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Rubrica

Se esta reportagem tivesse sido feita em 2023, o início seria, seguramente, muito diferente: diria que Matilde Santos, uma jovem estudante de Psicologia com 22 anos, nunca se interessou por desporto, não entendia qual a vantagem de ir ao ginásio com regularidade e nunca se imaginaria a fazer qualquer tipo de exercício que obrigasse a um esforço físico acima daquilo que era suposto. Se lhe perguntássemos ainda onde estaria dentro de três anos, seguramente diria que estaria a dar consultas, teria um consultório seu ou, quem sabe, arriscaria continuar os estudos noutra área ou até noutro país.
Isto se este texto fosse escrito em 2023. Mas hoje, em 2026, a história é diferente: Matilde Santos, licenciada em Psicologia, tem 25 anos, é atleta amadora “com muito gosto”, começou a correr (“aos poucos”) em 2023, criou um clube de corrida que já partilha com centenas de outros atletas (amadores e federados), e completou já sete meias-maratonas.
“Sempre fui aquela pessoa que ia para ginásios, mas saía ao fim de um mês, porque não entendia o que estava ali a fazer. Um dia, apanhei no Tik Tok um vídeo sobre como fazer uma meia-maratona e pensei ‘bem, é isto que me vai desafiar, para me ocupar o tempo'”. Matilde Santos (ou Mia Santos, nome pelo qual é mais conhecida) estava em 2023 num processo “aborrecido” de transição entre o fim da faculdade e a entrada no mercado profissional. Perante todas as questões que surgem nesse momento, impôs-se aquela que é mais importante: e agora, o que fazer da vida?
“Depois de ver aquele vídeo, algo se transformou. Comecei a correr. Fiz o primeiro quilómetro e pensei: ‘ok, agora é só ir adicionando quilómetros até chegar aos 21 [quilómetros]'”, uma meta que traçou para si. Dos zero aos 10 quilómetros foi muito rápido, “um mês e meio, mais ou menos”.

© Guilherme Costa Oliveira
Os primeiros passos do clube de corrida
Foi a partir desta experiência vencedora que decidiu criar um clube de corrida, um conceito que estava a nascer nesse ano, e com muita curiosidade associada. Sem expectativas, lançou o seu run club, numa lógica de passa a palavra entre amigos. Na primeira corrida, sem esperar, “apareceram três pessoas que não conhecia”. O vídeo dessa primeira corrida, partilhado nas redes sociais, teve cerca de 40 mil visualizações. Estava dado o mote para o que se seguiu.
“Fazíamos corridas com regularidade, apareciam cerca de dez, 20 pessoas. Eu não era muito boa a correr, interessava-me mais o momento de convívio, de praticar desporto com outras pessoas”, revela Matilde. A ideia, admite, era criar uma comunidade à volta da corrida, de forma despretensiosa, sem vencedores nem vencidos, onde o momento de partilha de experiências era tão importante como aquele em que se faziam à estrada.
O grupo foi crescendo, ganhou nome – Porto Can Run Club - e, com ele, a vontade de se desafiar ainda mais. “Em 2024, fiz a minha primeira meia-maratona. Fui sozinha, porque não conhecia ninguém que praticasse e adorei a emoção. Pensei ‘é isto que quero fazer’”, conta.
Hoje, tem já sete meias-maratonas completas, o que perfaz, no total, 147 quilómetros de provas oficiais. Isto sem contar com as centenas e centenas (quiçá milhares) de quilómetros que o run club tem permitido acumular, todas as semanas.

© Guilherme Costa Oliveira

© Guilherme Costa Oliveira
As corridas para veteranos e amadores
O Porto Can Run Club é hoje, inegavelmente, um dos clubes com mais seguidores (físicos e virtuais) na cidade. Alia a corrida semanal – com cerca de 250 participantes por sessão – com momentos de descontração. Privilegia o traçado mais plano, para permitir a fruição de percursos mais longos e com menos dificuldades. É por isso que três das quatro corridas mensais acontecem entre as zonas de Matosinhos e da Foz, “porque é mais acessível e mais fácil de correr”. Sem esquecer o cenário natural que as envolve.
Todas as segundas-feiras, na página de Instagram do clube, é anunciado o percurso do sábado seguinte. Não é preciso inscrição, basta aparecer, no local e à hora marcada.
O segredo deste sucesso em três anos de existência pode estar na identificação que todos sentem enquanto atletas amadores. “Aqui não existe um melhor do que o outro. Aqui quase todos começámos da mesma forma, pela curiosidade, pela prática informal. Eu sempre achei que já era tarde para praticar desporto, porque parece que o desporto só faz sentido quando se fala de atletas. Fala-se pouco do desporto amador e há muita gente que quer praticar desporto para se sentir melhor. O facto de levar o desporto de uma forma descontraída aproximou ainda mais pessoas e ajudou-as a entrar num mundo que, se calhar, desconheciam”, admite Matilde.
Evento no Parque Desportivo de Ramalde
A 11 de julho, logo pela fresca, será dado mais um passo na afirmação do clube de corrida. O Parque Desportivo de Ramalde é o palco escolhido para a primeira edição do Run Club Games, uma competição de estafetas em versão 4x400m na pista de atletismo, disputada nas categorias de masculinos, femininos e mistos, com entrada livre. “Convidámos cinco outros run clubs para se juntarem as nós, de Lisboa, Braga, Guimarães e Porto”, além das marcas que se quiseram associar à competição, por se identificarem com este estilo de vida.
Mas o evento surge, ainda, como resposta a uma falha que Matilde admite encontrar recorrentemente. “Não há muita gente a apoiar o desporto de corrida. Quando fazemos maratonas ou provas lá fora, vemos muita gente na rua a apoiar. No entanto, esse espírito não existe, aqui. Sabemos que o desporto junta as pessoas, e o futebol é o melhor exemplo disso, e queremos fazer o mesmo com a corrida. Que as pessoas venham ver os run clubs a correr em Ramalde e, depois, possam conviver com eles e com os muitos parceiros que vamos ter connosco”, revela.
Para isso, há uma bancada disponível onde cabem, seguramente, mais de mil pessoas. Ver pode ser, afinal, tão emocionante como estar dentro da pista. “Porque é tão importante fazer desporto como sair de casa e viver este espírito de comunidade. Num tempo em que os mais novos se isolam tanto, queremos combater esse sentimento”, acrescenta.

© Guilherme Costa Oliveira
Objetivos de futuro
Quando um projeto cresce com este impacto mediático e se transforma na rotina semanal de centenas de pessoas, é difícil não pensar nos próximos passos que o Porto Can Run Club quer dar. “Um objetivo? Acho que vou dar uma resposta muito à la 25 anos, ok? Não tenho”, diz, entre sorrisos.
“No fundo, o que quero é que a minha voz seja ouvida e sirva para quebrar algumas barreiras, e que possa realmente fazer a diferença na vida das pessoas.” Pausa no discurso. “Ok, se tivesse de dizer um objetivo, acho que é conseguir mudar as coisas para melhor, com base no que as pessoas querem. E que isto seja também um ponto de transformação.”
Para que tal aconteça, basta querer. O desígnio está no nome do seu clube, desde o início. “Surgiu por acaso, porque a nossa imagem era uma lata a correr, ‘can’. Foi tipo, ‘can’, ‘lata’, ‘can’, o verbo ‘poder’. ‘Tu podes’. Foi uma feliz coincidência”, termina.
Porto Can Run Club. Yes, we can!
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