PT

EN
Conjugar o Porto
Incluir com Daniela Fatela Geraldes
Entrevistas
Investigadora do i2ADS e doutoranda em Educação Artística na FBAUP, Daniela Fatela Geraldes está a colaborar com o Museu Soares dos Reis num projeto que transforma pinturas em imagens em relevo para que pessoas cegas ou de baixa visão possam experienciar obras de arte.
Conjugar o Porto Incluir JulAgo26

julho/agosto 2026

Daniela Fatela Geraldes nunca tinha visto uma pessoa cega num museu. Essa tomada de consciência, seguida de uma torrente de questionamentos, aconteceu durante uma experiência de voluntariado na ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal. “Comecei a perceber que estas pessoas não iam aos museus porque, muitas vezes, não tinham recursos de acessibilidade”, introduz a investigadora do Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade – i2ADS, da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP).

Licenciada em Som e Imagem, foi durante o Mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual que começou a interessar-se pela Educação Artística, área científica que viria a abraçar no Doutoramento na FBAUP, e pelo trabalho dos serviços educativos dos museus. “Participei na curadoria de duas exposições, uma delas no Museu Nacional Soares dos Reis (MNSR), e vi como se fazia uma exposição e como se aproximava o museu da comunidade”, recorda.


O primeiro contacto com as atividades do serviço educativo do MNSR, e as limitações de acessibilidade e inclusão encontradas, permitiram a Daniela perceber que havia território a desbravar junto do público com necessidades específicas, sejam elas físicas, sensoriais ou intelectuais. A sua vivência enquanto pessoa neurodivergente sensibilizou-a para urgência de colmatar as lacunas existentes. Então, decidiu desenvolver o seu projeto de doutoramento em colaboração com o MNSR, transformando pinturas em imagens de relevo para que pessoas cegas e de baixa visão possam experienciar obras de arte.

Conjugar o Porto Incluir JulAgo26

Com o apoio da gestora da coleção de pintura Ana Paula Machado e da museóloga Liliana Aguiar, Daniela selecionou um conjunto de pinturas emblemáticas do museu, “algumas de artistas portuenses e que também contam a história da Escola Superior de Belas-Artes do Porto”, para enviar para a Sertec, empresa de Lisboa especializada em criar soluções para pessoas cegas e com baixa visão e que já trabalhou com outros museus portugueses. Depois, deu-lhes indicações sobre os aspetos a salientar em cada pintura, aos quais corresponderiam diversos tipos de relevo. “Se eu quero destacar uma árvore em particular, posso criar um realce diferente para que a pessoa, ao sentir a imagem, perceba que há ali algo que se calhar tem um significado especial.”


As imagens foram produzidas em papel de microcápsula, material usado para imprimir gráfi cos, mapas e imagens para serem lidos por pessoas cegas e de baixa visão, mas servem apenas para ser testadas. “Para ser expostas, teriam de ser em PVC [um tipo de plástico muito usado nas ferramentas de acessibilidade ligadas à visão], um material que não se rasga facilmente ao toque.”

As sessões experimentais, previstas para os dias 20 e 27 de julho, serão focadas em três obras adaptadas, e deverão contar com cerca de cinco elementos (excluindo acompanhantes). Cada imagem em relevo será posicionada numa plataforma amovível junto da pintura original correspondente, para que possa ser sentida pelos participantes enquanto estes estão de pé ou sentados.


Os intervenientes podem escolher sentir ou não a imagem. Simultaneamente, a investigadora lerá a audiodescrição da obra pausadamente, “com interrupções para saber se as pessoas estão a conseguir acompanhar e se têm alguma dúvida ou curiosidade”. No decurso da sua pesquisa, Daniela constatou a importância de aliar os dois recursos. “Nem todas as pessoas cegas conseguem ler imagens em relevo e algumas preferem a audiodescrição”, sustenta. Muitos não querem audiodescrição convencional, “mas alguém ao seu lado a relatar o que vê”.


Em abril passado, a direção do MNSR anunciou que está a desenvolver um projeto para tornar o espaço totalmente acessível a partir de 2027, extinguindo barreiras físicas, sensoriais e de comunicação. Com o projeto supracitado, a instituição ficará com uma base de trabalho para poder desenhar e implementar recursos de acessibilidade a título permanente, no que toca a pessoas cegas e de baixa visão.

“As artes visuais também podem ser apreciadas através dos outros sentidos.”

Daniela Fatela Geraldes espera que a sua tese de doutoramento contribua, igualmente, para abrir caminho a uma conceção alternativa de museu, tirando a visão do centro da fruição estética. “As artes visuais também podem ser apreciadas através dos outros sentidos”, observa, citando como referências o Museu Tiflológico da Fundación ONCE, em Espanha, e o Centro de Experiência Viva – Museu de Tiflologia, em Castelo de Vide, “museus muito mais sensoriais, pensados para pessoas com necessidades específicas [na área da visão]”.


As questões de acessibilidade e inclusão, acredita, devem ser pensadas e trabalhadas em parceria com os seus futuros utilizadores, para “perceber as suas necessidades reais” e integrar respostas adequadas. A comunicação e imagem dos museus também não devem ser descuradas enquanto ferramentas de acessibilidade, alerta Daniela. “Há muitas pessoas que pensam que o museu não é lugar para elas, ou porque não entendem o que lá está, ou porque acham que não estão vestidas como deviam”, concretiza. Para a investigadora, as instituições devem desconstruir a ideia de que são espaços sagrados e reservados às elites. “E se as pessoas não forem ao museu, o museu deve ir à comunidade apresentar as suas coleções e falar da sua importância para a cidade.”

Conjugar o Porto Incluir JulAgo26

No âmbito do seu programa doutoral, Daniela examinou, também, a acessibilidade em vários museus portugueses, incluindo alguns do Porto. Globalmente, verificou que “há boa vontade por parte das pessoas e das instituições”, mas “por vezes há pouco conhecimento acerca do que é a acessibilidade e de quem é que vai beneficiar com ela”. “Não são só cegos, surdos ou pessoas com deficiência; somos todos nós”, frisa. 

 

Na sua análise, apurou que “a maior parte dos museus do Porto não tem recursos de acessibilidade”. As exceções integram adaptações “mais a nível sensorial ou mais a nível físico”. “Todos precisam de melhorias”, garante. Esta realidade transpõe-se para a rede museológica nacional. Alguns museus já tiveram projetos dedicados à acessibilidade ou ainda estão a executá-los “a um ritmo, infelizmente, lento”. Nestes processos, são comuns entraves relacionadas com autorizações de outras entidades, restrições advindas da classificação dos museus como edifícios históricos ou atrasos de financiamentos especialmente alocados. 


A investigadora tem-se debruçado, ainda, sobre as acessibilidades na FBAUP e nos núcleos museológicos da Universidade do Porto (U.Porto), espaços onde encontrou um cenário semelhante ao dos museus fora da academia. “A FBAUP é um edifício histórico, não acessível física ou sensorialmente”, descreve Daniela. “Há, atualmente, um projeto de acessibilidade, mas pendente de autorizações, por isso creio que irá demorar alguns anos.”

Já nos núcleos museológicos da U.Porto, como o da Faculdade de Farmácia ou da Faculdade de Medicina, a visita por parte do público é, em si mesma, uma questão de acessibilidade, avalia. “As visitas fazem-se por pedido e, geralmente, quem pede são investigadores, antigos alunos ou outras pessoas que têm interesse no tema.” Adicionalmente, estes espaços situam-se em “salas apertadas e sem informação descritiva”. “Apenas há visitas guiadas com professores a acompanhar.” 


Contudo, a U.Porto também tem bons exemplos. A Casa-Museu Abel Salazar, “não sendo acessível fisicamente, já teve exposições e recursos pensados a nível sensorial”, refere a doutoranda. Também a Casa Comum, polo de dinamização cultural e artística da instituição, “já acolheu uma exposição acessível para pessoas cegas e com baixa visão”, mas não teve a adesão esperada. “Esse é outro problema; as pessoas têm de ter conhecimento de que isto existe.” 


O ensino superior é outra área de atuação de Daniela Fatela Geraldes, também coordenadora de relações externas do Ensino Superior + Inclusivo, projeto de jovens universitários que pugna por uma jornada académica mais justa e inclusiva para estudantes com deficiência ou necessidades específicas. “O nosso trabalho parte muito de ouvir os estudantes e alertar as universidades para as suas condições”, resume. Nem sempre é possível concretizar os pedidos de apoio dos estudantes. “Às vezes as decisões vêm mais de cima e é difícil lá chegar.”  


Para Daniela, a Universidade do Porto tem a vantagem de ter o Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI), que tem realizado um trabalho sólido junto dos estudantes ao longo dos anos. Porém, estando este sediado na Faculdade de Letras, “nota-se uma discrepância entre as restantes faculdades, porque tudo depende das direções e das reivindicações dos alunos”. O grau de dificuldade para obter o estatuto de estudante com necessidades específicas também varia, acrescenta. “O ideal seria haver um serviço central de apoio ao aluno com necessidades específicas.” 

Conjugar o Porto Incluir JulAgo26

O compromisso de Daniela Fatela Geraldes com a promoção de práticas inclusivas e da igualdade de acesso e participação na cultura, educação e sociedade, valeu-lhe, em março, a nomeação como Embaixadora da Juventude na área da Inclusão e Acessibilidade, pela Câmara Municipal do Porto (CMP), no âmbito da eleição do município como Capital Nacional da Juventude 2026. “Além do reconhecimento pelo meu trabalho, mais pessoas contactaram-me para saber mais e replicar o que estou a fazer noutros museus.” 


Uma das abordagens veio da cooperativa portuense Sexto Sentido, que propôs a criação de uma maquete em 3D para a Torre dos Clérigos. O projeto foi, entretanto, apresentado à CMP. Daniela está, também, em contacto com a Visit Porto no âmbito do Porto Acessível, projeto da autarquia com a associação Accessible Portugal. A partir do levantamento das acessibilidades de 54 recursos turísticos do Porto, foi elaborado um guia com cinco itinerários em braille ao longo de oito quarteirões turísticos e mapas táteis dos percursos. Foi, igualmente, criado um plano de ação para realizar melhorias nos 54 locais referidos. “É preciso divulgar estes instrumentos, não só a turistas, mas também à comunidade.”


Se é verdade que, hoje, Daniela vê a cidade através da lente da acessibilidade e inclusão, é também a partir do cinema que se movimenta nela. Gaiense a trabalhar no Porto, podemos encontrá-la habitualmente numa das salas do Batalha Centro de Cinema ou do Cinema Trindade. Fora isso, não faz grandes planos; prefere perder-se nas ruas e dar de caras com lojas de artigos em segunda mão ou livrarias antigas. A Batalha, onde passou várias horas à espera do autocarro para casa, é o seu sítio predileto. “Vê-se pessoas muito diferentes e há sempre recantos curiosos ou lojas inesperadas no meio dos edifícios.” 

Fotografias © Rui Meireles

Partilhar

Relacionados

Conjugar o Porto Incluir JulAgo26
agenda-porto.pt desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile