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novembro 2026
Maria Eduarda Leite nunca saiu da idade dos porquês. Em criança, entretinha-se a fazer inquéritos nos jantares de família e sonhava segurar num microfone a sério. Mais tarde, desassossegava o seu círculo de amigos com questões inusitadas. À medida que crescia, essa faceta curiosa e faladora era alimentada por debates e conversas a que a irmã a levava, como os cafés filosóficos organizados pelo Clube Filosófico do Porto. “O primeiro a que fui aconteceu no Planetário e eu achei muito interessante este cruzamento da filosofia com a ciência”, recorda à Agenda Porto.
Essa sessão foi a sua porta de entrada num universo onde podia dar voz às suas inquietações e escutar as dos outros de forma simples e livre, sem medos ou julgamentos. “Eu era a mais nova e parecia uma carta fora do baralho, mas sempre me senti ouvida”, conta Maria Eduarda. A ligação à cultura e à arte vinha de trás, dos anos de estudo de piano e canto lírico, e a vontade de construir um projeto próprio foi-se formando, impulsionada pelas atividades e grupos que organizava e em que participava na faculdade.
A conclusão dos seus estudos, uma licenciatura em Ciências da Comunicação e um mestrado em Gestão, coincidiu com o fim da pandemia. Em 2023, aproveitando a reposição da normalidade e o declínio da “dormência cultural” então prevalente, e já com “alguma pedalada profissional”, Maria Eduarda criou o Coletivo Tagarela. “Queria que fosse um lugar onde as pessoas se sentissem à vontade para expressar as suas opiniões, trabalhar o raciocínio e olhar para a filosofia como uma disciplina mais acessível”, revela.

© Espaço Agra
O primeiro debate focou-se na arte e realizou-se em setembro desse ano, no âmbito do Festival Colors, no Espaço Agra. Ainda sem nome, foi o precursor do Café Filosófico que, hoje, se realiza bimensalmente. A acessibilidade é a matriz destes encontros, dirigidos a todas as pessoas interessadas em conversar sobre temas da filosofia e do quotidiano. “Não é um pré-requisito saber filosofia ou autores como Kant ou Descartes”, frisa. “Mesmo quem nunca leu um livro ou quem não sabe ler e escrever pode participar.”
Para a fundadora do Tagarela, desenhar um “espaço de diálogo que devolve o palco à participação popular” é especialmente relevante numa sociedade cada vez mais frenética e polarizada. Ao mesmo tempo, acredita, é preciso “democratizar o acesso à cultura”. “Às vezes há uma ideia de que estes espaços são muito intelectualizados e cheios de conceitos.”
As perguntas estão por todo o lado
Para conceber o Café Filosófico, Maria Eduarda Leite inspirou-se na abordagem de uma antiga professora de Filosofia que, mais do que debitar autores e teorias, desafiava os alunos a trabalhá-los através do diálogo e a formarem uma opinião. Por outro lado, tomou o formato do Clube Filosófico do Porto como referência para elaborar “um lugar de comunhão e partilha”.
O Café Filosófico está dividido em duas partes: na primeira, que dura cerca de hora e meia, discute-se a pergunta de partida; a segunda é dedicada ao “metadiálogo”, onde os participantes podem opinar sobre o modelo usado, reportar dificuldades ou dar sugestões. Maria Eduarda modera os debates com “uma postura inquisitiva e curiosa” carregada de humor. “Estes espaços tendem a ser enfadonhos e, ao fazer piadas, as pessoas desmancham e veem que podem errar.”

© Nuno Miguel Coelho
Enquanto criadora e moderadora da iniciativa, Maria Eduarda tem de pensar no tema e preparar a moderação, divulgação e logística das sessões. Construir a pergunta inicial é o mais demorado. “Gosto muito de linguística e semântica, por isso passo muito tempo a pensar nos duplos sentidos das palavras ou que caminhos a pessoa tomará se eu colocar o verbo à frente ou atrás do nome”, descreve. Por norma, essa é uma fase de grande pesquisa, que pode passar por leituras de vultos da filosofia ou do pensamento, mas não se cinge a elas.
“Muitas perguntas vêm de pensamentos que tenho no banho, de filmes que vi ou de conversas com amigos”, conta. Foi o caso de temas recentes como Podemos conhecer alguém verdadeiramente?, desencadeada pelo filme O Drama, ou Pensamos em palavras?, saída de uma conversa com colegas de trabalho.
As discussões obedecem a uma série de regras. “O respeito e o civismo à partida estão garantidos, mas é sempre bom reforçar”, refere. Os participantes devem levantar o braço para falar e, uma vez concedida a palavra, clarificar se vão responder à pergunta, discordar e/ou contra argumentar a ideia de alguém ou trazer uma nova questão. “Isso obriga a um exercício de raciocínio e organização do pensamento a que as pessoas não estão habituadas”, considera a moderadora. Esperar para intervir é igualmente fulcral. “Muitos dizem que é difícil, porque estão impacientes e querem reagir, mas a regra acaba por travar parte desse impulso.”

© Imagens de Verdade
A construção coletiva do debate
Cada Café Filosófico acolhe cerca de 20 elementos com perfis variados, dos extrovertidos que estão habituados a verbalizar as suas opiniões aos tímidos que têm medo de falar perante desconhecidos. Vários são ligados aos livros, mas não à filosofia, e trazem referências literárias ou culturais. Outros partem da experiência comum e do que ouviram um amigo ou familiar dizer para fazer uma reflexão. A idade também varia; a pessoa mais nova numa sessão tinha 18 anos e a mais velha 79. Há vários “residentes”, mas aparece gente nova a cada mês. As conversas esgotam num ápice, por isso passaram a ser duas em vez de uma por mês.
Segundo Maria Eduarda, o momento mais estimulante das sessões é ver o grupo definir o rumo da discussão em vez de corresponder às ideias preparadas. “Às vezes, penso que vão explorar um caminho e a pergunta leva-os para outro”, observa. É aí que o Tagarela concretiza o coletivo que leva no nome e que se “distingue de outros debates ou conversas de café”.

© Espaço Agra
Três anos volvidos, o Café Filosófico encontrou uma casa permanente no Espaço Agra, depois de dar os primeiros passos n’A PiSCiNA. “É muito importante que haja espaços que consigam apoiar estes projetos independentes, que nem sempre são os mais lucrativos”, realça.
O Coletivo Tagarela promove outros formatos, como as Conversas a Pares — encontros rápidos que desafiam os participantes a conhecerem pessoas fora da sua bolha social — e o Café Filosófico nas Empresas, uma formação adaptada que desafia as equipas a testar o raciocínio e o poder de argumentação e a desenvolver o discurso e a capacidade de escuta.
Adicionalmente, o Tagarela já esteve presente em eventos como o Podcast à Mesa do Maus Hábitos ou o Absurda Art Fest, em Arcos de Valdevez. O próximo passo será testar formatos mais “leves e descontraídos” e encetar novos contactos, procurando novas sinergias e abrindo a porta a públicos diferentes. Para já, a conversa continua no próximo Café Filosófico, nos dias 11 e 24, às 21h00.
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