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Se há habitat natural para a cultura underground, é, literalmente, uma cave: há um ano que o piso subterrâneo do número 86 da Rua de António Granjo, no Bonfim, recebe bandas que nunca ou poucas vezes deram um concerto. O espaço faz parte do edifício revestido a azulejo amarelado que, desde 1959, alberga a Real República dos LyS.O.S., comunidade formada por jovens a estudar no Porto. TRASGO, Socafofo, Kodakino, Varizes, Esquizofonia, Gato do Mato, Banda Humilde e Folgosa Cadafaz são os grupos que já lá passaram, a maioria vinda do outro lado da rua, das salas de ensaio do Centro Comercial Stop.
“É mais fácil em termos de deslocações, normalmente vou lá e ajudo a carregar tudo”, diz Rafael Fermento, estudante de Multimédia de 25 anos e membro dos TRASGO, os primeiros convidados a atuar nos LyS.O.S. “Tinha decidido antes mas, depois de tocar aqui, queria vir para cá morar”, recorda. Já instalado, e após ver uma segunda banda encher a sala do subsolo, propôs ao resto do coletivo começarem uma programação regular. Desde fevereiro que os Concertysos decorrem na última sexta-feira de cada mês, sempre às 19h00, com entrada gratuita e lotação máxima de 100 pessoas.

Concerto de Banda Humilde no passado mês de julho, com Rafael Fermento no baixo © Mafalda Silva Pinho
O que conseguem amealhar no bar em cada evento “não é significativo”, mas chega para preparar o seguinte, detalha Diogo Teixeira, de 24 anos. Este mestrando de Ciências da Comunicação, natural de Mirandela, adianta que quanto tiverem “possibilidade” querem começar a pagar aos músicos, “porque é merecido”. Fermento acrescenta que tentam que os grupos “não percam dinheiro absolutamente nenhum”: “têm comida, têm bebida, até backline, muitas vezes é a minha banda que traz a bateria e os amplificadores”. Segundo ele, “não há muitos espaços no Porto” que sirvam como um “primeiro degrau” entre a formação de uma banda e a sua chegada a locais como o Maus Hábitos, pelo que este ciclo de atuações pretende ajudar a atenuar essa “disparidade” entre etapas. “Sendo os LyS.O.S. um espaço comunitário”, diz, faz sentido que se posicione como um espaço “de contracultura no Porto”, daí a aposta em “bandas desconhecidas”: “já que só conseguimos dar estas condições, que seja a projetos que vão beneficiar desta primeira visibilidade”.
Tão ou mais importante do que esse serviço de montra, é, claro, a diversão, seja de residentes, músicos ou visitantes. “A lógica é que ninguém saia prejudicado”, garantem, mas assegurar que os concertos correm bem também pode ser “stressante”. Querem, por isso, alterná-los com um tipo de “festas mais descontraídas”, como um recente serão que combinou um DJ set com um torneio do videojogo Tekken. "Em stand-by" estão, de momento, as projeções do Cinelysos: “Planeamos voltar, com uma ideia de música ao vivo enquanto passa o filme, mas ainda estamos a tentar encaixar isso no nosso calendário mensal, para não ser um evento de perda [económica] total, porque é muito mais difícil trazer malta para ver filmes e implica sempre termos comida, bebida…”, refere Diogo.

É na cave da república que se organizam os Concertysos, as festas e outras atividades © Mariana Rollo
As diferentes moradas e o estatuto emancipador
As repúblicas estudantis disseminaram-se em Coimbra no século XIX, depois da Revolução Liberal, inspiradas em casas comunitárias de estudantes que remontam a tempos medievais, em que se compartiam despesas, alimentação e vida quotidiana. A sua organização interna pode assemelhar-se à de um Estado republicano, daí o nome. Nos LyS.O.S. também a administração doméstica é partilhada por todos, com “foco nos fortes de cada um”, como diz Rafael. É em conjunto que se controlam as contas, se decide o que comprar ou se trata da limpeza e da manutenção dos espaços comuns. Mas foram precisamente estudantes da cidade do Mondego que fundaram a casa, quando “vieram em 1959 acabar o curso no Porto”, explica Diogo Teixeira.
Para contextualizar, o transmontano diz que em Coimbra há 24 alojamentos deste tipo e que todas integram o Conselho das Repúblicas, um órgão de coordenação e deliberação conjunta. “Nessa questão, os LyS.O.S. sempre estiveram meio distanciados, até aos anos 90 ou 2000 em que se aproximaram de Coimbra.” A única república portuense apenas aceita estudantes do ensino superior, ao contrário de algumas das conimbricenses, que também acolhem trabalhadores, mas a principal diferença, diz Diogo, é serem uma cooperativa.

As contas, as compras, a gestão alimentar, a limpeza e a manutenção dos espaços comuns ou a realização de eventos: tudo nos LyS.O.S. é tratado de forma coletiva © Mariana Rollo
Inicialmente criada na Praça de Mouzinho de Albuquerque, num prédio que já não existe, a residência mudou-se nos anos 60 para a Avenida da Boavista. Aí, um conflito provocado por “questões associada à praxe”, conta Teixeira, chegou a provocar “uma cisão”, mas recuperada a paz continuaram os problemas. A construção do Centro Comercial Brasília obrigou a nova mudança e, em 72, passaram para a Rua de Faria Guimarães, onde, durante o Verão Quente, chegaram a esconder duas dezenas de militantes antifascistas (um deles, o aveirense António Regala, que residia na casa).
A maior crise e a maior conquista viriam nessa morada, na década seguinte, quando o “senhorio faleceu e as filhas queriam vender a casa e mandá-los embora”. Na altura, “havia uma lei que protegia as repúblicas de despejo, mas só incluía Coimbra”, pelo que “os estudantes do Porto foram à Assembleia da República e conseguiram tornar a lei nacional”, continua Diogo. Resultado: as herdeiras foram obrigadas a indemnizar os LyS.O.S. que, com o dinheiro recebido, compraram o atual edifício no Bonfim. “Foi aí, em 1987, que se fundou a cooperativa; nenhum deles podia ficar como dono da casa, porque eventualmente ia acabar o curso e sair”. Fazem “duas assembleias por ano”, altura em que os membros diretivos “vêm ver como está a casa, o ambiente, conhecer as pessoas que cá estão e aprovar uma série de questões legais, como o Plano Anual de Atividades, questões de obras…”.
Quatro décadas depois, o estatuto cooperativo continua a protegê-los. “Aqui no centro do Porto é um absurdo”, diz Teixeira sobre as rendas da habitação, consciente de que os 150 euros que cada um paga de mensalidade não se comparam aos valores exigidos a muitos estudantes. “Somos o nosso próprio senhorio, a cooperativa é o nosso senhorio.” Ao seu lado, João Sabina, estudante estarrejense de Gestão e Comércio Internacional, de 21 anos, salienta outro aspeto: “Somos independentes, não temos ligação à Universidade do Porto, [enquanto] as de Coimbra basicamente estão presas à Universidade.”

Fachada do edíficio dos LyS.O.S., na Rua de António Granja © Mariana Rollo

As projeções do Cinelysos decorriam no pátio exterior da casa © Mariana Rollo
Repúblicos, candidatos, penduras e o fim dos mores
Apesar da referida autonomia, a Real República dos LyS.O.S. fez ao longo dos anos “várias tentativas de aproximação à Universidade do Porto ou a alguma faculdade em específico”, até hoje infrutíferas, conta Teixeira. Também contrariamente à maioria das repúblicas conimbricenses, a portuense “sempre teve uma índole de praxe”, admite, “provavelmente até se ter tornado mista”. Depois de algumas experiências, o alojamento passou em 2012 a aceitar também raparigas e, desde então, elas até têm sido a maioria (apesar de nenhuma ter participado nesta conversa).

A casa conta com cinco quartos individuais e quatro duplos © Mariana Rollo
“As mentalidades mudaram” e os rituais praxistas “vem desaparecendo”, o que obriga os atuais residentes a “gerir sensibilidades” e a enfrentar a “crítica dos antigos”, que lamentam que os batismos já não sejam como no seu tempo. É nessa cerimónia simbólica que, ao fim de mais ou menos um ano, os novos inquilinos passam de candidatos a repúblicos. Trata-se de uma “mini-hierarquia”, como lhe chama João Sabina, que define “quem continua” ou não a morar ali. “Antes havia a figura do mor, acima dos repúblicos”, explica Diogo, mas a relação acabou mal. “O último mor, ou um dos últimos, ficou associado a coisas negativas, retirou dinheiro da caixa, deixou a casa sem dinheiro, concentrava alguns poderes nele”, subvertendo a ideia original do cargo.
Neste momento são 11 os moradores, de áreas de estudo e faculdades distintas, mas há espaço para 13, divididos por nove quartos. Dantes, a prioridade era acolher estudantes que não fossem do Porto nem de concelhos limítrofes, mas agora já não (Rafael Fermento, por exemplo, é portuense). Também não há fronteiras de nacionalidade, já hospedaram vários estrangeiros e na atualidade contam com três brasileiros. “Temos claramente uma maior ligação ao Brasil, o que é natural, mas ainda recentemente recebemos um italiano”, relata Diogo. Têm “sempre uma ou duas vagas para estudantes ERASMUS”, aos quais chamam penduras, porque permanecem apenas “seis meses ou um ano” e ficam “aliviados das responsabilidades de toda a coordenação da casa”, exceto o cuidado do espaço.
No início do atual ano lectivo, receberam contactos de “mesmo muitas pessoas” que queriam viver ali e tiveram “de fazer uma seleção”, explica Diogo. O habitual é convidarem as pessoas interessadas a visitar a casa, a jantar ou lanchar com os residentes, “para perceberem a dinâmica da comunidade”. A idade pode ser tida em conta para facilitar a convivência e dão sempre prioridade a estudantes de primeiro ano de licenciatura, “por uma questão de continuidade”, evitando moradores que fiquem pouco tempo para não haver “quebras entre gerações”.

Da esquerda para a direita: Rafael Fermento, Diogo Teixeira e João Sabina © Mariana Rollo
Mais um centenário a chegar
Segundo a tradição académica, viver um ano numa república significa viver um século. Em vez de aniversários, celebram-se centenários. No próximo 18 de novembro, os LyS.O.S. vão, assim, comemorar 6700 anos. “Normalmente é o grande evento da casa”, conta Diogo à Agenda Porto. A celebração, marcada para o fim de semana seguinte, terá um convívio entre residentes de agora e de outros tempos, um jogo de futebol a opor uns e outros, um almoço que reunirá “todas as gerações” – incluindo os dois fundadores ainda vivos – e ainda o batismo dos novos repúblicos. Apesar do ritual de iniciação, a festa é sobretudo para quem já passou pela república, “os antigos”, ainda que as despesas fiquem para Diogo, João, Rafael e restantes companheiros, tal como a já referida “gestão de sensibilidades” intergeracionais.
Além do centenário, celebram também o Natal, em conjunto com familiares, e no São João organizam uma festa para quem quiser aparecer. “Acho que a casa sempre teve porta aberta a toda a gente, e continua a ter, até porque nos eventos entra todo o tipo de pessoas”, diz Sabina. Fermento acrescenta que também costumam receber visitas de gente interessada em conhecer a casa que os contacta pelo Instagram. “Quando vim para cá, as pessoas que conhecia não faziam ideia do que era uma república, nem que havia uma na Porto”, lembra Diogo. Um conceito que, segundo dizem, continua a ser desconhecido para grande parte dos estudantes da cidade.

Concertysos: atuação de Folgosa Cadafaz, em setembro passado © Mariana Rollo
Na despedida da conversa, Rafael pede para deixar um agradecimento a Pedro Ledo, do projeto Astra Vaga: “Foi ele quem nos emprestou a mesa de mistura e isso tem-nos ajudado; é bastante bonito que de repente nos sintamos inseridos na comunidade e que toda a gente quer que este espaço continue a existir.” Um sentimento que certamente agradará a Zé Veloso, antigo residente nos LyS.O.S. e membro d’Os Álamos, conhecida banda universitária portuguesa dos anos 60, que mais tarde se tornou divulgador das tradições académicas e escreveu Os Lysíadas, A epopeia dos LyS.O.S., uma república de Coimbra no Porto. Uma história à qual se continua a somar capítulos.
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