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setembro 2026
Banco de Materiais
Nunca acumula riqueza, mas faz circular património

Banco de Materiais © Rui Meireles
O Banco de Materiais, projeto municipal pioneiro a nível nacional, promove a salvaguarda dos materiais que ajudam a definir a identidade arquitetónica do Porto. Recolhidos de edifícios degradados, em risco de demolição ou sujeitos a alterações, estes elementos são tratados, preservados e, sempre que possível, devolvidos à cidade para integrarem obras de recuperação e reabilitação urbana.
Apesar de ter começado a funcionar há mais de 30 anos na Casa Tait, enquanto projeto de recolha de materiais, foi em 2010 que abriu ao público no Palacete dos Viscondes de Balsemão com uma reserva visitável. Depois de ter sido alvo de uma remodelação, reabriu, em abril deste ano, convertendo duas salas numa exposição de longa duração.
A Agenda Porto visitou este espaço expositivo do Museu do Porto acompanhada por quem o conhece bem: Maria Augusta Martins, técnica superior do Departamento Municipal de Património Cultural e Arte Pública e curadora desta exposição (juntamente com Rita Roque), que nos diz, em tom de brincadeira, que está ali “há 600 anos”.
Intitulada Fragmentos da Cidade em Conta Corrente, a exposição é constituída por 162 peças divididas por duas salas, uma azul, outra vermelha. “‘Fragmentos’ porque são elementos soltos de um todo que é a cidade, e em ‘conta corrente’, expressão do universo bancário, porque sugere esse constante movimento de entrada e saída de materiais”, explica Maria Augusta. A exposição procura, assim, mostrar ao público o trabalho desenvolvido pelo Banco de Materiais e a circulação permanente destas peças pela cidade.

Maria Augusta Martins © Rui Meireles
Começamos pela Sala Azul, dedicada sobretudo ao estuque, onde estão expostas peças recolhidas de demolições e também moldes provenientes da antiga Oficina de Avelino Ramos Meira, uma das mais prestigiadas do género, que fechou portas em 1999. “Esta oficina foi a última desta arte a encerrar no Porto, e estava localizada na Rua do Rosário, onde também funcionava a sua congénere, a Oficina dos Baganhas.”
Ao centro, destaca-se uma claraboia de 12 gomos em ferro, testemunho de uma época em que estas estruturas levavam luz natural ao coração das habitações burguesas da cidade. “As claraboias, por dentro, são muitas vezes ornadas com elementos estucados”, elucida-nos a curadora. Nesta sala, faz-se também uma alusão ao papel do ferro na arquitetura portuense que, segundo Maria Augusta, “é importantíssimo”, a par do azulejo e do estuque. “O ferro foi utilizado nas pontes Luiz I e D. Maria [Pia] e em grandes edifícios, como o Mercado Ferreira Borges e o grande salão do Palácio da Bolsa, mas também nos pormenores, como nos batentes em forma de mão, conhecidos como mão de Fátima ou mão francesa, nas aldrabas, nas campainhas e nas argolas de manutenção dos edifícios.”

Banco de Materiais © Rui Meireles

Painel em cerâmica de José Rodrigues © Rui Meireles
A visita prossegue na Sala Vermelha, consagrada, essencialmente, ao azulejo, elemento predominante no Banco de Materiais. “É um quadradinho pequeno, com muita diversidade de padrões, fácil de arrumar; nós apresentamo-los aqui na caixa onde os acondicionamos da mesma forma que faríamos na reserva visitável”, diz-nos a nossa guia.
Um expositor percorre seis séculos de história do azulejo em Portugal, a começar por exemplares hispano árabes importados. Segundo a curadora, esta amostragem consiste numa recolha que começou por volta de 1900. “Foi [o etnógrafo e arqueólogo] Rocha Peixoto, conservador do primeiro Museu Municipal do Porto, quem começou a recolher esses elementos na cidade.”
Maria Augusta frisa que “azulejo” tem origem na palavra árabe al-zulaij, que significa “pequena pedra polida decorada”. “Não inventámos o azulejo, mas distinguimo-nos pela sua forma de adequação à arquitetura; os portugueses conseguiram pegar neste elemento e transformar com ele o espaço arquitetónico de forma muito criativa”, defende a coordenadora do Banco de Materiais, vincando que “é essa diversidade que temos espalhada pelo Porto que nos distingue de muitas outras cidades”.
A Sala Vermelha exibe, também, placas toponímicas, telhas de beiral e alguns reclamos como o “Requinte”. Trata-se de um néon que foi recolhido aquando da requalificação do Mercado do Bolhão e que pertencia a uma casa comercial do lado da Rua de Sá da Bandeira. “À época, era um néon muito inovador a nível do lettering e, por ser um monobloco, com um design já muito avançado, achámos interessante darmos este requinte à exposição”, diz, a rir do trocadilho.
Entre as peças mais surpreendentes encontra-se, ainda, um painel em cerâmica de José Rodrigues. Oferecido pelo escultor aos cantoneiros da cidade, é agora apresentado ao público pela primeira vez.
No âmbito da exposição Fragmentos da Cidade em Conta Corrente decorrem, até 2027, duas dezenas de oficinas gratuitas dirigidas a famílias e ao público em geral. “As pessoas gostam muito destas oficinas porque levam o azulejo que criaram”, refere. Este mês, o Banco de Materiais promove três, em parceria com a Oficina Vidra e a BOA – Bombarda Oficina de Artes, nos dias 5, 26 e 27, com uma lotação de 25 pessoas. As inscrições são feitas em museudoporto.pt.
Estas oficinas fazem parte de um conjunto de ações apoiadas pelo Programa Norte 2030 - Rotas do Norte no âmbito da candidatura “Salvaguarda e Valorização do Azulejo no Porto” do Banco de Materiais. O projeto prevê, igualmente, intervenções de conservação e restauro na Capela das Almas, na Igreja de Santo Ildefonso e na Igreja Paroquial de Campanhã.
A exposição no Palacete dos Viscondes de Balsemão, de entrada gratuita, pode ser visitada de terça-feira a domingo, entre as 10h00 e as 17h30. Fora deste espaço expositivo, num grande armazém na Rua do Barão de Forrester, milhares de outras peças permanecem em reserva à espera de voltarem a integrar fachadas, edifícios e ruas do Porto.


Fotografias © Rui Meireles
Museu da Farmácia
Das antigas boticas às grandes descobertas científicas, milhares de peças contam a história da saúde através de diferentes civilizações e épocas

Longe dos circuitos turísticos do centro da cidade, na zona industrial do Porto, damos com um museu onde um mosquito preservado em âmbar há milhares de anos, um microscópio alemão de 1750, um estojo homeopático e uma farmácia trazida de Damasco contam a mesma história: a da luta da humanidade pela saúde.
É este o universo do Museu da Farmácia, instalado no Porto em 2010 pela Associação Nacional das Farmácias, que veio juntar-se ao museu criado em Lisboa em 1996. Mas a história deste projeto principiou muito antes. João Neto, historiador, diretor do Museu da Farmácia e presidente da Associação Portuguesa de Museologia, recorda que tudo começou em 1981, quando constatou que Portugal era “dos poucos países ocidentais que não tinha um projeto para a preservação do património farmacêutico”.
“Começámos a pensar que tínhamos de agir porque, caso contrário, podíamos perder muito do património”, conta. Durante 15 anos, a missão foi reunir peças espalhadas pelo país. “A primeira fase foi de recolha; tínhamos como lema 'uma coleção à procura do museu'." Quando a Associação Nacional das Farmácias mudou de instalações, em Lisboa, reservou um espaço para acolher aquele património e abriu finalmente o museu.
Numa segunda fase, a coleção ultrapassou as fronteiras nacionais. “Andámos pelo mundo inteiro para recolher peças que pudessem ser significativas da história da humanidade ligada à saúde. A base da coleção é sempre a farmácia, mas começámos também a ter peças da história da saúde de outras áreas." O historiador frisa, ainda, que “o conceito da universalidade da saúde” está presente no museu. “Todas as civilizações e as culturas acabam por estar aqui representadas e com peças únicas que podiam estar noutros museus internacionais.”
Hoje, os polos de Lisboa e do Porto reúnem cerca de 16 mil peças. “Um terço encontra-se em Lisboa, outro no Porto e o restante permanece em reserva.”
No Museu da Farmácia, o valor dos objetos não reside apenas na sua raridade ou beleza, mas na história que são capazes de contar. “Não escolho peças porque são bonitas; são parte do puzzle da história da saúde”, defende João Neto.

João Neto


É essa lógica que explica a diversidade do espólio. Um ritão de prata da Pérsia, “taças mágicas” gravadas com orações, a Farmácia Portátil Romanov, uma embalagem de tuberculina de Koch, a primeira pílula a ser comercializada em Portugal, um sarcófago egípcio ou a Farmácia Islâmica, proveniente de Damasco, são disso exemplo.
Entre as vitrinas, João Neto detém-se diante do mais pequeno item da exposição: um mosquito preservado em âmbar. “Representa a luta contra a doença; ainda hoje, o mosquito continua a ser um dos maiores serial killers da história da humanidade.”
É precisamente esta capacidade de fazer falar os objetos que o diretor considera essencial num museu. “Podemos ter boas peças, mas, se não tivermos competências para as pôr a falar, elas podem ser muito valiosas financeiramente, mas nunca valem nada.” Por isso, sublinha, “é importante haver pessoas capazes de fazer mediação cultural”.
É essa filosofia que orienta as visitas temáticas promovidas pelo museu, pensadas para contar, através das peças expostas, alguns dos momentos decisivos da história da saúde.
Atualmente, o polo do Porto promove percursos dedicados aos “5000 anos da História da Saúde e da Farmácia”, aos “Tesouros Arqueológicos no Museu da Farmácia”, à “História da Sexualidade”, à “Cerâmica Farmacêutica”, aos “Animais na Coleção do Museu” ou à “Figura Humana”. Em breve, juntar- se-ão novos temas como “As Cores que Curam”, “A Banda Desenhada nas Coleções do Museu” e “As Boticas e a Medicina Medieval no Tempo de Afonso Henriques”, este último integrado nas comemorações dos 900 anos da fundação de Portugal.
“Temos apostado nas visitas temáticas porque são responsáveis pela captação de novos públicos. O nosso grande desafio tem sido mostrar às pessoas que o Museu da Farmácia não é o museu da caixinha e da garrafinha que conhecem da farmácia lá de casa. Quando as pessoas vêm cá e levam com sete mil anos de história, é aí que percebem que o museu tem outra dimensão.”
Entre as peças do polo do Porto destaca-se a Farmácia Estácio, doada pelos antigos proprietários e originalmente instalada na Rua de Sá da Bandeira. No final da década de 1940, tornou-se um ex-líbris da Baixa do Porto graças à sua invulgar balança falante, que veio a desaparecer num incêndio.
“A pessoa subia para a balança e ouvia uma voz que lhe dizia o peso. Qual era o truque? Um sistema semelhante ao dos submarinos; no piso inferior estava um funcionário com um periscópio que via o visor da balança e, depois, através de um amplificador de som anunciava o peso”, revela o diretor do museu.
O Museu da Farmácia está aberto de segunda-feira a sábado, entre as 10h00 e as 13h00 e as 14h00 e as 18h00 (últimas entradas às 12h30 e às 17h30). Para visitas de grupo é necessária marcação prévia.


Fotografias © Rui Meireles
Casa de São Roque
Uma casa do século XVIII que se tornou num centro de arte contemporânea, sem perder a memória do lugar

Nascida como quinta rural, transformada numa casa “eclética e sofisticada” por Marques da Silva e recuperada, em 2019, para acolher arte contemporânea, a Casa São Roque é hoje um lugar onde património e criação artística convivem sob o mesmo teto. A iniciativa partiu do banqueiro e colecionador de arte Pedro Álvares Ribeiro, que ali mostra a sua coleção e aposta numa programação internacional.
“Esta casa é uma senhora muito exigente, temos de cuidar dela todos os dias”, afirma, com graça, o presidente da Casa São Roque. Construída em 1759, a casa servia como pavilhão de caça onde “a família não chegava sequer a pernoitar”. No século XIX, a propriedade pertencia à família de Maria Virgínia de Castro, “conhecida como ‘a beleza verde’, devido aos seus olhos verdes”, que viria a casar com António Ramos Pinto. Foi o conhecido produtor e exportador de vinho do Porto quem encomendou, na primeira década do século XX, ao arquiteto Marques da Silva a remodelação e expansão da casa, uma intervenção que decorreu “durante 11 anos sem limitações financeiras”, tendo sido utilizados madeiras preciosas do Brasil, estuques dos Meiras (que foram agora recuperados por Luís Baganha) e ferragens vindas de Paris.
Em 1979, a quinta e a casa foram adquiridas pela Câmara Municipal do Porto ao último proprietário, neto de Maria Virgínia e António. A mobília e os objetos mais importantes da casa foram preservados e ainda hoje estão em uso na coleção da Casa do Roseiral. Várias décadas depois, através de um protocolo com o município, Álvares Ribeiro assumiu a recuperação da casa para transformá-la num centro de artes com “uma qualidade única e uma programação marcante”, contribuindo também “para a internacionalização dos artistas portugueses”.
“A casa é um autêntico tesouro e conseguimos recuperar tudo”, afirma, satisfeito, admitindo que chegou a questionar se conseguiria “devolver à casa o esplendor que ela tinha”. Conseguiu, mas foi “um grande desafio” que demorou três anos. Em outubro de 2019, a casa, pintada de amarelo-açafrão, abriu ao público como centro de arte, apresentando desde então exposições de arte contemporânea e eventos culturais.

Pedro Álvares Ribeiro


A Casa São Roque promove, em média, duas a três exposições por ano. Entre as mais marcantes está a exposição Warhol, Pessoas e Coisas, dedicada à obra do artista norte americano Andy Warhol, que reuniu “78 polaroides que foram apresentadas pela primeira vez na Europa”.
Até 4 de outubro há para ver, com curadoria de Anthony Huberman, a exposição It’s a Pink Area, de Marc Kokopeli e Sydney Schrader, artistas sediados em Nova Iorque. No mesmo mês, no dia 24, inaugura uma mostra da Oficina Arara, coletivo do Porto fundado em 2010.
Se a programação dá vida ao espaço, a coleção de arte constitui um dos seus principais pilares. Álvares Ribeiro descreve-a como “uma coleção de artistas”, evocando uma ideia de Nicholas Serota, antigo diretor do Tate Modern: “O coração dos museus é as suas coleções.” “Esse é um ponto forte da Casa São Roque: ter uma coleção que o diretor artístico decide se utiliza ou não”, sustenta.
Com mais de 700 obras, é considerada “uma das grandes coleções de arte contemporânea em Portugal”. Metade pertence a artistas portugueses e a outra metade a internacionais, estando representados apenas 40 artistas. Entre os exemplos apontados encontram-se diversas de obras de Ana Jotta, Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft e Rui Chafes. “É possível acompanharmos o percurso de alguns destes artistas desde há 40 anos até aos dias de hoje.”
“Uma casa do Porto para o Porto e para o mundo”
Se a coleção é um dos pilares da instituição, a ligação ao território é outro. Álvares Ribeiro garante que constitui “uma das grandes prioridades” do projeto. “Esta é uma casa do Porto para o Porto e para o mundo. E temos de ser locais; somos da zona oriental da cidade”, declara. Neste sentido, refere que às segundas-feiras as visitas são gratuitas para as pessoas residentes em Campanhã. “Esta população não tinha efetivamente um centro de arte com uma programação deste tipo e passou a ter.”
Destaque, ainda, para o programa educativo Descobrir com a Arte e a Natureza, desenvolvido em parceria com o Agrupamento de Escolas do Cerco, e para o programa gratuito de curadoria CSR Curating Classes, dirigido a estudantes de todas as escolas artísticas do Porto, orientado pelo diretor artístico Daniel Baumann.
Importa ainda falar do jardim da Casa São Roque, desenhado pelo histórico jardineiro do Porto Jacinto de Matos. “Este é dos poucos jardins que se mantém como era há 100 anos: um jardim romântico com camélias centenárias no centro, que de novembro a abril estão em flor e é uma autêntica sinfonia de cor”, descreve Álvares Ribeiro. Entre elas, destaca-se a camélia Augusto Leal de Gouveia e Pinto, com 125 anos, “considerada uma das 200 flores mais bonitas do mundo” pela Royal Horticultural Society.
Além das exposições de arte, a programação inclui concertos de jazz no jardim, “fruto de uma parceria com a ESMAE”, apresentações de livros e visitas guiadas às camélias com Armando Oliveira e António Assunção, “dois grandes especialistas”.
As visitas às exposições terminam na antiga cozinha da casa, transformada numa cafetaria repleta de livros de arte à disposição dos visitantes e onde é servido um vinho verde acompanhado de amêndoas.
Na primeira segunda-feira de cada mês, a entrada na Casa São Roque é gratuita para os residentes em Portugal. O horário de visita é das 12h00 às 18h00. Encerra às terças-feiras.


Fotografias © Guilherme Costa Oliveira
Casa-Museu Fernando de Castro
Uma coleção surreal — sem ser surrealista

Quem passa pelo número 716 da Rua de Costa Cabral não imagina que ali, por trás da fachada discreta daquele prédio de habitação burguês, existe um tesouro à espera de ser descoberto: trata-se da incrível coleção de arte de Fernando de Castro. E não é ao acaso que usamos o adjetivo “incrível” — é que depois de lá entrarmos, ocorre-nos citar a escritora Natália Correia: “creio no incrível”.
Poeta, pintor, caricaturista e, sobretudo, colecionador, Fernando de Castro (1888–1946) transformou a sua casa numa espécie de museu surreal (sem ser surrealista), onde convivem talha dourada, arte sacra, pinturas naturalistas, peças das Caldas da Rainha e inúmeros objetos reunidos ao sabor do seu gosto pessoal. Há uma certa veia teatral e um traço autoral em Fernando de Castro, que parece ter levado a cabo ali um trabalho de cenografia.
“Esta é uma casa-museu sui generis, montada ao gosto do seu colecionador”, começa por dizer-nos a nossa guia. “Ele colecionava tudo o que lhe agradava, quer fosse arte ou não.”
A visita tem início na antiga sala de estar e de leitura, a Sala Minhota, assim denominada por se constatar, nas peças dispostas, uma forte presença desta região através de elementos como os Corações de Viana. Logo ali percebemos que Fernando de Castro não era apenas colecionador; era, também, inventor. Muitas das peças foram desenhadas por si e executadas por habilidosos marceneiros, como uma estante inspirada numa canga de bois ou uma moldura para a fotografia dos pais que é, afinal, a cabeceira de uma cama.
Praticamente toda a casa é revestida com talha dourada, ao estilo barroco, proveniente de igrejas e conventos extintos após a implantação da República, património que Fernando fez questão de recuperar.
Na sala de jantar, concebida como o interior de uma capela, uma cancela trabalhada “é uma cópia fidedigna de uma existente na Igreja de São Francisco”. “Viu, gostou, copiou e mandou construir”, afirma Anabela Ribeirinha, assistente técnica do Museu Nacional Soares dos Reis. A nossa guia acrescenta que “uma característica das casas-museus é haver sempre uma mesa posta na sala de jantar”, mas que isso não acontece ali porque Maria da Luz, irmã de Fernando, levou consigo os objetos que “evidenciavam a vivência familiar, que mostravam que foi uma casa de habitação”.

Anabela Ribeirinha


Subimos para o primeiro andar e deparamo-nos com a Sala Dourada, uma divisão mais ampla e luminosa, onde a talha é mais vibrante. Trata-se de uma espécie de sala de baile, “inspirada no Palácio de Versalhes e no Palácio de Queluz”, e que se distingue das restantes divisões pela quantidade de espelhos que a reveste e também pela inexistência de imagens religiosas.
As escadas para o último piso são uma antecâmara de espanto, onde a talha dourada se torna mais escura e pesada, parecendo esmagar os visitantes. Há um púlpito sem acesso, sendo que o único ponto luminoso é um vitral colorido no tecto.
No antigo escritório de Fernando encontram-se expostos dois dos seus seis livros, Meteoro e Altar sem Culto. Segundo a coordenadora da casa museu, Ana Mântua, ainda será possível encontrar “algumas edições perdidas” em alfarrabistas. Ao lado, na Sala Azul, surgem objetos orientais que contrastam com o imaginário sacro dominante.
A única divisão onde impera a contenção é o antigo quarto da irmã, Maria da Luz. Neste espaço, as paredes brancas estão agora cobertas de caricaturas da autoria de Fernando, pequenas sátiras visuais que revelam o seu humor fino e o gosto por trocadilhos: gostava de associar nomes de pessoas a lugares do país. No quarto de cama, encontramos objetos que condensam o espírito irreverente e brincalhão de Fernando, como duas faianças das Caldas da Rainha, escondidas na mesa de cabeceira: o penico John Bull e o escarrador em cerâmica da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro.
A escassez de fontes documentais continua a envolver Fernando de Castro numa aura de mistério. “Não há muito que se saiba da vida dele”, afirma a guia. “A sua irmã, após a sua morte, foi viver para a casa em frente e levou consigo a documentação que poderia ajudar a descobrir a origem da coleção.”
Sabe-se que herdou a casa e o negócio do pai e que, a partir de 1918, se dedicou intensamente à coleção que ocuparia toda a habitação. Em 1944, abriu-a excecionalmente ao público e, dois anos depois, morreu sem deixar testamento. Coube à irmã concretizar a sua vontade de transformar a casa em museu e, em 1952, o edifício foi doado ao Museu Nacional Soares dos Reis.
Para visitar a Casa-Museu Fernando de Castro é necessário efetuar marcação prévia através do site do Museu Nacional Soares dos Reis, sujeita a confirmação de disponibilidade. As visitas de grupo têm um máximo de 10 participantes.

Escarrador em cerâmica de Bordalo Pinheiro

Fotografias © Renato Cruz Santos
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