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Inventar com Simão Bolívar
Entrevistas
Simão Bolívar é artesão, construtor de brinquedos, bonecreiro e formador. Em 2007, fundou o projeto Simão Feito à Mão, onde cria brinquedos com materiais reaproveitados, inspirados pela tradição popular e pelo saber-fazer artesanal.
Conjugar Inventar Out26

outubro 2026

Na primeira infância, Simão Bolívar fazia da oficina de bonecos do pai o seu parque de diversões. Filho de um mestre de mamulengo — forma popular e tradicional de teatro de marionetas típica do nordeste brasileiro —, e de uma assistente social sensível à arte, demorava-se largas horas no meio de madeiras, tintas e ferramentas usadas na construção destes fantoches. “Eu brincava muito sozinho e isso marcou o meu gosto por manualidades”, contextualiza.

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Simão nasceu em 1978 em João Pessoa, Paraíba, mas a família mudou-se pouco depois para Brasília. Ali cresceu a dar asas à imaginação entre a oficina, os espetáculos, as apresentações de rua e os workshops do pai. “Às vezes viajava com ele para festivais”, recorda. Quando os pais se separaram, deixou de ter acesso ao conjunto de instrumentos e ideias desse universo lúdico e fantasioso, mas “a semente ficou”.


Na escola primária, um colega ensinou-o a fazer um tsuru, pássaro que é uma das mais tradicionais formas de origami. Simão aperfeiçoou-os e aprendeu outros tipos de dobragens em papel ao mesmo tempo que se aventurava a fazer “pequenas transformações” nos seus brinquedos, motivado pelos livros de origami e kits de ferramentas oferecidos pela mãe.


Salvo alguns utensílios específicos como formões, serras ou um ferro de soldar, que era preciso comprar, Simão recorria a materiais e objetos reaproveitados para realizar as suas experiências. Bem antes dele, já o pai dava uma segunda vida a diversas quinquilharias para criar as suas marionetas. 

“Quando éramos pequeninos, eu e a minha irmã dormíamos num colchão de espuma e ele ia cortando tiras para fazer bonecos”, conta o artesão, entre risos, reproduzindo uma história que lhe era narrada pelo pai. “O colchão ia ficando cada vez mais estreito e foi assim que fiquei tão apegado a ela.”


Embora não consiga atestar a veracidade destes episódios, observar o pai a reutilizar materiais fez com que, naturalmente, tomasse a mesma direção. Além disso, a impossibilidade de ter o seu “manancial de ferramentas” por perto aguçou essa necessidade. Inicialmente, a sua prática teve uma alavanca circunstancial; a consciência ambiental chegaria depois, quando ingressou no curso de Geologia para inspecionar o interior da Terra com a mesma curiosidade com que desmontava brinquedos para ver como eram feitos. 


Concluiu a licenciatura em 2005 e, no ano seguinte, voltou com a namorada, Joana para a sua terra-natal, o Porto. À chegada, deparou-se com a falta de emprego na área. Enquanto procurava outra ocupação, as mãos fugiram-lhe novamente para os materiais e objetos reaproveitados. “Comecei a fazer coisas como antes, mas sem a mínima pretensão de viver disso”, recapitula.  

Tradição popular, movimento e materiais reutilizados

As primeiras peças criadas por Simão foram presentes personalizados: um carro esculpido a partir de uma lata de atum para o sogro, com a matrícula alusiva ao seu dia de aniversário e às suas iniciais, e uns dançarinos construídos com latas de refrigerante para oferecer a uma amiga. 


Corria o verão de 2007 quando decidiu resgatar outra paixão de infância e organizar uma oficina de origami. Dirigiu-se ao extinto CRAT — Centro Regional de Artes Tradicionais, na Rua da Reboleira, para lá deixar um cartaz e, a dois passos dali, avistou a oficina de Naná, construtor de barcos em miniatura. O filho do artesão convidou-o a entrar e, entretanto, apareceu Paulo, dono da Farmácia, uma loja de artesanato então instalada na antiga Farmácia do Toninho da Reboleira. “Era um lugar encantador e eu fiquei com aquilo na cabeça.” 


Semanas depois, propôs fazer ali uma exposição de brinquedos, mas tinha pouco mais do que a ousadia de sonhar e o conhecimento de alguns mecanismos de brinquedos populares herdado do pai. Então, pegou no carrinho e nos dançarinos que tinha feito, desenvolveu a menina no baloiço e a menina a saltar à corda com madeira, cortiça e latas e levou alguns exemplares de cada. “Na primeira semana vendi quase tudo, porque tinha pouco stock”, revela. 

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A apresentação do seu trabalho mostrou-lhe que a reutilização de materiais podia ser, mais do que um recurso oculto, um traço explícito e distintivo das suas obras. A primeira versão da menina a saltar à corda era feita de madeira e estava polida e pintada. “Fiz três bonecas dessas e não vendi nenhuma, porque perdeu-se a leitura do [material] reaproveitado e as pessoas queriam comprar o protótipo tosco de latão.” 


Ainda em 2007, Simão Bolívar fundou o projeto Simão Feito à Mão e, desde então, não tem parado de inventar. O processo inicia-se de duas formas: um conceito original que procura traduzir numa peça ou uma ideia associada à analogia da forma ou às propriedades do material de determinado objeto. “O que eu faço tem muito do que aprendi na dobragem de objetos bidimensionais do origami.” 


A tradição popular, o movimento e o reaproveitamento de materiais constituem os três pilares do projeto. “A maioria dos meus brinquedos tem algum mecanismo de interação”, afirma o artesão. “Você gira uma manivela e eles se movem.”


O trabalho de Simão desdobra-se em criações próprias e recriações de brinquedos e mecanismos de brinquedos populares. A primeira categoria inclui o carro e a cabra recortados de latas de atum e a menina a saltar à corda, feita com latas de refrigerante e rolhas de cortiça. A segunda integra a menina do baloiço, que obedece ao mecanismo do brinquedo tradicional conhecido como Gregório ou trapezista em Portugal e Mané Gostoso no Brasil — brinquedo de madeira com um boneco que dá uma volta no ar quando se apertam as suas extremidades. 

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Criar brinquedos e ferramentas para os construir

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Neste último lote está, ainda, a senhora a bater no marido com um rolo da massa, que segue a mesma lógica do tradicional prato de galinhas. Neste brinquedo tradicional de madeira encontrado em vários países, incluindo Portugal e Brasil, as galinhas estão ligadas a um pêndulo que, acionado ao girar ou balançar o prato, simula que elas estão a bicar o chão. Simão tinha feito uma primeira reinterpretação do brinquedo com o martelo de São João e o alho-porro no lugar do rolo da massa para vender na festa. Sobraram algumas unidades, que levou para uma feira em Pombal. Foi uma senhora que, ao ver a peça, lhe sugeriu criar algo mais universal. 


Nos primórdios do projeto, as latas de conservas eram a base das peças. Mais tarde, vieram as latas de refrigerantes. “No supermercado, eu escolhia o que comprar não pelos produtos, mas pelas cores das latas”, relata, exemplificando. “Preciso de amarelo, por isso vamos tomar uma água tónica.” A partir de 2009, as cápsulas de café foram ganhando protagonismo entre os materiais reaproveitados. “Elas são um problema ambiental, mas têm cores e padrões fantásticos e são fáceis de trabalhar, porque são feitas de uma chapa de alumínio fininha.” 

O tempo de produção dos brinquedos varia conforme a sua complexidade. Durante um dia de trabalho, Simão cria cerca de 10 dançarinos e 10 meninas a saltar à corda. Os aviões de cápsulas, feitos em séries de 20, levam dois dias a produzir, porque são das raras peças em que é usada cola. As mais complexas, como as caixas de música, são concluídas ao longo de vários dias.


Por norma, os materiais chegam à oficina de Simão através de familiares, amigos, conhecidos e clientes, como a vizinha, Paula, que é a sua “fornecedora de latas de comida para gato” — atualmente utilizadas como base para a maioria dos seus bonecos — e um senhor norte-americano, Gary, que é o seu “fornecedor de rolhas de espumante” — aplicadas em partes específicas dos brinquedos como as cabeças. Antes da ajuda de Gary, Simão rumava aos Aliados no Ano Novo, logo após a meia-noite, com dois amigos e uma saca. “Em poucos minutos, tinha rolhas para um ano de trabalho.” Há materiais que tem mesmo de comprar, como o arame em latão, ferragens e peças mais pequenas e/ou específicas.


Ao longo de quase 20 anos, o artesão foi “simplificando etapas” e “otimizando métodos”. A par de criar brinquedos e bonecos, Simão desenvolve as suas próprias ferramentas, como a máquina de fazer cabeças de cortiça, outrora produzidas uma a uma, e a máquina de lavar cápsulas, que prepara estes itens para serem tratados.


Apesar de terem um intuito lúdico, estas peças não podem ser classificadas comercialmente como brinquedos, uma vez que não cumprem as normas de segurança europeias, por conterem partes menores que podem ser engolidas e arestas de metal cortantes. “Os brinquedos que eu faço podem ser utilizados por crianças, mas não podem ser crianças muito pequenas, e têm de ser ‘treinadas’. Você pega e mostra como girar a manivela e ela faz”, justifica o artesão, vincando que as suas peças são para todas as idades. 

Simão Bolívar alerta que, em quase duas décadas de carreira, “a quantidade de material reutilizado é insignificante perante o volume de produção das coisas”. O verdadeiro impacto da sua atividade, acredita, reside na sensibilização do público que interage com as suas peças, mesmo que não as compre. “O mais interessante é a possibilidade de desenvolverem uma relação afetiva com objetos que jogam todo o dia para o lixo.”


Em 2012, Simão foi oficialmente reconhecido como artesão profissional pelo CEARTE – Centro de Formação Profissional para o Artesanato e o Património que, além de lhe atribuir a Carta de Artesão, classificou a sua oficina como Unidade Produtiva Artesanal. Nessa altura, obteve a certificação como construtor de brinquedos, mas em 2018 decidiu reconectar-se com a arte do pai e pediu uma segunda certificação como bonecreiro. Este ano, começou a explorar a construção de máscaras e espera ver essa atividade igualmente reconhecida.


Além da vertente comercial do seu trabalho, Simão participa volta e meia em mercados de artesanato e desenvolve regularmente oficinas de construção de brinquedos sustentáveis no Porto e no resto do país. Este mês, à boleia dos Dias Abertos da Bienal Artes & Ofícios de Oeiras, em que artesãos de todo o país são desafiados a abrir os seus ateliês ao público, haverá duas oficinas nos dias 10 e 11 de outubro, às 10h00, no espaço do Simão Feito à Mão, no Bonfim.

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Fotografias © Rui Meireles

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