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A Máquina Zero, Nuno Sousa © Cruz Santos
Março 2026
O Clube de Desenho nasceu de uma inquietação comum: a necessidade de pensar o ensino e a prática do desenho em conjunto. “Ser professor é uma atividade muito solitária”, recorda Sofia Barreira. “Estás tu com os teus alunos, mas tens dúvidas, queres discutir, trocar ideias entre pares. Sentíamos falta disso.”
Sofia Barreira, Marco Mendes, Nuno Sousa e Carlos Pinheiro foram-se cruzando em Belas Artes, enquanto alunos, mas foi mais tarde, quando Sofia e Nuno davam aulas e frequentavam um mestrado na Faculdade de Arquitetura do Porto, que a ideia nasceu. “No dia em que defendi a tese, senti um vazio enorme”, conta Sofia. “Dois anos de trabalho resumidos a uma conversa de 30 minutos. E depois pensei: e agora? Foi aí que desafiei o Nuno a criarmos a nossa escola, o nosso programa.”
Em 2010, criaram um clube no sentido literal da palavra: uma associação de pessoas reunidas por um interesse comum num espaço de autonomia, liberdade e decisão coletiva. “Quando começámos, criámos um espaço que não existia em lado nenhum”, atira Nuno Sousa.
O Clube de Desenho foi “uma reação a várias coisas de que nós não gostávamos no ensino e no meio artístico”, afirma Marco Mendes. “E havia um elo muito forte e uma cumplicidade entre as pessoas, uma partilha de valores que fez com que criássemos um espaço onde pudéssemos ser mais autónomos e mais livres”, sublinha.

Da esquerda para a direita: Carlos Pinheiro, Nuno Sousa, Marco Mendes, Sofia Barreira e Diogo Nogueira. © Renato Cruz Santos
A propósito, Nuno acrescenta que “quiseram fazer o contrário do que é 'normal' fazer; somos mesmo um clube, no sentido de não haver cinismo”. “Fomos educados numa época em que a formação artística era muito cínica, dada por professores que tinham um discurso [hostil] em relação ao ensino”, lamenta, recordando que “um dos seus primeiros professores na faculdade dizia que ‘teve de vir dar aulas, mas que não queria’, que é uma coisa horrível para se dizer aos alunos.” “Nós não temos esse preconceito entre o que é ser artista, o que é dar aulas, o que é aprender, misturamos um bocadinho isso tudo”, sintetiza.
Em 2020, dez anos depois da sua criação, o clube passa a ter morada fixa no n.º 970 da Rua da Alegria, acrescentando à programação formativa um espaço expositivo e outro de ateliês, atualmente com sete artistas residentes. “Inicialmente, estávamos restringidos às aulas e aos cursos, mas o nosso objetivo foi sempre mais ambicioso. O que temos agora aqui, a galeria, já na altura era um desejo. Essa dimensão de intervir na cena cultural da cidade sempre existiu – e isso foi, se calhar, o que mais mudou desde o início; a parte dos ateliês também era uma coisa utópica, mas hoje é uma realidade”, diz Marco Mendes.

Marco, Sofia, Nuno e Diogo © Renato Cruz Santos

Exposição A Máquina Zero, de Nuno Sousa
O grupo original manteve-se e expandiu-se. Hoje, integram a direção artística mais três elementos: Diogo Nogueira, Irene Loureiro e Sofia Neto.
Diogo, 26 anos, é o elemento mais jovem da equipa. Tinha 10 anos quando o Clube de Desenho foi criado. Começou por ser aluno para mais tarde integrar o coletivo. “Quando entrei na Faculdade de Belas Artes, senti que precisava de um acompanhamento em desenho e recomendaram-me este espaço. Gostei muito do ambiente, as pessoas ficaram minhas amigas, e quando terminei o curso comecei a colaborar e acabei por me juntar. O Clube de Desenho foi essencial para o meu crescimento enquanto artista e professor”, sublinha o artista, que está agora a fazer mestrado em Pintura em Paris.
Diogo é um dos artistas que integram a exposição que inaugura a 4 julho, e que conta com o apoio do Criatório, programa de apoio à criação e programação artística do Município do Porto. “Convidámos o Diogo e a Irene para serem curadores e participantes de uma exposição coletiva de artistas mais jovens que passaram pelas Caldas da Rainha”, adianta Sofia.
Já este mês, no dia 7, inaugura a exposição A Mão Esquerda das Trevas, de Isabel Carvalho, artista multidisciplinar do Porto, que cruza artes visuais, escrita, edição e publicação de livros, e depois, a partir de 2 de maio, há uma nova exposição de Ricardo Baptista, autor de banda desenhada.
“Tivemos apoio do Criatório, e vamos ter programação até finais de agosto, mas quando não há apoio, fazemos à mesma as exposições e ‘vestimos a camisola’”, garante Sofia, acrescentando que “o apoio permite pagar os custos de produção e ter uma quantia simbólica para pagar aos artistas”.
“Os artistas até ficam surpreendidos: vão-me pagar para expor? (risos). Não há o hábito de pagar às pessoas que fazem com que as coisas aconteçam. No fundo, a verba é para pagar às pessoas – mas não estamos dependentes dos apoios para fazer um programa de exposições”, sublinha a professora e artista, que também se dedica ao restauro de móveis.

Clube de Desenho © Renato Cruz Santos
"No desenho, trabalhamos questões relacionados com o ato de observar. Talvez um dos aspetos mais importantes – mais do que as técnicas, que são fáceis de ensinar – é o conhecimento do mundo, a relação que temos com o mundo. Uma pessoa que desenha, que pinta, que escreve tem uma mediação com o mundo muito diferente."

Exposição A Máquina Zero, de Nuno Sousa
O desenho é o principal eixo curatorial do clube, mas não é o seu limite. “O desenho é interpretado como ponto de partida; convidamos artistas para quem o desenho faz parte do processo”, explica Diogo, mas isso “não significa que as exposições sejam apenas de desenho.” Pintura, escultura, performance e outras linguagens convivem naturalmente. “O desenho está lá, às vezes de forma subterrânea”, acrescenta Sofia.
A investigação conjunta do desenho, o aprofundamento crítico e a aprendizagem coletiva e aberta à comunidade são objetivos deste espaço singular onde, atualmente, decorrem três ofertas formativas: um curso de pintura a óleo, um curso de desenho de observação e sessões de desenho de modelo.
“Os cursos são para quem tem vontade de aprender ou de voltar a estar num ambiente mais estruturado de ensino e de aprendizagem, e os grupos [de alunos] são sempre muito heterogéneos, o que cria uma dinâmica equilibrada — isso é a riqueza de um espaço como este”, sublinha Sofia Barreira. “E não são pessoas necessariamente da área das artes”, acrescenta Nuno Sousa.
Para o professor de Desenho, “mais do que as técnicas, que são fáceis de ensinar”, são trabalhadas “questões relacionadas com o ato de observar”. “Talvez um dos aspetos mais importantes é o conhecimento do mundo, a relação que temos com o mundo, e uma pessoa que desenha, que pinta, que escreve tem uma mediação com o mundo muito diferente”, sustenta.
Nuno destaca “o lado informal” do clube, no sentido em que não há atribuição de notas, “apesar de haver crítica aos trabalhos”. Para Nuno, este é um espaço de investigação pedagógica: “trouxemos para aqui o conhecimento que fomos adquirindo enquanto professores em várias faculdades. O que fazemos é, ao mesmo tempo, uma súmula e uma crítica desses programas.”
Essa posição é, também, uma reação a um modelo competitivo e individualista muito presente no meio artístico. “Existe uma pressão para que cada um siga o seu caminho sozinho, se isole e concorra às mesmas coisas em competição com os outros”, observa. “A nossa reação foi sempre contrária: quanto maior essa pressão, mais nos juntámos”.
O Clube de Desenho afirma-se, assim, como ponto de encontro entre pares. “É muito difícil manter energia e disciplina quando se trabalha isolado, com a vida familiar e o trabalho académico”, diz Nuno, sublinhando que a sua exposição A Máquina Zero, que esteve patente até finais de fevereiro, “só aconteceu porque estava neste contexto”. “É uma luta, é uma resistência.”

Exposição A Máquina Zero, de Nuno Sousa
Ao longo dos anos, o clube tem estabelecido várias parcerias com espaços como a Oficina Arara, a Casa da Imagem e a Circolando, e tem levado o desenho para fora de portas, nomeadamente para o Museu Nacional Soares dos Reis e para o Café Ceuta – e agora para o Museu das Convergências, no âmbito da exposição Fluxo. Objetos, Pessoas e Lugares –, além dos cursos de exterior que promove onde são explorados “logradores e caminhos mais escondidos” da cidade do Porto.
No futuro, o Clube de Desenho quer apostar na edição. “Alguns de nós já fazemos edições de fanzines, jornais e outros projetos editoriais independentes, mas temos essa vontade. Há uma vontade de manter as coisas vivas e dinâmicas e abertas aos outros”, conclui Nuno Sousa.

No espaço de ateliês do Clube de Desenho © Renato Cruz Santos
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