EN

Janeiro 2026
A atleta é campeã nacional de um desporto que, até há uns anos, não era para “meninas”. Hoje, o boxe é uma modalidade praticada por todos e a atleta é a prova viva desta afirmação sem barreiras de género: conseguiu o título nacional na categoria de -54kg, em 2025. É também uma das atletas apoiadas pelo Programa de Patrocínio a Atletas de Alto Rendimento e de Elevado Potencial Desportivo da Câmara Municipal do Porto.
Quando, num almoço de família, alguém lhe atirou (quase literalmente) a ideia para o prato, pensou que isso não era para si. “Eu, a praticar boxe? É que nem pensar!”. Todos riram com a resposta – até mesmo com essa possibilidade, “mas onde é que já se viu uma menina a praticar um desporto de combate?”. O almoço seguiu normalmente. Mas a ideia, “absurda, disparatada”, ali ficou,
numa cabeça em busca de novos desafios. Criou raízes, começou a germinar, a crescer. Foram duas semanas a pensar nisso, a de praticar um desporto individual que nunca lhe passou, sequer, pelos sonhos.
Duas semanas bastaram para que, “sem vergonha”, se colocasse à porta do Boavista Futebol Clube. Sozinha, sem conhecer ninguém, levava apenas uma frase pronta para dizer a quem aparecesse: “Olá, sou a Sofia, tenho 16 anos e quero experimentar boxe”.
Hoje, onze anos depois, Sofia Douteiro Resende é campeã nacional de boxe na categoria de -54kg. Na memória guarda ainda esse primeiro dia em que entrou no clube e encontrou uma sala cheia de homens. “Não havia nenhuma rapariga”, recorda a atleta. Ainda arrastou uma amiga para os treinos, para não ser “a única menina ali”. Mas rapidamente encontrou o espaço (físico e mental) que procurava.
O boxe trouxe-lhe aventura depois de ter passado pela dança, pelo voleibol e por experiências “menos felizes” em ginásios convencionais. Foi precisamente naquele local que o chamado “bichinho” do desporto começou a despontar ainda mais, onde aprendeu a importância de competir, a satisfação que se sente quando se vence e a importância de saber entender uma derrota.

Sofia Douteiro Resende © DR
Um atleta constrói-se com as vitórias, mas cresce, essencialmente, com as derrotas. Esta verdade lapalassiana diz, aliás, muito pouco a quem, dia a dia, entra dentro do ringue, num recinto desportivo, à procura de mais e melhor. E esse “mais e melhor” é, essencialmente, a(s) vitória(s). Uma após outra. Mas, para Sofia, esta “verdade” acabou por fazer sentido, a mais de três mil
quilómetros de distância. “O meu primeiro grande combate foi na Suécia, num torneio internacional de boxe com mais de 500 atletas. Fiquei assustada quando cheguei. Tinha 25 anos e via miúdas de 14 anos a competir, um espaço muito grande. Ali tive consciência de que somos mesmo uma migalha no meio de tudo”, assume a atleta.
Perdeu o combate. Mas quando olha para trás, confessa que foi dali que trouxe, afinal, a maior vitória. “Sempre tive dúvidas sobre mim e o meu desempenho. Mas dali consegui trazer o mais importante: um reforço na minha confiança. Quando, duas semanas depois, participei noutro combate, tinha mais certezas de que ia ganhar”. E acabou mesmo por ganhar. Foi em fevereiro de 2024, no Open Box de Marvila, no Torneio Internacional de Lisboa.
Porque quando se ganha, assume a atleta, é como se existisse “um sentimento de recompensa, um motivo válido para todos os sacrifícios que fazemos, como o processo de treinos e o da perda de peso. Não é fácil, mas todo o esforço que fiz é recompensado quando, no ringue, sobem o meu braço e percebo que venci o combate”, destaca.

Sofia Douteiro Resende © DR
Atualmente, é atleta do Crosspunch, um emblema que diz ser “muito mais do que um ginásio”: é uma “casa” onde o boxe tem feito caminho e conquistado títulos. “Ali encontrei pessoas a competir, dos 16 aos 39 anos, o que mostra que não é a idade que vai definir se vais competir ou não, mas a força de vontade”, refere Sofia.
Entre treinos diários e alimentação feita com peso e medida, sabe que o segredo passa pelas pessoas que a rodeiam: do treinador ao nutricionista, dos colegas aos pais que, hoje, são os seus maiores fãs. “A minha mãe foi a mais difícil de convencer. Foi uma luta para ela aceitar esta minha decisão. Mas, agora, admira a minha força de vontade e tudo o que isso implica no meu dia a dia”, acrescenta.
Mesmo quando vê a filha chegar a casa com nódoas negras, um olho negro ou um osso partido. “Quando se faz o que se gosta os sacrifícios valem sempre a pena, dói, mas amanhã passa”, sorri. “O importante é continuar a acreditar e fazermos o que gostamos. Quando assim é, vai tudo dar certo”, conclui.
Sofia Douteiro Resende é a primeira convidada da terceira temporada do podcast “Porto de Alta Competição” a ser lançada em janeiro. Este é um projeto da Ágora – Cultura e Desporto do Porto que dá voz aos atletas apoiados pelo Programa de Patrocínio a Atletas de Alto Rendimento e de Elevado Potencial Desportivo.
Share
FB
X
WA
LINK
Relacionados