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outubro 2026
Durante um piquenique à beira-mar, no final da década de 1990, ao lerem a notícia que anunciava a construção da Casa da Música (no âmbito do projeto Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura), Abi Feijó e Regina Pessoa ficaram a pensar: “e por que não uma para a animação?”. Desse cenário estival, bastante cinematográfico por si só, germinou a ideia que há um quarto de século levou ao nascimento da Casa da Animação, como explica o seu atual presidente, João Apolinário Mendes, à Agenda Porto.
A instituição, que desde então tem apoiado o cinema de animação produzido no país, é “bastante plural”, diz, pois junta grande parte dos profissionais da área, mas também estudantes e até meros “entusiastas”. Apolinário Mendes conta que se associou quando “ainda estava na universidade a fazer a licenciatura”, “devia ter uns 20 anos”. Quase duas décadas depois, e após um percurso como produtor, realizador, investigador e docente nesta área, assumiu a direção, sucedendo ao próprio Abi Feijó e a Manuela Lima, Luís da Matta Almeida e Regina Machado.
A defesa dos interesses do meio faz-se, pois, com a união dos envolvidos. Na página online da Casa da Animação listam-se os principais estúdios nacionais e há uma base de dados extensa — a Animateca — com os filmes feitos em Portugal. A promoção das obras faz-se por cá e lá fora, sendo que a internacionalização se fomenta também com parcerias criativas, como as proporcionadas pelo seu Fórum da Animação, um evento que incentiva “a coprodução com estúdios estrangeiros”.
Ao desejo inicial dos fundadores — o de se “criar um espaço de divulgação” —, foram-se somando outras vontades “com o tempo”, por exemplo a de ensinar. A Casa abriu uma Academia de Animação, plataforma que estimula a “especialização e o aprofundamento técnico e artístico” de “estudantes, jovens profissionais e autores” através de “programas formativos e de acompanhamento em regime de mentoria”, como se detalha na sua página online. João Apolinário Mendes aponta para o que os guia: “Tentar encontrar o que é necessário para a animação portuguesa continuar a crescer”.

João Apolinário Mendes © Guilherme Costa Oliveira
Há uma dúzia de anos que a associação produz também uma extensão da Festa Mundial da Animação, iniciativa que celebra o dia internacional desta arte, assinalado a 28 de outubro. Começaram por organizar o evento de forma itinerante, mas nos últimos anos fixaram-se em Vila Velha do Ródão, no distrito de Castelo Branco. O programa das comemorações inclui a projeção de filmes e a realização de masterclasses e palestras com “profissionais e pensadores”, além da entrega do Prémio Nacional da Animação, concedido anualmente “à melhor curta-metragem de animação portuguesa, à melhor curta-metragem de escola portuguesa e à melhor oficina”.
Este ano a festa vai ser reforçada, pois cabe ao coletivo, e ao seu presidente, “encabeçar essas celebrações a nível mundial”, momento que está a ser preparado “com outras associações”. A responsabilidade assenta bem a quem vem de uma cidade com “uma relação muito próxima” com este tipo de cinema. Segundo João Apolinário Mendes, “há de facto uma produção de grande qualidade de animação de autor no Porto”, com destaque para “estúdios como AIM, Animais, BAP, Os Filmes do Pinguim — ou a Cola, que possui um escritório na cidade, e a Ciclope Filmes, que fica em Lousada, no distrito do Porto”, com um “trabalho reconhecido e premiado nos maiores festivais
internacionais”.
Além dos já referidos Abi Feijó e Regina Pessoa, são muitos os nomes de relevo que nasceram, estudaram ou trabalharam na cidade, como Nuno Amorim, David Doutel e Vasco Sá, ou, mais recentemente, João Gonzalez, Alexandra Ramires, Marta Monteiro, Alice Guimarães, Mónica Santos ou Leonor Faria Henriques. O presidente da Casa da Animação crê “que não existe apenas uma razão que explique uma cena tão forte”. Sendo esta uma arte “habitualmente feita em equipa”, resultará, em primeiro lugar, do “trabalho e da dedicação de uma comunidade de animadores que se reuniu no Porto”. Elenca, depois, outros “acontecimentos-chave” como “o aparecimento do Cinanima [histórico festival de Espinho], que deu a conhecer outros modos de fazer cinema e formou alguns dos animadores que viriam, mais tarde, a criar os primeiros estúdios de animação de autor”.
A atividade de algumas dessas produtoras, “como a Filmógrafo e a Animais”, viria a contribuir “para a formação de profissionais” e para criar “uma primeira ideia de cinema de animação português”, o que se complementou com a aposta de algumas universidades, das quais saiu “uma geração mais nova”. Por fim, Apolinário Mendes salienta o papel da casa que preside, que foi fruto desse “entusiasmo da comunidade” e acabou a ajudar ao “seu desenvolvimento”. Explica que se trata de “um ambiente” feito de “imensas pessoas”, “que difere muito dos de outras zonas do país, que às vezes são mais direcionados, por exemplo, para um mercado”. E fala com orgulho desse património: “É uma alegria enorme para o Porto ter uma cena de animação de autor tão forte.”

Casa da Animação © DR

João Apolinário Mendes e Regina Machado, presidente e vice-presidente da associação © Guilherme Costa Oliveira
João Apolinário Mendes, que na cidade também esteve ligado ao Museu das Marionetas e ao Teatro de Marionetas, cofundou a companhia Red Cloud e criou ainda o Olho, um festival de cinema de animação que deixou de conseguir organizar quando assumiu as atuais funções diretivas. Continua, porém, a achar que a cidade “tem tudo para ter um festival de animação”, graças ao seu “ecossistema muito particular”, que combina a tal comunidade, “vários estúdios, escolas com cursos de animação e estruturas de qualidade como o Batalha e o Trindade”. Destaca, aliás, que, nos últimos tempos, “um grande número de festivais têm apostado na programação de animação, como o Beast, o Indie Junior ou o Porto Femme, e têm surgido alguns eventos inteiramente dedicados à animação, como o Porto Anim e o TinyMan”. Tendo ainda em conta que “a cidade tem uma forte capacidade de acolhimento e é muito convidativa para o público internacional”, acha que um festival importante acabará por surgir, e promete que, “quando isso acontecer, terá com certeza o apoio da Casa da Animação”.
Para defender o legado e o futuro do setor, a associação, sediada no pólo do Teatro Municipal do Porto no Campo Alegre, estende o seu trabalho a todas as frentes possíveis. A propósito desde 25.º aniversário, acaba também de lançar a versão portuguesa do livro Tocar o Cinema, de Pierre Hébert (descrito como “uma das figuras mais singulares e influentes do cinema de animação experimental contemporâneo”), com edição do próprio João Apolinário Mendes.

© Guilherme Costa Oliveira
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