“Caíram as cuecas da corda.” Esta é a primeira fala, prosaica e objetiva, de Maiúscula, o solo que Jacinto Lucas Pires escreveu para uma atriz maior, Luísa Cruz, uma das mais extraordinárias da sua geração. Marcos Barbosa encena-o, reativando assim uma continuada parceira com o dramaturgo. Neste monólogo, Luísa Cruz é Benedetta Croce, uma atriz de certa idade, que recebe o telefonema de um realizador a propor-lhe um projeto chamado Medeia. A partir daí, ela enceta um frente a frente consigo própria, com o seu passado e futuro, não sem um implacável sentido de humor e de autoirrisão. “No espelho, o meu rosto lembra-me alguém que eu já fui.” O tempo desconcerta-se para esta mulher, mãe, divorciada, desempregada, patroa, sozinha numa casa grande demais. Uma atriz/mulher que, sobressaltada pelo antiquíssimo M de Medeia – a obra-prima de Eurípides, que neste solo é como um eco, ou uma réplica num diálogo vivo –, se assume em toda a sua “sageza e sabedoria”: “Não, não preciso que olhem para mim, sou uma Mulher Maiúscula.” Mas nós queremos olhar, Benedetta/Luísa, ser testemunhas desta Maiúscula.