PT

EN
Conjugar o Porto
“Petiscar” (em tascas) com Diogo Jesus Abreu
Entrevistas
No dicionário, encontramos como definição de tasca “estabelecimento modesto que vende bebidas e refeições”. Mas para Diogo Jesus Abreu é muito mais do que isso: é um terceiro espaço. O seu amor por estes estabelecimentos levou-o a compor uma "Ode à Tasca". Fomos encontrá-lo n’A Regional da Areosa.
Conjugar o Porto Jun Petiscar

junho 2026

As tascas estão para Diogo Jesus Abreu como os cafés estão para George Steiner: “Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘ideia de Europa’”, escreveu o ensaísta e filósofo francês. O profissional de marketing e vendas madeirense diria, antes, que “enquanto existirem tascas, a ‘ideia de Porto’ terá conteúdo”.


O gosto por tascas já vem de trás, do tempo em que vivia na Madeira, mas continuou a ser alimentado no Porto. E não é exagero se escrevermos que, para Diogo, o mapa da cidade pode desenhar-se com tascas.


Natural do Funchal, mudou-se para a Invicta há quase uma década e, garante, “as tascas foram responsáveis pela sua boa adaptação”. A propósito, recorda um episódio que o marcou quando, “num dia em que estava nostálgico, com saudades da Madeira, entrou n’O Xico dos Presuntos e a dona Helena tinha feito uma massa de bacalhau”: “Foi uma refeição muito importante para mim, porque me senti em casa, se calhar, pela primeira vez no Porto”, revela, acrescentando, por isso, que “tem um carinho muito grande pela dona Helena e pel’O Xico dos Presuntos”.

Conjugar o Porto Jun Petiscar

Diogo Jesus Abreu n' A Regional da Areosa © Renato Cruz Santos

Conjugar o Porto Jun Petiscar

Adega A Regional da Areosa © Renato Cruz Santos 

“O balcão da tasca é das coisas mais importantes que temos na nossa sociedade. É uma coisa amplamente aglutinadora, onde se sentam todas as classes.”

Diogo, já se percebeu, além de ser um conhecedor de tascas, sabe o nome das pessoas que o atendem atrás do balcão, e com quem desenvolve relações de amizade. A este respeito, refere “o senhor Arlindo”, da Casa Expresso. “É uma pessoa muito importante para mim porque sempre me acolheu com muito calor, e tenho uma história gira com ele; gosto muito de bolo de bolacha, também é uma memória afetiva, porque costumava comer essa sobremesa em festas familiares, e na Casa Expresso nunca havia bolo de bolacha. E era uma piada do Sr. Arlindo que, quando eu pedia um bolo de bolacha, ele trazia a conta. Isto aconteceu durante dois anos até que há um dia em que peço bolo de bolacha e ele traz-me, efetivamente, essa sobremesa. Hoje, há bolo de bolacha na Casa Expresso por minha causa, que é, se calhar, o ponto mais alto do meu currículo (risos). É uma espécie de homenagem, e isso deixa-me muito orgulhoso.”


A paixão pelas tascas levou-o a criar “um livrinho” de ilustrações e “piadas más sobre tascas boas” intitulado Ode à Tasca. A ideia nasceu durante a pandemia, quando “estava cheio de saudades de tascos e de sair”. “Estava aborrecido em casa e comecei a fazer umas coisas.” Passados dois anos, mostrou os seus desenhos e piadas a um amigo que o incentivou a “fazer qualquer coisa”. O livro, edição de autor, foi apresentado na Casa Expresso. Futuramente, Diogo pensa ainda fazer uma publicação sobre os balcões “enquanto ainda existem”.

Conjugar o Porto Jun Petiscar

Ode à Tasca, de Diogo Jesus Abreu © Cruz Santos

Conjugar o Porto Jun Petiscar

 © Cruz Santos

Apesar de se mostrar satisfeito por a “malta nova” estar “a ‘redescobrir’ a tasca”, critica a “gamificação”: “Vão a todas, querem descobri-las e fazer publicações no Instagram, mas depois não há uma interação intensa.” Neste sentido, afirma que “as tascas são como os amigos; ninguém tem 10 melhores amigos!”. “A gente tem de escolher duas ou três, saber o nome do taberneiro, revisitá-las o máximo que pudermos e alimentar essa relação. Acho que a tasca assim é que nos vai dar o tal conforto; porque é um terceiro espaço”, defende.


Mas, afinal, o que define uma tasca? Além do preço, que “tem de ser democrático” (“com 10 euros tem de ser possível fazer uma refeição; essa é uma das minhas regras”, declara), os donos têm contacto direto com os clientes, e até conhecem os regulares pelo nome; e é obrigatório ter um picante da casa.”

A Regional da Areosa


Diogo marcou encontro com a Agenda Porto n’A Regional da Areosa, famosa pela sandes de porco preto. “Esta tasca é muito importante para mim porque está aqui numa espécie de Triângulo das Bermudas (risos); está entre Porto, Gondomar, e Matosinhos, e apanha uma fauna incrível de pessoas trabalhadoras das três cidades.”


O gestor de marcas de vinho aprecia o balcão “muito corrido, o que dá sempre para meter conversa e fazer amigos novos”, frisando que “é a única tasca no Porto em que consegue jogar à moedinha”, um jogo de sorte que consiste em adivinhar o número de moedas nas mãos, “e quem perde paga a rodada”. Segundo Diogo, “a partir das quatro da tarde, A Regional altera-se; já não é preciso comer prato, podemo-nos sentar a comer petiscos”, e recomenda-nos os bolinhos de bacalhau e o fígado. “Todos os petiscos tradicionais são feitos de forma exemplar aqui”, assegura.


A Adega Rio Douro, da dona Piedade, na Foz, “uma das tascas mais importantes ali da zona”, e a Adega Túnel são outros espaços apontados por Diogo. “Ainda existem muitas tascas, sobretudo na periferia.”

Conjugar o Porto Jun Petiscar

© Cruz Santos

“A reinvenção das tascas”


Apesar do elogio às tascas, o gestor da marca de vinhos Nat’Cool não deixa de apontar problemas que estão associados a estes espaços, como o alcoolismo. “Há coisas que devemos mudar, e estou entusiasmado com o futuro, e em criar uma melhor definição de tasca.”


Crítico daquilo que apelida de “neotascas”, admite, contudo, que “se a tasca não se adaptar, morre”. “As rendas estão a subir, os donos também estão a falecer, e os filhos não querem pegar nos negócios; portanto, quer queiramos quer não, a tasca vai ter de se reinventar.” A propósito, lamenta “alguma turistificação” destes lugares que, quando começam a ser muito procurados, sobem os preços, afastando, assim, os fregueses habituais, e aponta espaços como o Xau Laura como “uma boa resposta àquilo que pode ser uma adaptação da tasca aos tempos modernos”. “Não parece uma tasca, mas é. E é uma lufada de ar fresco.”



Madeirense adotado pelo Porto


O madeirense declara que foi “adotado pelo Porto”. “Digo com toda a certeza que é a minha cidade. Acho que o Porto é perfeito para quem vem de uma ilha e quer um bocadinho mais de cultura, de misturas e coisas diferentes, mas também aprecia calor humano. O Porto tem a dose certa de tudo”, remata. Enquanto houver tascas, Diogo vai continuar “apaixonadíssimo pelo Porto”.

Conjugar o Porto Jun Petiscar

© Cruz Santos

Partilhar

LINK

Relacionados

Conjugar o Porto Jun Petiscar
agenda-porto.pt desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile