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Nos últimos anos, Juliana Julieta, artista visual cuja obra anda entre a pintura e o cinema experimental, tem-se debruçado sobre o cinema analógico com práticas ecológicas. Depois de começar a revelar várias plantas, idealizou um projeto que lhe permitisse testar diferentes espécies, preferencialmente na floresta. Uma amiga falou-lhe do Monte da Ervilha, baldio urbano “com uma grande biodiversidade” encaixado no meio de uma zona residencial, junto ao estádio do Futebol Clube da Foz.
O primeiro encontro com o local espoletou um sentimento misto de encantamento e luto. “É fenomenal ter este espaço no meio da cidade, porque há zonas em que te esqueces mesmo de onde estás”, declara à Agenda Porto. “Ao mesmo tempo, parece que já é uma despedida, devido aos projetos urbanísticos que estão previstos.”
Depois de uma pesquisa inicial, em que explorou atividades realizadas pela equipa d’A Recoletora no Monte da Ervilha, foi palmilhando o terreno, composto por uma área florestal, hortas urbanas e um ribeiro, e concluiu que tinha ali as ferramentas necessárias para desenvolver o seu trabalho.
Chamou-lhe Fungo, Florestas, Futuros (FFF), em alusão à wood wide web, termo que designa a complexa e milenar rede subterrânea de fungos que liga raízes de árvores e plantas e possibilita a comunicação, troca de nutrientes e partilha de recursos entre elas — e que espelha o elemento de comunidade que no cerne deste projeto artístico transdisciplinar.
“Foi muito importante trazer a parte de estarmos juntos a descobrir este lugar e a criar relações pessoais com ele, uns com os outros e com outras espécies”, considera Juliana. Cruzando ecologia, tecnologia e imagem em movimento, o FFF convoca-nos para um “encontro sensorial e íntimo com a floresta” que, “mais do que documentar”, ambiciona proporcionar “experiências de aproximação” a este território.

Para isso, a autora do projeto desafiou outros artistas e investigadores a criar atividades a partir de e para aquela paisagem. No sábado, 28 de março, pelas 14h00, o artista Wouter Jaspers realizará um passeio sonoro pelo local, convidando os participantes a trazer dispositivos de escuta ou gravação, como microfones de contacto ou hidrofones, que permitem ouvir debaixo de água, para “aceder a outras camadas que passam despercebidas” neste espaço natural.
Já no domingo, 29, às 15h00, será a vez de Fernanda Botelho, herbalista e autora, guiar o público num percurso pelo Monte da Ervilha, desafiando-o a descobrir e compreender este lugar através do que nele cresce. Além de identificar espécies de árvores, arbustos e plantas comestíveis e medicinais, a especialista irá abordar as suas caraterísticas, usos tradicionais e importância ecológica.
A programação continua no dia 18 de abril. Às 10h00, a designer multidisciplinar Luísa Martelo encabeçará a Apoteca Comunitária, uma oficina (já esgotada) para praticar o herbalismo de forma coletiva e criar uma botica de remédios naturais recorrendo à flora local. De seguida, às 13h00, terá lugar o Almoço Comunitário com Monika Bloch, chef e cofundadora do restaurante vegano Venn, que criará uma refeição com base em ingredientes locais e plantas recolhidas no Monte da Ervilha, promovendo “um momento de encontro em torno da refeição partilhada”. “É interessante pensar a ingestão como uma forma extremamente íntima de nos relacionarmos com a natureza”, observa Juliana Julieta.
A artista fechará as atividades do dia com um Workshop de Fitogramas às 14h30. Nele, os participantes irão criar imagens a partir de materiais orgânicos – flores, folhas e frutos recolhidos no local –, que “irão imprimir as suas formas e propriedades químicas diretamente sobre película fílmica 16mm e 35mm”. Não é preciso conhecimento prévio, já que se pretende criar, sobretudo, “um espaço de partilha e experimentação coletiva em torno das possibilidades da revelação alternativa”.
O acesso às atividades carece de inscrição, que deverá ser feita para o e-mail fungoflorestafuturos@gmail.com. A participação é gratuita, mas só fica validada após o pagamento de uma caução de três euros por atividade, para assegurar a presença dos inscritos. O valor será, posteriormente, devolvido, mas quem quiser pode fazer um donativo livre e consciente para apoiar o projeto e futuras iniciativas.
Natural de uma aldeia em Barcelos, Juliana já trazia na bagagem uma sensibilidade particular à ruralidade. O Fungo, Florestas, Futuros deu-lhe um pretexto para “descobrir outros lugares do Porto que não frequentamos ao viver [e circular] no centro”. Simultaneamente, permitiu-lhe “aprender com pessoas que têm outros conhecimentos”.
Essa contaminação de saberes, pensada como núcleo do projeto e do respetivo programa, aconteceu também de forma orgânica com os agricultores das hortas locais. “Noutro dia, um senhor explicou-me que aproveitou uma linha de água para criar um sistema de rega que liga diferentes bidões”, exemplifica.
O processo de criação do FFF tem sido, ele próprio, um trampolim para a prática artística de Juliana Julieta. Depois da pintura, a sua área de formação, e da imagem filmada, quis aventurar-se no som. “Comecei a tentar perceber como é que podemos ouvir as plantas”, revela. “Nota-se a diferença de planta para planta, há umas muito mais ativas que outras.”
O Fungo, Florestas, Futuros, que conta com apoio do Criatório, estender-se-á até ao final do ano. Em junho, está prevista uma performance-projeção com imagem e som recolhidos no Monte da Ervilha, antes e durante as primeiras atividades do projeto. Haverá, ainda, dois momentos expositivos, um agendado para setembro, na Galeria Dentro, e outro mais no final do ano, numa data a acertar, na Escola de Artes — Católica.

Fotografias: © Rui Meireles
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