EN

Pode uma guitarra ser temida por um governo? Pode, se tornada símbolo de revolta. Terá sido por isso que, em 2007, ao tentar evitar manifestações, as autoridades do Níger proibiram os tuaregues de usar o instrumento. Vivia-se a quarta das cinco rebeliões armadas empreendidas, desde 1916, por esse povo berbere no norte da região do Sahel. “Foi um período muito sombrio para os músicos”, explica à Agenda Porto, numa conversa à distância, Goumour Almoctar, mais conhecido por Bombino. “Alguns membros da minha banda foram levados e nunca mais tive notícias deles”, recorda. “Era demasiado perigoso ficar no Níger naquela altura e tive de fugir”.
Goumour tinha 27 anos quando escapou para o Burkina Faso, mas não era a primeira vez que tinha de partir. Ainda antes de fazer 10, em 1990, durante a terceira das tais revoltas, deixara Agadez, no norte do seu país, para rumar à Argélia com o pai e a avó, exílio que marcaria a sua personalidade. “Aprendi que o lar é um sentimento, não apenas um lugar”, diz. “Estava com a minha família, e era isso que me fazia sentir em casa”. Foi, como seria de esperar, “um período stressante”, mas que, segundo conta agora, o ensinou “a apreciar o presente”.
O inesperado não trazia apenas dissabores. Familiares, de visita ao acampamento, deixaram-lhe uma guitarra e começou a explorar o instrumento até aprender a tocar canções ishumar, música de resistência tuaregue. Na adolescência, em que viveu também na Líbia, via com os amigos vídeos dos malianos Ali Farka Touré e Tinariwen, nomes maiores do chamado blues do deserto, ou de estrelas anglo-saxónicas como Jimi Hendrix, Santana ou Mark Knopfler. Como contou em várias entrevistas, não gostava da escola e encontrou na música o caminho mais óbvio para alcançar a liberdade e a alegria que invejava naqueles roqueiros.
Com a “vocação” descoberta, mas ainda com a paz desencontrada no seu país, regressou a Agadez e de ali mudou-se para Niamei. Foi na capital que tomou contacto com o recém-formado partido tuaregue e, por volta dos 14 anos, já de guitarra nova, teve a sorte de começar “a tocar regularmente com a banda de Haja Bebe”, famoso guitarrista e político local. “Foi uma grande honra tocar com ele”, recorda. Além de lhe permitir “desenvolver habilidades e aprender o ofício da música profissional”, aqueles anos mudaram-lhe também o nome: foi no grupo que lhe deram “a alcunha de Bambino” (menino, em italiano), por ser “o membro mais novo e mais pequeno”.
Só mais tarde, por iniciativa própria, Goumour mudou uma letra ao cognome e chegou à atual versão. Viviam-se os finais dos anos 90 e Bombino atuava em comícios políticos e cerimónias festivas. Como o pai desaprovava aquela vida, o jovem migrou de novo para a Argélia e depois para a Líbia, onde foi pastor enquanto ia aperfeiçoando a técnica.

© SOS Shooting
No regresso a Agadez, tornou-se um músico de acompanhamento requisitado. Em 2004, enquanto trabalhava como cozinheiro, conheceu uns espanhóis que estavam a rodar um filme no Saara. O engenheiro de som da equipa gravou a banda do nigerino num CD intitulado Agamgam, que acabou por ganhar grande popularidade na cidade.
Dois anos depois, o grupo de Bombino juntou-se ao conjunto de blues tuaregue Tidawt numa digressão pelos Estados Unidos, organizada por uma ONG ligada à proteção de povos nómadas. Na passagem por Los Angeles, receberam um convite para gravar em estúdio uma versão de Hey Negrita, dos Rolling Stones, juntamente com dois membros da banda britânica, o guitarrista Keith Richards e o baterista Charlie Watts. Bombino admitiu mais tarde que não sabia quem eles eram quando os viu chegar de limusina (o tema está incluído no álbum Stones World – The Rolling Stones Project II, do saxofonista Tim Ries).

Meia dúzia de anos depois, o disco foi distribuído pela editora francesa Reaktion. | © Bandcamp

Interior de Agadez, o primeiro disco internacional de Bombino, lançado em em 2011 | © Bandcamp

Capa de Agadez (2011, Cumbancha) | © Bandcamp
De bambinos se fazem Bombinos
O tal conflito em que se proibiram as guitarras terminou em 2009. Após um ano à procura de Bombino, o cineasta Ron Wyman encontrou-o no Burkina Faso e tornou-o protagonista do documentário Agadez, a música e a rebelião, que mostra o exílio do guitarrista e o seu regresso a casa, incluindo a participação num concerto em frente à histórica mesquita da cidade, com a bênção do sultão. Encorajado pelo realizador a gravar a sua música de forma mais profissional, Bombino compôs os temas que formariam Agadez, o primeiro disco da sua carreira internacional, produzido em 2011 pela editora Cumbancha. A sua mistura de rock-blues, ritmos e escalas tradicionais tuaregues e letras em tamasheq – que falavam sobre identidade cultural, exílio e injustiça económica – obteve elogios da crítica e convites para concertos em salas e festivais de muitos países.

Capa de Nomad (2013, Nonesuch Records) | © Bandcamp
Entre os muitos apreciadores do álbum estava Dan Auerbach, guitarrista e vocalista dos The Black Keys, que convidou Bombino a ir a Nashville gravar em 2013. “Ele tinha imensas ideias que queria experimentar em estúdio: diferentes técnicas de gravação, diferentes overdubs”, conta à Agenda Porto o nigerino, para quem Auerbach tem “um dom para os arranjos e a mistura das guitarras”. Do encontro, recordado como um “verdadeiro prazer”, saiu o disco Nomad, com um som mais próximo do blues elétrico: “o álbum permitiu-me dar a conhecer o meu trabalho aos fãs de rock de todo o mundo”.
A fãs e a astros do género. Goumour Almoctar atuou, por essa altura, nas primeiras partes numa série de concertos de Robert Plant: “Foi fantástico ir em digressão com ele, é um grande fã de música africana”, diz, admitindo que também não sabia muito sobre o cantor na altura.

Capa de Deran (2018, Partisan Records) | © Bandcamp
“Os Led Zeppelin não eram muito populares no Níger quando comecei a tocar ainda em criança, não sei porquê”. Só após iniciar as tours internacionais descobriu a banda britânica e o seu célebre guitarrista: “adoro os riffs melódicos de Jimmy Page e a forma como as músicas são frequentemente construídas em torno do seu poderoso estilo de tocar guitarra”.
Em 2005, já depois de se ter estreado em Portugal, precisamente na Casa da Música, e de ter já um lugar de destaque nas listas da chamada world music, Bombino voltou aos Estados Unidos para gravar Azel – a sua primeira incursão pelo tuareggae, fusão entre reggae, música tradicional tuaregue e rock-blues –, desta vez com Dave Longstreth, músico e produtor dos Dirty Projectors. Seguiu-se Live at the Belly Up, gravado ao vivo, antes de voltar a estúdio para lançar Deran (2018), um regresso às suas raízes berberes que lhe valeu uma nomeação para Melhor Álbum de World Music nos prémios Grammy. Publicou depois Live in Amsterdam e, em 2023, editou Sahel, um disco talvez mais político, que olha diretamente para a identidade e o abandono daquela região africana (que se estende do Atlântico ao mar Vermelho, com o Saara a norte e savana do Sudão a sul).
O papel de embaixador cultural
Que diferenças tem o Bombino de hoje comparado ao que tocava em casamentos há 20 anos? “Agora sinto-me muito à vontade e sei como criar uma ligação com o público”, afirma. “Consigo perceber as suas expectativas e podemos viver juntos uma viagem musical”, capacidade que lhe “levou algum tempo a desenvolver”.
Mudou o homem e mudou o meio, pelo menos em parte. Ao olhar para o Sahel de hoje, em particular para o Níger, o músico destaca as diferenças trazidas pela modernidade: “a tecnologia facilitou a manutenção dos laços e a compreensão da atualidade regional e mundial”. Mas, apesar de haver “acesso à Internet mesmo nas regiões mais remotas”, continuam as contradições entre a pobreza e os ricos recursos naturais de um país cujo fornecimento de urânio é estratégico para a Europa. Bombino lamenta que as dificuldades do Sahel por vezes sejam esquecidas “face à multiplicidade de outros problemas que afetam o mundo”.

© SOS Shooting
Quanto à situação do povo tuaregue e dos territórios onde habitam, considera “que as fronteiras perdem todo o sentido se não forem respeitadas”, ainda que “não passem de linhas imaginárias”. Evita, porém, falar na criação de um estado independente: “penso que o mais importante é preservar a nossa cultura e viver em paz”. E, nesse âmbito de resistência cultural, sente “muito orgulho em poder divulgar a cultura tuaregue pelo mundo através da música e sensibilizar o público para os problemas que enfrentamos”.
Com a sua projeção mundial, o músico nascido num inóspito acampamento do Saara conseguiu cumprir o objetivo inicial dos artistas ishumar, depois de verem que a luta armada não era solução: defender direitos e o seu modo de vida, enquanto preservam o seu património cultural. Numa entrevista no passado, a estrela do desert blues explicou-o com uma frase que ficou célebre: “não vejo a minha guitarra como uma arma, mas sim como um martelo com o qual posso ajudar a construir a casa do povo tuaregue".
Share
FB
X
WA
LINK