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XV Ciclo Cultural dos Cemitérios do Porto
A guided tour can change the way we look at graveyards
XV Ciclo Cultural Cemitérios Porto

Este mês acontecem as duas últimas visitas do XV Ciclo Cultural dos Cemitérios do Porto, promovido pela autarquia da cidade. Este programa consiste numa dezena de visitas conduzidas pelo Professor Francisco Queiroz, especialista no tema, aos dois cemitérios municipais da cidade – Prado do Repouso e Agramonte, reconhecidos, desde 2005, como Cemitérios Monumentais. Este ano, pela primeira vez, as visitas estão dividas por temáticas. “Escultura e Estatuária” é o tema das visitas de setembro.


O Cemitério do Prado do Repouso, primeiro cemitério público da cidade, “apresenta uma arte funerária muito própria, pela predominância do neogótico, a utilização do granito e a monumentalidade sobretudo dos jazigos-capela”. Já o Cemitério de Agramonte, inaugurado em 1855, é considerado “um dos cemitérios românticos mais importantes do país”. Estas visitas propõem mostrar “o essencial da história dos cemitérios, os seus mais emblemáticos monumentos e esculturas, as principais figuras da história lá sepultadas e os túmulos mais inusitados”.

Em julho, a Agenda Porto acompanhou uma visita ao Prado do Repouso subordinada à temática “Simbologia”. “Eu vou ver cadáveres, pai?”, ouvimos um jovem adolescente perguntar ao seu progenitor antes do início da visita. Sim, estas visitas também se destinam a famílias com crianças maiores de 6 anos. Não são “visitas tétricas”, garante o Professor Francisco Queiroz, que defende que as perguntas das crianças “são mais interessantes do que as dos adultos”. “Os adultos parece que têm vergonha de perguntar. As crianças fazem perguntas muito mais práticas. E eu gosto muito de ter crianças de visitas.”

XV Ciclo Cultural Cemitérios Porto

© Guilherme Costa Oliveira

XV Ciclo Cultural Cemitérios Porto

© Guilherme Costa Oliveira

Francisco Queiroz, que já visitou cerca de 700 cemitérios do país, começou a fazer visitas guiadas a estes espaços para chamar a atenção para a sua importância em aspectos ligados, por exemplo, à arte: “no século XIX, praticamente todos os grandes artistas portugueses, sobretudo aqueles que estão ligados à escultura e à arquitetura, têm obras nos cemitérios. Portanto, há esse lado do património artístico [que importa valorizar]. Algumas das melhores obras de vários artistas estão nos cemitérios”, sustenta. E acrescenta: “E, depois, há toda a representação da cidade; no cemitério, com percursos de 300 ou 400 metros, consigo falar de muita coisa sobre a história do Porto.

Cemitérios: espaços de comemoração dos vivos

O investigador e divulgador científico afirma que “os cemitérios são feitos para os vivos” e, por isso, defende que é possível entrar nestes espaços e não falar da morte. “Se eu entrar num cemitério para falar, por exemplo, sobre personalidades, posso dirigir a visita de uma forma em que nem sequer toco em nenhum tema que tenha que ver com a morte. Eu posso entrar num cemitério e falar apenas sobre a vida das pessoas que estão ali sepultadas; posso chamar a atenção para as suas obras e para a importância que tiveram no panorama artístico”, refere. E exemplifica: “A gente entra no Cemitério de Agramonte, vai à secção da Trindade, está lá o monumento do Conde Ferreira, uma réplica de Soares dos Reis, e a gente vê ali um homem com pose fotográfica. Ele não está representado num caixão. O monumento representa a importância do homem, aquela figura rica, abastada, que vai buscar o melhor artista que havia na altura para fazer a sua escultura, projetando, assim, a sua importância. A gente quase que se pode abstrair do facto de ele estar sepultado ali.”

Procuradas por todas as faixas etárias, e por famílias, estas visitas são gratuitas, mas requerem inscrição através de formulário disponível em ecoagenda. porto.pt. E apesar de, para já, serem apenas em português, são também muito procuradas pelo público estrangeiro. “Há pessoas que vêm e não são portu­guesas – e vêm mais do que uma vez; algumas já vivem no Porto há alguns anos e, inclusive, trabalham como guias, e vêm para aprender.” Este investigador considera, por isso, que “há um potencial enorme no Porto que não se está a aproveitar nos cemitérios”, e defende a criação de visitas guiadas em inglês. “Há uns anos, estava a fazer um documentário sobre o Cemitério da Lapa, e passei lá dias inteiros a fazer gravações; nessa altura, já havia mais turistas a entrar no cemitério do que pessoas que tinham lá jazigos. Gente jovem, sobretudo. A ideia que tenho é que alguém que vem do Norte da Europa ou dos Estados Unidos [da América] não associa aquelas construções ao sítio onde estão sepultados os seus pais, os seus avós, que são completamente diferentes, e encara isto como quem vai às pirâmides do Egito; um egípcio, se calhar, olha para as pirâmides como um túmulo, e eu vejo aquilo como um monumento.”

XV Ciclo Cultural Cemitérios Porto

© Guilherme Costa Oliveira

Questionado sobre o impacto das visitas guiadas na valorização cultural e turística dos cemitérios, Francisco Queiroz refere que têm contribuído para a sua preservação. “Já me aconteceu estar em visitas e ver pessoas junto a jazigos, e de me dizerem que foram restaurados porque ‘era uma vergonha serem visitados por tanta gente e estarem em mau estado’. Portanto, percebe-se claramente que as pessoas começam a valorizar mais aquilo que têm quando outras pessoas vão lá e demonstram que aquilo é importante. E estas visitas têm um efeito muito benéfico”, afirma.

XV Ciclo Cultural Cemitérios Porto

© Guilherme Costa Oliveira

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