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Rubrica

Fevereiro 2026
Em fevereiro, habitual mês do Carnaval, ela é a rainha da festa: a Batucada Radical sai às ruas do Porto para cruzar culturas, gerações e influências, num encontro que se tornou hábito no calendário da cidade. No ano em que o grupo, inicialmente chamado de “Dança e Balança”, celebra 32 anos, fomos conhecer a autoapelidada “família amarela”, composta por 120 elementos que tem apenas um lema na vida: levar “Música a Todos”.
Quando nasceu, a meio do século passado, Jorge dos Santos Porto Gomes não fazia ideia de que, no nome, trazia já parte do destino traçado. Não sabia que ali estava já uma paixão que, mais tarde, viria a despontar, a ganhar forma(s), cor(es) e palavra(s). Porque “Porto” era, então, apenas um dos nomes de família, uma parte da identidade, sangue do seu sangue, o abraço quente do pai e o sorriso acolhedor da mãe. Cresceu a assinar um “Porto” que apenas conhecia de nome, que assumia ser seu sempre que o chamavam: “Jorge – dos – Santos – Porto – Gomes”.
Quando, em 1994, chegou a Portugal, vindo do outro lado do Atlântico, e depois de uma vida dedicada à música no Rio de Janeiro, a primeira escolha não recaiu na cidade que trazia consigo. Começou por instalar-se em Albufeira, no Algarve, com o grupo outrora chamado de “Dança e Balança”, onde teve a oportunidade de atuar noutros carnavais, como o de Loulé. Mas o destino esteve sempre ali e três anos mais tarde, de malas e bagagens (cheias de instrumentos de percussão!), rumou ao Porto. “Em 1997 chego a esta cidade e aqui sinto que foi onde tudo começou”. Foi este também o ano da (re)criação da Batucada Radical, grupo de percussão underground que seguiu a linha musical do núcleo anterior, que procurava animar as ruas, na altura, “com apenas 10 a 12 pessoas”.
Hoje, quase 30 anos passados desde essa mudança, Jorge dos Santos Porto Gomes é, simplesmente, “Mestre Porto”. O maestro de uma grande família que transforma gerações, um homem que transporta a alegria por onde passa no entusiasmo em tudo o que se envolve. Jorge não é hoje conhecido somente pelo nome próprio por culpa, curiosamente, de outro homónimo: de Jorge Prendas, coordenador do Serviço Educativo da Casa da Música, que, num aniversário, o apelidou de “Mestre Porto”. “E assim ficou, até hoje”, sorri.

© Sofia Hügens
Músicos de todas as idades
No final de tarde de uma segunda-feira, quando o trânsito faz o movimento diário de regresso a casa e as janelas deixam antever um movimento crescente no interior, por entre as luzes baixas de um dia quase a terminar, o Centro Comercial STOP, situado no cruzamento da Rua do Heroísmo com a Rua de Rodrigues de Freitas, vê aumentar o fluxo de pessoas. Do interior, ouvem-se vozes que se misturam com batidas fortes, gargalhas que se elevam no ar, dando ainda mais vida aos corredores do histórico espaço. É hora de mais um ensaio da Batucada Radical, com atenções voltadas para o desfile de Carnaval, que sai para a rua a 15 de fevereiro, a meio da tarde, sempre com um olhar atento sobre a cidade do Porto. Na sala que adquiriram “há um ano” neste local (“sim, é nossa!”, ouvimos dizer), juntam-se cerca de cinco a seis dezenas de participantes, com os instrumentos prontos para as ordens do mestre batuqueiro.
“Hoje somos 120 elementos, mas o núcleo duro é composto por 30 a 40 elementos, que nunca falham”, revela-nos Mestre Porto. Um deles é Gabriela Paiva, brasileira de 42 anos, “metade deles passados na Batucada”. Entrou no grupo em 2003, por influência da família. “Os meus pais são músicos e quando vi a Batucada pela primeira vez fiquei apaixonada e entrei no dia seguinte.” Encontrou aqui uma “família” que não olha a cores ou credos – a não ser o amarelo, que se tornou a sua imagem de marca. “Este grupo representa a plena integração, onde os imigrantes são bem acolhidos, os portugueses conhecem outras culturas e todos aprendem com novas formas de ver o mundo”, destaca.
Gabriela é ainda responsável pela Batucada Mirim, um grupo formado pelos elementos mais novos, que era já um sonho antigo. “Conseguimos ter uma turma boa, com várias apresentações. A entrega dos mais novos tem sido incrível, são verdadeiros profissionais, apesar de muito novos”, assegura. Aliás, a prova de que esta é também uma extensão da verdadeira família é que os filhos de Gabriela, de 8 e 18 anos, também fazem parte da Batucada Radical. “É uma verdadeira terapia para todos. No final de um dia de trabalho complicado conseguimos vir para aqui e ‘descontar’ as nossas frustrações no tambor”, ri Gabriela. E ele não se queixa.

Gabriela Paiva © Sofia Hügens
Projeto com preocupação social e cultural
No meio destes 120 elementos que fazem parte da Batucada Radical, podemos encontrar muitos brasileiros e portugueses, é certo, mas também muitas outras nacionalidades, como venezuelanos, chilenos, espanhóis. Todos com idades entre os 5 e os 85 anos. “A nossa máxima é ‘Música para Todos’. Aqui a idade não importa”, sorri Mestre Porto.

Irene Freitas © Sofia Hügens
Irene Freitas tem 50 anos e é a prova de que nunca é tarde para começar uma aventura que, aparentemente, parece não ser talhada para qualquer um. Trabalha na área da ação social e comunitária em Vila d’Este, bairro localizado em Vila Nova de Gaia, onde o grupo desenvolve um projeto há vários anos. “Conhecia a Batucada e lembrei-me de falar com eles, em 2018, para ver se as crianças com quem trabalhava podiam ter aulas de percussão”. A resposta foi positiva e rapidamente “começaram a vir, integraram este projeto e quando dei conta, também eu já fazia parte”, sorri, de forma tímida.
Já lá vão quase oito anos de “plena integração num projeto intergeracional” que, admite Irene, lhe deu “amizades, muito carinho” e a faz lembrar, todos os dias, “da importância do respeito pela sociedade, pelas diferenças e pelas tradições”, resume.
Aliás, a Batucada Radical tem feito do apoio social e cultural uma das suas bandeiras, com um trabalho desenvolvido em bairros e comunidades mais desfavorecidas – “mostrando que há sempre outras saídas para os mais novos!” –, e um importante contributo para a classe artística durante a pandemia. “Durante aqueles anos em que quase tudo parou, acabámos por nos reinventar. A Batucada transformou-se, começámos a construir e a doar cabazes aos artistas. Aliás, é algo que não divulgamos muito, mas ainda hoje continuamos a fazer, anualmente, um ‘Natal Solidário’, onde contribuímos, de alguma forma, para uma época mais feliz junto daqueles que mais necessitam”, esclarece Mestre Porto.

© Sofia Hügens
Associação do Porto com sonhos
Para que não restem dúvidas, a Batucada Radical pode ter muito de Brasil na sua essência, nas suas referências e apresentações, mas é uma associação portuense. “Foi formalizada em 2011 e é maioritariamente composta, atualmente, por portugueses na direção”. Helena Fernandes, de 50 anos, é a atual presidente do grupo, mas já faz parte do movimento cultural há 20 anos. Filha de pai ilusionista (nas horas vagas), oriunda de uma família que fazia teatro e tendo feito parte de um coro, dificilmente não cairia na tentação de pedir para fazer parte da Batucada Radical.
“Sempre quis fugir daquela rotina ‘trabalho-casa’, porque depois o trabalho acaba e a vida fica só ali. Aqui encontrei um lugar onde me sinto bem, uma segunda família”, acrescenta Helena. “Uma verdadeira alegria de viver”, atira.

Helena Fernandes © Sofia Hügens
Ao longo dos anos, a cidade abraçou (literalmente) o grupo, juntando-se às diferentes atuações, com enchentes assinaláveis e de encher de orgulho todos os elementos deste coletivo. É o caso do Desfile de São João, com milhares a seguirem a arruada depois do fogo-de-artifício; do Dia do Brasil, que organizam desde 2003; e do Outubro Rosa, evento solidário de consciencialização para a necessidade do diagnóstico e prevenção do cancro da mama.
Hoje, poucos serão aqueles que nunca ouviram falar da Batucada Radical. Mas o sonho de Helena Fernandes, além de poder aumentar o número de elementos e, quiçá, encontrar um novo espaço com maior capacidade, é o de que, “um dia, a Batucada seja uma das três ou quatro instituições de referência da cidade do Porto”, ri. Que todos olhem para a Batucada Radical como a grande “família amarela” da qual podem fazer parte.

© Sofia Hügens
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