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Que forças invisíveis moldam o Porto de hoje?
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A Cidade e os Mapas, a primeira longa-metragem de Alexandra Guimarães e Gonçalo L. Almeida que inaugura a 13.ª edição do Porto/Post/Doc, revela a transformação da cidade e do trabalho na era da globalização digital.
Entrevista A Cidade e os Mapas

novembro 2026

Alexandra Guimarães e Gonçalo L. Almeida passaram muitas noites em ruas, largos e praças do Porto onde confluem motas com mochilas coloridas de plataformas de entregas. Meteram conversa com estafetas, entregaram flyers, falaram-lhes do filme que tinham na cabeça. “Queríamos trabalhar a ideia de conhecer a cidade através dos mapas e o trabalho do estafeta é às ordens dos mapas”, enquadra Gonçalo, que já havia colaborado com Alexandra em duas curtas metragens, uma delas durante a licenciatura de ambos em Cinema e Audiovisual na Escola Superior Artística do Porto (ESAP).

A presença regular da dupla em hotspots de estafetas tornou-a conhecida dos imigrantes desses bairros e acabou por levá-la ao seu protagonista. Alam Shah Kazol, dono da Dreams Souvenir, loja situada do outro lado do Largo da Rua Chã — um dos referidos hotspots — e líder da Comunidade do Bangladesh no Porto, divulgou o projeto num grupo interno. Mazharul “Akash” Hoque, residente no Porto desde 2020, mostrou interesse em participar e foi ao encontro dos cineastas.


Até esse momento, Alexandra e Gonçalo tinham reunido diversas leituras sobre “a relação entre realidade e representação”, como Sobre o Rigor da Ciência, fábula de Jorge Luis Borges onde um império cria um mapa completamente fiel ao respetivo território. Inicialmente, imaginavam uma “curta-metragem mais experimental e assente em ideias filosóficas”. “Com o trabalho de campo, o filme libertou-se muito do [registo de] ensaio teórico”, assinala Alexandra.

Entrevista A Cidade e os Mapas

Gonçalo L. Almeida e Alexandra Guimarães © Nuno Miguel Coelho

Apesar de menos preponderante, a pesquisa lançou algumas pistas para o processo de rodagem e o envolvimento dos intervenientes. Exemplo disso é o conceito de “psicogeografia”, área que estuda o impacto do ambiente geográfico e urbano na mente e no comportamento humano, e que tem numa das suas principais práticas a “deriva”, isto é, o ato de caminhar pela cidade sem destino. “O Akash é quase um psicogeógrafo acidental”, equipara Gonçalo. “Ele é absolutamente encantado pelo Porto e adora andar a pé a descobrir a cidade.”


O bangladechiano encaixava perfeitamente no retrato que os realizadores ambicionavam fazer sobre a transformação da cidade e do trabalho na era da globalização digital — incluindo o submundo de precariedade e exploração que ela gera —, mas o seu contributo trouxe uma camada adicional. “Queríamos trabalhar com um estafeta por ser quase um escravo dos mapas, mas ele mostrou-nos que não é escravo nenhum e que conhece a cidade muito melhor que nós”, nota Alexandra.

Percursos de trabalho e visitas guiadas

O filme acompanha os percursos e desvios de Akash ao serviço de uma plataforma de entregas, mas também ilustra a sua relação pessoal com o território. O supracitado Largo da Rua Chã, um dos locais-chave das rodagens, tem uma grande carga emocional para o imigrante. Quando se mudou para o Porto, alugou um quarto ali ao lado. Depois de sair do bairro, continuou a praticar a sua fé na Mesquita Hazrat Hamza, mais abaixo, na Travessa da Rua do Loureiro.


“Queríamos seguir os trajetos de trabalho, mas também procurar sítios onde ele escolhe passar o seu tempo”, refere Gonçalo. “Isso inevitavelmente trouxe-nos à mesquita, porque ele é muito religioso.” A vontade de filmar ali exacerbou-se quando os cineastas descobriram que o prédio onde está alojado o templo fora comprado pela Lionesa, dona da Lello. Os fiéis teriam de desocupá-lo até 31 de outubro. “Sentimos uma urgência maior em registar esta atmosfera.”


O traçado de locais a captar foi, ainda, definido pelo contacto com Pedro Figueiredo, arquiteto, guia e cocriador das The Worst Tours, visitas guiadas que desvendam o lado desconhecido e menos instagramável da cidade, suscitando debates sobre habitação, turismo e gentrificação. Para falar da cidade globalizada, era necessário trazer o turismo para a conversa; as visitas de Pedro proporcionaram o cenário ideal. “Não queríamos fazê-lo de forma satírica ou superficial”, vinca a realizadora.

Nesse sentido, estes percursos funcionam em paralelo com os trajetos percorridos por Akash, entrando em diálogo mesmo sem se cruzarem fisicamente. “Os turistas refletem sobre o que está a acontecer e partilham experiências das suas próprias cidades”, completa Gonçalo, advertindo que a remodelação das cidades por força de “sistemas digitais maiores” é uma condição transversal.


Durante o processo, os realizadores procuraram “perceber como é que as plataformas digitais exercem uma força real sobre o território e sobre a cidade”. A ação oculta de plataformas como TripAdvisor e Airbnb “define o que faz sentido em cada sítio do ponto de vista económico e dos fluxos de pessoas”, aponta Alexandra. “De repente, faz sentido fazer aqui [em torno do Largo da Rua Chã] um novo polo cultural, mas para quem?”.

Entrevista A Cidade e os Mapas

O Largo da Rua Chã no filme A Cidade e os Mapas © Alexandra Guimarães e Gonçalo L. Almeida

Ver e filmar a cidade de baixo

A experiência dos realizadores enquanto turistas e utilizadores de mapas digitais permitiu-lhes perceber que o que viam não era mais que uma versão curada de um lugar. “Interessava-nos ir à procura daquilo que fica à margem”, reitera Gonçalo. Assim, foi preciso redirecionar o olhar dos mapas, que obrigam a “ver a cidade de cima e apagam a realidade de quem vive nos locais”.


A Cidade e os Mapas apresenta-se como uma contraimagem da cidade-postal que tem corrido mundo na última década. “Há uma brandification das cidades contemporâneas e o Porto é um bom exemplo”, observa Alexandra. “A imagem da cidade tem determinados elementos e nós procurámos fugir de tudo isso.” A abundante produção de imagens do Porto guiou a intencionalidade por trás de cada plano. “Se certas imagens são feitas num sítio, como podemos criar uma imagem mais real e verdadeira do que se passa?”.


Para dar forma à sua visão, a dupla optou por filmar com câmaras 360º arraigadas na mota de Akash, construindo uma imagem reminiscente da estética do Google Street View ou de um videojogo. “Está subentendida a lógica de vigilância e controlo a que esta personagem está sujeita [por parte das plataformas digitais que são o seu ganha-pão]”, explana Alexandra. São usadas várias renderizações 3D do Google Earth, pondo em confronto a cidade real e a cidade virtual.


A Cidade e os Mapas estreia no dia 19, na Sala 1 do Batalha Centro de Cinema, e é o resultado de dois anos de produção possibilitada pela bolsa Working Class Heroes. Este apoio, no valor de 75 mil euros, é atribuído anualmente pelo Porto/Post/Doc em parceria com a Filmaporto — Porto Film Commission e o apoio da Fundação “la Caixa”, através da CaixaForum+.

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