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O mundo às avessas de Manuel António Pina invade o Teatro Nacional São João
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A primeira produção própria de 2026 do TNSJ estreia esta quinta-feira, 12 de março, e marca também um novo capítulo na programação da instituição. "Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem", dirigido por Victor Hugo Pontes, parte da obra do escritor portuense para construir um universo cénico onde teatro, dança e música se cruzam.
O mundo às avessas de Manuel António Pina invade o TNSJ

© José Caldeira/TNSJ

Em cena até 12 de abril (com interrupção no fim de semana da Páscoa), esta criação convoca textos de diferentes fases e géneros da obra de Pina — da poesia às crónicas, passando pelo teatro para a infância e juventude — para compor um espetáculo quase-musical que celebra o seu imaginário lúdico e subversivo. A música original é assinada por A Garota Não, que aqui se estreia no mundo das artes performativas.

Um mergulho vertiginoso no universo de Pina


Ainda antes de assumir as funções de diretor artístico do TNSJ, em setembro de 2025, Victor Hugo Pontes foi desafiado pelo conselho de administração da instituição a dirigir uma peça para a infância e juventude a partir da obra de Manuel António Pina (1943-2012). “Fui convidado para dirigir a primeira produção própria do ano, para imergir no universo de Pina, inicialmente nos textos para a infância e a juventude, mas rapidamente percebemos que não podíamos ficar restritos a essas palavras e que tínhamos de abrir para as outras palavras das crónicas, da poesia e mesmo das entrevistas que deu", conta, no final de um ensaio de imprensa.


Essa imersão na obra do autor, que Victor Hugo ainda não conhecia profundamente, revelou um território literário difícil de delimitar. “Foi mesmo mergulhar no universo do Pina, com a vertigem que isso provoca — olhar para baixo e ver o céu em vez do chão”, descreve. “Ele não tem propriamente um género definido; vai deambulando entre poesia, crónica e teatro.”



A dramaturgia começou com uma ampla seleção de textos que foram sendo experimentados em ensaio. “Fui partilhando essa seleção com os intérpretes e ouvindo-os dizer as palavras. Percebia quais faziam sentido manter e quais não.” Como fio condutor, o diretor artístico escolheu História do sábio fechado na sua biblioteca, narrativa dramática escrita originalmente para a Pé de Vento, a partir da qual outros textos se entrelaçam. “Fomos construindo esta colagem com o Jacinto Lucas Pires [que também assina a dramaturgia] e com os atores.”


O mundo às avessas de Manuel António Pina invade o TNSJ

© José Caldeira/TNSJ

"Convidei A Garota Não porque o seu universo podia dialogar muito bem com as palavras do Manuel António Pina. Foi muito fácil, exatamente porque houve essa identificação. Há um trabalho político na obra de Pina que, de certa forma, comunga muito bem com a música de A Garota Não."


O mundo às avessas de Manuel António Pina invade o TNSJ

© José Caldeira/TNSJ

A música como eixo do espetáculo


Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem é musicado por A Garota Não, que aqui faz a sua estreia no universo das artes performativas, a convite de Victor Hugo. "Os textos para a infância e a juventude de Pina já têm em si canções e achei que A Garota Não seria a pessoa ideal para musicá-las", conta. "Foi um processo muito natural, em que também lhe dei bastante liberdade para escolher que materiais é que tinha mais vontade de musicar, seja os poemas ou até as crónicas. Ela também foi sugerindo músicas, e foi uma construção muito orgânica", assegura, acrescentando que a cantautora criou "muito mais material do que aquele que está no espetáculo".


"Há letras dela que são inspiradas em crónicas e em entrevistas que o Manuel António Pina deu, e há outras que são mesmo só musicadas de poemas, ou mesmo canções que estavam escritas, mas que não tinham música."


No sábado, 14 de março, A Garota Não dará um concerto acústico especial no interior da cenografia de Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem, em que vai cantar as canções que escreveu para o espetáculo e outras composições dos seus três discos.

O mundo às avessas de Manuel António Pina invade o TNSJ

© José Caldeira/TNSJ

Virar o mundo de dentro para fora
e ver se o mundo assim melhora
e se nem assim o mundo melhorar
voltá-lo a virar, a virar, a virar.


Tantas voltas o mundo há de dar

que alguma coisa se há de aproveitar.

E se o outro lado pode ser pior

também pode muito bem ser melhor!

Canção Vira do Mundo, música de A Garota Não, versos de O Maior Intelectual do Mundo, de Manuel António Pina.

O mundo às avessas de Manuel António Pina invade o TNSJ

© José Caldeira/TNSJ

"A beleza na falha"


Segundo Victor Hugo Pontes, a poesia de Manuel António Pina encontra-se muitas vezes na imperfeição. "O Pina encontra poesia na falha, no erro. Ele dizia que se passasse na rua e visse uma placa com ‘almoço’ escrito com dois 's', aquilo já era poesia.” Essa mesma lógica atravessa o trabalho físico dos intérpretes neste espetáculo. “Na forma como os corpos se ligam e dominam o movimento também existe essa qualidade poética.”



O elenco de Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem foi escolhido, precisamente, pela capacidade de circular entre diferentes linguagens performativas. “Queria trabalhar com pessoas que dominassem pelo menos duas linguagens: dança, interpretação ou canto.” O resultado é um grupo com percursos distintos — alguns vindos da dança, outros do teatro ou da música — que se complementam em cena.

 

Victor Hugo Pontes conta com o elenco residente do TNSJ, que este ano tem dois novos intérpretes, Ana Afonso Lourenço e Marco Olival. Com Joana Carvalho, Patrícia Queirós, Pedro Almendra e Pedro Frias, compõem o atual leque de atores da casa. A interpretação do espetáculo conta, ainda, com Jorge Mota, Catarina Carvalho Gomes, Daniel Teixeira Pinto, José Santos e Siobhan Fernandes, que, à exceção do primeiro, foram selecionados em audições públicas.

Quanto ao que espera provocar no público com este espetáculo para crianças e adultos, Victor Hugo Pontes responde que gostaria que os espectadores saíssem com a sensação de que é possível olhar para o mundo de outro ângulo. “Se pensarem que podemos pensar de outra forma ou colocar-nos noutro lugar, já é um bom começo”, afirma. "Acima de tudo, como o Manuel António Pina escreveu, 'o teatro, julgo eu, ou julgo que julgo, só visto, contado, ninguém acredita'. Portanto, eu quero primeiro que as pessoas venham ver, para depois poderem contar — ou tentar contar", conclui.

 

Ao longo da carreira do espetáculo, além do concerto de A Garota Não, o TNSJ promove ainda um conjunto de atividades paralelas dedicadas ao universo do autor, nomeadamente uma conversa e dois filmes.  A 21 de março, Estão todos a ver onde o autor quer chegar?: Uma Conversa junta Rui Lage, Osvaldo Manuel Silvestre, Patrícia Queirós, Rosa Maria Martelo e João Luiz para conversar sobre literatura. A 28 de março, a Sala Ricardo Pais projeta As Casas Não Morrem (2014), uma longa-metragem de Inês Fonseca Santos (60’’), e Um sítio onde pousar a cabeça (2011), uma curta-metragem de Alberto Serra e Ricardo Espírito Santo (14’’).

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© José Caldeira/TNSJ

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