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Conjugar o Porto
Folhear com Magda Cruz
Entrevistas
“No Porto, a vida cultural chega-me de forma mais acessível”
Conjugar Porto Magda Cruz

Março 2026

Para Magda Cruz, a cidade do Porto é um livro aberto que, há cerca de meio ano, começou a folhear. Esta comunicadora, divulgadora de Cultura e podcaster mudou-se recentemente para a Invicta para trabalhar na Livraria Lello. Formada em jornalismo, já passou pelas redações da TSF, da Rádio Observador e do jornal Público, e é autora de Ponto Final, Parágrafo, um podcast dedicado aos livros. Neste projeto, conduz entrevistas literárias com autores, mas também com amantes de livros. A nova temporada arranca em março, mês em que se assinalam o Dia da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (11) e o Dia Internacional do Contador de Histórias (20).

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Magda Cruz © Renato Cruz Santos

Desde janeiro, também dá corpo e voz ao Palavrão, um podcast original da Livraria Lello. Frequentadora assídua do Estádio do Dragão (é portista desde pequenina) e da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, inaugurou o mês passado Crónica de uma lisboeta a viver no Porto (sai uma nova todos os domingos). No primeiro texto que publicou, escreveu que “a pronúncia é a sua denúncia”, mas achámos que Magda já dobra os érres como as gentes do Norte. Foi nas escadas carmesim da Lello que nos sentámos à conversa, partindo do mote folhear.


“A ambiguidade nas palavras interessa-me muito. Folhear é virar a página, é mudar. Também é ler, seja um livro de uma ponta à outra ou saltitar entre capítulos, é ler a paisagem e a linguagem das pessoas. Folhear a cidade é descobrir e explorar novos capítulos”, afirma.


Não haja dúvidas: Magda é feliz no meio dos livros. Conta que

“sempre teve a sorte” de os pais a levarem a ela e aos irmãos à

biblioteca, e à medida que foi crescendo, as bibliotecas nunca

deixaram de estar na sua vida. Todos os sábados, “pelo menos”,

fazia um passeio até lá para “requisitar o máximo de livros que

podia levar”. Antes de poder comprar livros, era à biblioteca que

recorria. Por isso, diz, “faz todo o sentido” que a 8.ª temporada

do Ponto Final, Parágrafo seja gravada nas bibliotecas municipais do Porto, incluindo as itinerantes. “A zona da cidade onde escolhi viver tem uma pequena biblioteca, a Pedro Ivo, na Praça do Marquês, que também será um dos palcos das conversas”, adianta, acrescentando que “a maior parte dos convidados são do Porto e Norte”. “O foco vão ser os autores de vários géneros e sempre com uma atenção redobrada à paridade e à variedade de vozes e proveniências”, refere.

Clube de Leitura do Ponto Final, Parágrafo


Ligado ao Ponto Final, Parágrafo, criado a 8 de outubro de 2018, data em que se cumpriam 20 anos do anúncio do Prémio Nobel da Literatura de José Saramago, nasceu, em 2021, um clube de leitura que conta hoje com cerca de uma centena e meia de membros que se reúnem no último sábado de cada mês, às nove da noite, para discutir uma obra literária. ‘Quem quer ler obras de Saramago durante 12 meses?’ foi o tweet que deu origem a esta comunidade de leitores. “Convidei as pessoas a lerem ou a partilharem Saramago; a ideia era lermos 12 livros, mas acabámos por ler 14, e o clube foi crescendo”, conta. “Acho que o arranque foi uma das melhores alturas porque tínhamos participantes ou leitores de vários países, todos unidos por Saramago.


Por ter começado ainda em contexto de pandemia, o clube era online e Magda manteve-o assim “porque há pessoas que dizem que apreciam que seja online para se poderem ligar à distância”. E, como em todos os clubes, há regras; neste, existem apenas duas: “as pessoas têm de estar de pijama ou de fato de treino confortáveis, e quem tiver animais de estimação tem de apresentá-los no início da sessão”, ri-se.


Este ano, a programação tem como tema-chapéu distopias. “O escritor escreve ficção, mas a ficção está a ficar cada vez mais parecida com a realidade, e achei importante que quem ainda não tinha lido o cânone distópico tivesse essa oportunidade.” Em janeiro, leu-se 1984, de George Orwell, em fevereiro, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, e este mês será lido Cadernos da Água, de João Reis. “Há mais autores portugueses nesta lista; ao longo do ano, serão lidas obras de Joana Bértholo, Filipa Fonseca Silva e Mafalda Santos, entre outros.”

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1984, de George Orwell, um dos livros lidos no Clube de Leitura do Ponto Final, Parágrafo © DR

A divulgadora de Cultura conta que “dá abertura para as pessoas participarem como quiserem": "ou mandam por escrito a sua crítica, ou participam de viva-voz, ou podem entrar na discussão online e só ouvir”. “Partilhamos visões diferentes, e às vezes o livro que eu li é diferente para ti, apesar de ter o mesmo título, e isso é que é enriquecedor”, sublinha, frisando que, apesar de às vezes ser difícil dinamizar o clube por ter de conjugar tantos afazeres, “a cada encontro as pessoas lembram-lhe a razão de o de ter começado”.


"Neste último encontro, um rapaz participou pela primeira vez e disse-me que leu o 1984 e percebeu que o poder do Winston [personagem] era a memória política e social; que foi ao jantar de Natal com a avó, e percebeu a importância que ela tinha para si. Então, despediu-se e agora está a escrever um livro sobre memória. Até concorreu à bolsa de criação da DGLAB!”, desfia. Neste sentido, considera que o clube de leitura tem "influência nas pessoas, e este movimento tende a repetir-se nas sessões; alguém cuja vida mudou um bocadinho, nem que seja porque no fim de semana ficou em casa a ler.” 


Este ano o clube de leitura é temático, mas a grande valência desta comunidade de leitores, garante Magda, é no final de cada sessão, “o grupo escolher o que vai ler a seguir, refletindo sobre o que está a acontecer no mundo, sobre que livros é que, entretanto, foram publicados, e que discussões é que é preciso ter, e decide democraticamente” que livros serão lidos.


Apesar de ser uma comunidade de leitores online, Magda já organizou uma sessão presencial e garante que este ano quer repeti-la na cidade do Porto em data coincidente com a Feira do Livro. “Assim, há mais motivos para as pessoas rumarem cá.” Quem quiser aderir, basta juntar-se ao grupo do WhatsApp através da conta de Instagram do projeto Ponto Final, Parágrafo.

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“Ler e falar de livros dá-me sanidade mental”, Magda Cruz © Renato Cruz Santos

Crónica de uma lisboeta a viver no Porto e o amor pelo FCP



Foi em fevereiro que Magda lançou a Crónica de uma lisboeta a viver no Porto, e quis começar com “um registo quase diarístico”: “para proteger esse género literário, que sinto que vai desaparecer, mas também como a Magda de 10 anos que mantinha o seu diário, e achei que podia ser importante alguém da minha idade ir registando a sua primeira grande mudança — vir viver sozinha pela primeira vez para outra cidade”, conta.


Os primeiros seis meses a viver no Porto “têm-se condensado muito no verbo folhear”. A escolha de “folhear” para esta rubrica da Agenda Porto, garante, “não foi à toa, teve muita intimidade por trás”. “Tenho conseguido folhear o Porto como quem lê um livro”, declara. “Quando cá cheguei, apresentaram-me o conceito da ‘cidade dos 15 minutos’, e é realmente verdade. Eu, da Livraria Lello, consigo estar em 15 minutos em minha casa; da minha casa consigo estar em 15 minutos no Estádio do Dragão; do Estádio do Dragão consigo estar em 15 minutos no Bonfim, onde vou beber um fino e comer uma francesinha.”

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© Renato Cruz Santos

"No Porto, a vida cultural está a chegar-me de forma mais acessível”

Magda afirma que no Porto a vida cultural lhe chega “de forma mais acessível”, e neste ponto a escala também é importante. “Sinto que os meus colegas têm mais tempo para viver o Porto do que eu tinha para viver Lisboa; portanto, mais facilmente saio do trabalho e vou folhear a cidade”, conta. “Consigo chegar mais rapidamente a várias ofertas [culturais] e não tenho de fazer uma hora e meia para chegar ao teatro, ao cinema, a uma exposição.” A comunicadora refere também que “aqui a cultura é mais imediata, mais aberta e mais acessível” e, neste sentido, aponta como exemplo o TRIPASS, o cartão promovido pela autarquia do Porto, que dá acesso com 25 % de desconto ao circuito de cinema no centro da cidade, acrescentando, ainda, que “as discotecas são mais baratas”.


Sobre os seus lugares prediletos na cidade, aonde regressa com frequência, diz prontamente que “tem de começar” pelo Estádio do Dragão. “Antes de chegar à cidade já frequentava o Dragão porque sempre fui portista, tive a sorte de ser uma lisboeta com bom gosto (risos). E tive uma infância muito feliz porque o Porto sempre ganhou quando eu era pequena; portanto, era fácil ser a única portista numa turma de sportinguistas e benfiquistas (risos).” Magda confessa-nos, ainda, que uma das paredes do seu quarto em Lisboa é o Estádio do Dragão. “Sempre foi um amor exacerbado. A verdade é que, desde que cheguei ao Porto, o FCP ainda não perdeu um jogo. Portanto, não sei se sou algum amuleto (risos).”

"Palavrão aqui é carinho. As pessoas insultam-se com carinho.”

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© Renato Cruz Santos

Mas, como sabemos, nem só de futebol vive Magda. Também há os livros. E o primeiro sítio que lhe deu "abrigo” na cidade foi a Biblioteca Municipal Almeida Garrett, porque a sua chegada coincidiu com o último fim de semana da Feira do Livro do Porto. “Passei lá o sábado e o domingo, e quem fechou a Feira do Livro foi o Sérgio Godinho que disse: ‘esta noite é para todos; sejam pessoas que nasceram no Porto, seja quem veio visitar a Feira do Livro, seja quem acabou de chegar para cá viver’. E eu pensei: ‘Ele está a falar para mim! Ele acabou de me dar as boas-vindas!’”, recorda, sorridente. 


A especialista de comunicação diz-se "feliz" por estar a viver no Porto, e, “sobretudo, por ter sido adotada pelas pessoas que cá vivem”. E atira: “Sabes uma coisa? Sinto que sou mais engraçada aqui; acho que tenho mais piada." 


"Sempre fui um bocado palhaça e quem segue os podcasts sabe isso, e eu noto que esse ‘sal e pimenta’ do humor na escrita ficou mais apuradinho.” E é com humor que Magda conduz o Palavrão, o podcast da Livraria Lello, onde convida personalidades de diferentes áreas a desconstruir os “palavrões” relacionados com as suas profissões. Há um novo para ouvir todas as semanas.

Questionada sobre que livros anda a folhear, a ávida leitora diz-nos que, além dos livros do clube de leitura, tem em mãos O Lugar da Incerteza, da Patrícia Reis, que será apresentado na Livraria Lello; O Fim dos Estados Unidos da América, de Gonçalo M. Tavares; Herland – A Terra de Mulheres, de Charlotte Perkins Gilman; e Filho do Pai, o último livro de Hugo Gonçalves, o seu “autor favorito vivo”. “Ele é hilariante e super elegante ao mesmo tempo.”


Magda revela, ainda, que "tem sempre algum livro de poesia começado”. “ E tenho sempre à mão Manuel António Pina e Sophia de Mello Breyner, poetas do Porto”, revela, acrescentando, contente, que “descobriu” a livraria Modo de Ler, onde comprou obras de Eugénio de Andrade editadas por José da Cruz Santos, o “prodigioso criador de livros” que a Agenda Porto entrevistou no seu número inaugural, em janeiro de 2024. 

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