele diz “nunca mais fui lá ao teu bairro” e depois tem uma conversa altamente xenófoba e racista, em que diz que “lá é só carrinhas brancas”… Portanto, há esse espaço, ainda que não filmado: o bairro do Cerco também é um espaço que está no filme. A Ana, inclusive, quando fez a preparação da personagem, chegou a ir ao Cerco e esteve com o Ricardinho [rapper] e com algumas pessoas de lá, para que a personagem também trouxesse dignidade às suas origens. A Ana é de Leça da Palmeira e estudou no Porto, por isso, conhece bem a realidade. Portanto, eu até estou muito curioso para perceber como é que o filme vai ser recebido no Porto, porque o filme também representa a cidade, de certa maneira, e as pessoas da cidade. Estou muito curioso para perceber como é que elas se vão rever nesta personagem.

Entroncamento | © OPTEC Filmes
A Ana e o restante elenco, incluindo alguns não-atores do Entroncamento, são gente que tu conheces bem fora do cinema, algo que também se passou nos teus anteriores filmes. Que vantagens é que isso te traz na rodagem, por exemplo, ou na preparação?
Normalmente, tento trabalhar com amigos ou com pessoas com quem já tenho algum tipo de relação. No Entroncamento fazia todo o sentido que grande parte das personagens fossem feitas por pessoas de lá, até porque as conhecia bem, sabia o que é que elas poderiam dar ao filme, o que é que elas estariam confortáveis para fazer. E, sobretudo, o que é que também as iria entusiasmar a representar. Houve gente que eu não conhecia, por exemplo o Henrique [Barbosa], que faz uma personagem que se destaca muito – o Gilinho –, e foi alguém de quem eu andei à procura no país inteiro. Por acaso, encontrei-o e tive muita sorte, é um grande ator e demo-nos super bem e agora somos grandes amigos. Depois, o elenco principal era composto de pessoas com quem eu já tinha trabalhado. A Ana é minha companheira, já tínhamos trabalhado juntos antes, numa curta que ela também tinha co-escrito e em que tinha sido protagonista [By Flávio]. O único ator do núcleo duro que não conhecia era o Rafael Morais, gostava do trabalho dele e também foi fácil. Acho que mais importante do que serem pessoas que tu conheces é serem pessoas que vão na tua onda.
O Henrique é de etnia cigana e procuraste-o para interpretar precisamente um personagem de etnia cigana.
Exatamente.
Há uns meses entrevistámos a atriz e encenadora Maria Gil e ela falou-nos exatamente da importância de serem atores ciganos a representar papéis de ciganos…
… na verdade a Maria Gil também entra neste filme, faz de mãe do Gilinho. Há uma cena nuclear no filme – sobre a qual não vou dar aqui muitos dados – que é com os dois. O filme aborda tensões raciais porque isso é o que existe no Entroncamento, prova disso é a autarquia que temos lá agora [liderada por Nelson Cunha, eleito pelo Chega]. O filme não ia passar ao lado dessas questões e para mim não faria nunca sentido ter uma pessoa não-cigana a tentar fazer de cigana, porque têm experiências diferentes. E há, realmente, pouco lugar dado às pessoas ciganas em Portugal [na área da interpretação], tanto que não há quase atores ciganos. Existe a Maria Gil, o Vicente Gil, o Salvador, mas não há muitos. Porque também parece que não há um esforço quando se quer fazer uma personagem cigana, arranja-se um ator qualquer – há péssimos exemplos disso, por exemplo em algumas telenovelas. Então, andámos à procura, há mais personagens ciganas no filme, em papéis mais pequenos. A Maria Gil ajudou-me a entrar em contacto com pessoas, e um dia lembrou-se de um rapaz que tinha conhecido em Coimbra quando ele tinha 18 anos –agora tem trinta e tal –, que era o Henrique. A Maria Gil é uma pessoa a quem eu devo muito por me ter ajudado com essa procura. Quando virem o filme vão perceber que é um papel delicado e não há muitas pessoas com a coragem de o fazer. Principalmente não sendo atores profissionais.

Entroncamento | © OPTEC Filmes
A própria cidade acaba também por ser uma personagem central do filme, ainda que muitos dos temas abordados sejam quase universais. Além da tua ligação pessoal, que já abordámos, o que é que o Entroncamento deu assim mesmo de particular a esta história?
Trabalhei as histórias das personagens com coisas que de certeza absoluta poderiam acontecer lá. Realmente aborda temas universais, o que para mim é ótimo, mas é muito difícil de responder a isso. Tentei trabalhar a especificidade da cidade: a questão de ser uma cidade de prédios pequenos, de ser uma cidade meio labiríntica, de ter a presença dos comboios, com aquele som, etc., o contexto social… Ou seja, tudo coisas específicas de lá, mas que ao mesmo tempo também são transversais a outros sítios.
A única coisa que acho que é mesmo mais do Entroncamento, mas que não sei se o filme foi capaz de transmitir, tem precisamente que ver com essa relação do rural com o industrial e com o suburbano. É uma cidade com relativa proximidade de Lisboa, para quase ser uma espécie de subúrbio, mas ao mesmo tempo tem em redor uma paisagem rural. E acho que o conflito ainda é maior por ter pessoas que em grande parte vêm do meio rural – cujos avós ainda há sessenta ou setenta anos viviam na aldeia – e que de repente são confrontadas com outras que estão a fugir de Lisboa por causa dos preços das casas. Acho que filme tenta reforçar um pouco isso, em pessoas que toda a vida cresceram no meio de gente parecida com elas e que agora não estão a ser capazes de lidar com a diferença. Depois, há aproveitamento político, pois em vez de conduzirem as pessoas para conseguirem trabalhar essas diferenças e perceber que as cidades são organismos vivos, independentemente da sua dimensão, o que trabalham é precisamente o oposto: alimentam o ódio e fazem com que as diferenças se transformem em monstros.
Acho que o filme fala muito nessa indefinição entre rural e suburbano, que tem muito que ver com o tal imaginário do gangsta rap em que ao lado há forcados... O Entroncamento é um município muito pequeno, em que toda a gente se conhece, mas ao mesmo tempo acaba por ser mesmo uma cidade, com casas, blocos, prédios, etc., e com muita tradição operária ligada à linha dos comboios. Acho que tudo está no filme, agora, se isso é mais ou menos sentido, não sei. Também já ouvi, lá fora, dizerem coisas como “isto podia sem em qualquer outra cidade”, como se a cidade fosse paisagem. Mas, por outro lado, se calhar também a vida é um bocado assim, não é? As histórias acabam por se repetir de sítio para sítio. Ou então não consegui chegar a um lugar de especificidade mesmo sendo lá. São opiniões, podem divergir. Uma pessoa de Mirandela, que também trabalhou no filme, dizia-me: “isto parecem as dinâmicas e as quezílias que conheci quando era mais novo e as pessoas com quem cresci”. Acho que é bom os filmes trazerem essa universalidade.

Entroncamento | © OPTEC Filmes
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