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Rubrica

A pop geracional de Rita Rocha vai levar o Coliseu “do 8 ao 80”
Interviews
Conversámos com a jovem cantautora antes da sua estreia na mítica sala da cidade
Mar26 Entrevista Rita Rocha

março 2026

Começou a perder a vergonha de cantar no Coral dos Pequenos Cantores da Maia, foi finalista da segunda edição portuguesa do The Voice Kids (2021) e tirou as primeiras canções da gaveta graças ao encorajamento da mentora, Carolina Deslandes.

 

Rita Rocha, de 19 anos, tem-se afirmado como uma das revelações da pop nacional, e já pisou os palcos de festivais como o Meo Marés e o Festival F e de conceituadas salas como o Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e o Capitólio, em Lisboa. Paralelamente, tem somado colaborações com artistas como Bárbara Tinoco, Carolina Deslandes ou Pedro Abrunhosa.

 

A sua ainda curta, mas sólida trajetória culminou na gravação do primeiro disco de originais, 8 ou 80, lançado em duas partes, em junho de 2025 e fevereiro passado, respetivamente. A 20 de março, tornar-se-á uma das mais jovens artistas a atuar no Coliseu do Porto em nome próprio.

Acabas de lançar a segunda parte do teu disco de estreia. Em que é que se aproxima e distancia da primeira?

Eu sinto que o 8 é uma fase muito mais introspetiva da minha vida, quer em termos de letras, quer em termos das melodias. Eu não gosto de dizer triste, mas melancólica. E o 80 é uma parte muito mais confiante, muito mais dona de mim. Também tem umas baladinhas, porque eu não abdico delas (risos).  Mas, de forma geral, é uma parte com muito mais "power". Eu quis mesmo fazer esse contraste. Porém, também se assemelham um bocadinho, principalmente no que toca à temática. Como este disco fala sobre o que foi a minha vida durante um ano, está tudo meio interligado. O que muda é a escrita.


Depois de Carolina Deslandes, Bárbara Tinoco, Pedro Abrunhosa, colaboras agora com Diogo Piçarra na canção “Um do outro”. Como surgiu a ideia para este tema?

Eu sentia que faltava uma voz masculina no disco e não estava a perceber quem. Entretanto, o Diogo seguia-me no Instagram e eu pensei: deixa-me tentar a minha sorte, o máximo que eu posso ouvir é um não. Já o tinha conhecido, ele era cinco estrelas e mandei-lhe uma mensagem. E ele foi disse-me logo: é um prazer fazer parte [do disco]. Eu e o [Diogo] Seis, o produtor executivo do disco, fomos logo a casa dele ter uma sessão e tivemos uma empatia gigante.


Como é que a tua forma de escrever tem mudado desde que começaste?

Não foi algo intencional, foi acontecendo pelo trabalho. Eu faço muitas canções, sempre fui maluca por escrever e por trabalhar, e isso nota-se no processo do disco. Fiz 80 canções para este disco e sinto que, entre a primeira canção e a última canção que fiz, há uma evolução gigante. Grande parte disso deve-se ao facto de ter crescido e ter vivido. Nas primeiras canções que lancei, tinha uma ideia diferente do que era o amor. Agora, claramente não sou tão ingénua, percebo os pontos bons e maus, e acho que é essa maturidade que sobressai.


Mar26 Entrevista Rita Rocha

Que risco artístico é que te permites agora que noutra altura não te permitirias?

Depois de lançar o Mais ou Menos Isto, que foi o primeiro single e a canção que obteve melhores resultados até hoje, senti uma pressão muito grande para continuar a lançar aquele tipo de música. Todo este disco é um risco; na altura, se calhar, não teria corrido esse risco. Isto sou eu a crescer e a dizer: aquela era eu há quatro anos, agora sou esta pessoa, sou diferente, vamos ver se o público gosta. Por exemplo, entre a Mais ou Menos Isto e a Saudades Tuas, há uma grande diferença, e eu até sinto que é das canções mais representativas da transição. Com as 80 canções que escrevi, conseguia fazer um disco igual se quisesse, Mas sempre que fazia uma canção parecida, punha-a de lado.

 

Quando compões, já estás a pensar no palco?

Mal acabo uma canção, imagino logo o que seria cantar aquela canção ao público e qual seria a frase que eles iriam gritar. Às vezes, posso estar a meio de uma canção, indecisa se ponho uma frase ou não, e penso: será que as pessoas gritariam esta frase? No último ano, não compus tanto, porque estive muito focada no disco e a preparar o concerto do Coliseu, mas há uma semana, escrevi uma canção e a primeira coisa que me veio à cabeça foi: ai, que bom, eu imagino as pessoas a berrarem isto! Parece que me reapaixonei pela escrita.

 

Tens tido um percurso ascendente rápido. Como é ser adolescente e, ao mesmo tempo, navegar a vida e ter exposição pública?

Eu posso responder a esta pergunta de duas formas. Se estivermos a falar de gestão de tempo para a família, os amigos, o trabalho e para mim, eu sou péssima. Eu achava que era muito boa, mas a questão é que, eventualmente, eu vou falhar em algum sítio. Eu odeio falhar com as pessoas. E sinto que esta gestão, de facto, tem sido muito difícil na minha vida, principalmente em momentos de acumulação [com a faculdade]. Eu organizo o meu dia ao minuto. Não é que a falha não vá acontecer, demora mais um bocadinho.

 

No que toca a ser conhecida, é uma mudança muito radical. Sinto isso cada vez mais e ainda não me caiu a ficha, acho que nunca me vai cair. Fico muito contente quando as pessoas me abordam na rua, mas há momentos em que me esqueço que posso estar a ser reconhecida. Eu posso estar aqui a ter uma conversa com os meus amigos sobre as maiores parvoíces e estar ali uma menina que se calhar me conhece. Se assim for, olha, conheceu-me mais um bocadinho (risos).

Recentemente, conseguiste entrar em medicina, um objetivo que tinhas há muito. Como tens conciliado as duas áreas?

Na medicina e na música, tens de ter muita organização. Depois, há na medicina uma busca do perfecionismo. Eu acho que só me estou a safar a medicina por não estar à procura disso. Eu quero perceber as coisas, quero apaixonar-me pela área, mas não quero passar dias inteiros a estudar. A música funciona exatamente da mesma forma porque, no fundo, as pessoas querem atingir o perfecionismo na produção e nos resultados. E, na verdade, a coisa mais bonita de fazer música é essa falta de perfecionismo.

Eu trabalho muito para a música, mas o meu objetivo nunca é procurar o perfecionismo, é sempre só procurar aquilo com que eu me sinto feliz. E na medicina igual. Sinto que funciono um bocado ao contrário de toda a gente (risos).


Na altura das colocações, publicaste um vídeo a inspirar outras pessoas a persistirem. Sentes que queres ser um exemplo ou rejeitas o peso desse papel?

O meu maior objetivo é conseguir dar voz aos adolescentes, na música e na forma como eu me exponho. Quando tu ouves uma canção escrita por um adulto sobre adolescentes, até te podes identificar com a canção, mas quando ouves uma de uma adolescente, essa relação é mais profunda, porque é, de facto, uma adolescente que está a viver exatamente as mesmas coisas que tu, na mesma altura. É exatamente isso que eu quero fazer com as pessoas da minha idade: que ouçam e sintam que não estão sozinhas. Quero que sintam que sou quase uma melhor amiga para elas.


O que é que a Rita de hoje, prestes a tocar no Coliseu, diria à Rita que dava os primeiros passos na música no The Voice Kids?

Sinto que, durante todo este percurso, acreditei muito pouco em mim. Comecei a fazê-lo por ver que as pessoas acreditavam em mim e não por mim própria. Por isso, diria para ela acreditar nela e que as coisas vão acontecer quando tiverem que acontecer, tudo o que tiver de ser dela vai ser dela. Teria vivido tudo isto muito mais tranquila se acreditasse em mim (risos).

Já subiste a outros palcos notáveis da cidade, como o Teatro Sá da Bandeira, em 2023, e a Avenida dos Aliados, em 2025. Este concerto no Coliseu é um ponto de chegada ou de partida?

Eu acho que é os dois. É um ponto de chegada porque é um dos dois objetivos que tinha desde que comecei a fazer música a sério: fazer o Coliseu e ser mentora do The Voice Kids. Sempre que entro no Coliseu, arrepio-me dos pés à cabeça, é uma sala mítica para mim. Trabalhei tanto para chegar aqui e, finalmente, vou poder desfrutar desta hora e meia de concerto.

Por outro lado, é um ponto de partida, porque imagino tanta coisa para a minha vida que já sei que, mal acabar o Coliseu, vou pensar: e agora? o que é que vou fazer a seguir?, porque estou sempre à procura de coisas novas. Além disso, as pessoas sempre olharam para mim de forma não muito séria, por eu ser muito miúda, e sinto que isto pode ajudar a dar-me um bocadinho de seriedade (risos).


Qual foi o concerto mais memorável que viste no Coliseu?

O da Carolina Deslandes, em 2021. Foi o primeiro concerto que vi no Coliseu. Depois do The Voice Kids, a Carolina fez duas datas no Porto e convidou-me para tocar três canções com ela e eu fiquei louca. Fiquei apaixonada pelo concerto e, no final, virei-me para o meu manager e disse: daqui a cinco anos também quero fazer [o Coliseu]. E ele disse: "daqui a cinco anos estás cá".

Mar26 Entrevista Rita Rocha

© Rui Meireles

Tens anunciado vários convidados para este concerto, como Guga, Carolina Deslandes e Pedro Abrunhosa, todos teus colaboradores no disco. Este alinhamento é uma forma de pô-lo a desfilar em palco?

Completamente. Este concerto é muito a apresentação do 8 ou 80, e eu quero que as pessoas passem por todas as emoções possíveis. Vai haver uma primeira parte muito mais melancólica, de chamar ao coração, com convidados específicos [nesse tom]. A segunda metade é muito mais feliz, muito mais de tirar o pezinho do chão até, e eu sei quais os convidados que se enquadram aí. Todos estes convidados, sendo tão diferentes, acabaram por dar uma coerência ao disco e vão dar a coerência que eu queria ao concerto. Quero que as pessoas chorem, riam, tirem o pé do chão, berrem… se, no final, saírem a pensar “como é que numa hora e meia senti isto tudo?”, o meu objetivo está cumprido.

Fotografias: © Rui Meireles

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