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Crónicas da ZOP
Mónica e Ana Andrade, cuidadoras das campas do Prado do Repouso
Ainda antes da inauguração do seu espaço físico, o Matadouro – Centro Cultural do Porto encontra-se já a documentar e amplificar o território que o envolve: a zona oriental do Porto.
Cronicas ZOP Cuidadoras Prado Repouso

maio 2026

Mónica Andrade cresceu protegida por dois canhões. “Eram aqueles que pertenciam ao Museu Militar”, conta, virando os olhos bem lá para trás, para os tempos de menina. Talvez tenham sido esses canhões que a escudaram na vida, tão escorregadia. Ou talvez tenham sido as almas do além, agradecendo o cuidado com que ela e a mãe, Ana, sempre trataram das campas do cemitério Prado do Repouso. Os mortos estão atentos e nunca se esquecem de quem reza por eles.


Há quase 50 anos que Ana o faz, sempre com Mónica de roda de si. “Eu ajudei-a, desde pequenina”, lembra a filha, hoje quarentona, para logo de seguida elencar a lista de afazeres: lavar as campas, passar uma vassoura para arredar as folhas do outono para lá, enfeitá-las com flores compradas à “Lindinha”, a florista da vizinhança, ou simplesmente olhar por elas quando não há mais ninguém para o fazer. “Os clientes de há 44, 46 anos já são parte de uma família.”

Cronicas ZOP Cuidadoras Prado Repouso

© Rui Pinheiro

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© Rui Pinheiro

A família foi-se cosendo aos poucos, com muita generosidade, ou não tivesse Ana ido parar a estas lides por um infortúnio. Despejada de casa, com dois filhos de seis e quatro anos, a senhora, que atualmente conta com 70 primaveras, pegou nas poucas trouxas que tinha para se mudar para uma carrinha Volkswagen, comprada pelo pai de Mónica. A carrinha ficava estacionada dia e noite às portas do cemitério Prado do Repouso, com vista para os tais dois canhões do Museu Militar. Estava apetrechada com um colchão, um fogão a petróleo e alguns cobertores. “Era a mobília que tínhamos.”

 

Nesta fortaleza viveram até que uma “doutora” da Câmara se cruzou com o seu destino. “A minha mãe, pessoa muito humilde, foi chamada até à Câmara do Porto”, diz Mónica, arrebitando os olhos e estendendo os braços por passadeiras vermelhas imaginárias. “Isto aconteceu na altura da Páscoa”, prossegue: “A Drª. Cândida Maria Rosa virou-se para a minha mãe e disse Ó Ana, tens aqui a tua prenda da Páscoa; tens aqui casa para ti e para os teus filhos, e caso não tenhas dinheiro para o aluguer, vens aqui e eu pago. A minha mãe tinha as lágrimas a cair”.

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© Rui Pinheiro

A partir desse momento, as coisas começaram a encaminhar-se. Mónica foi para o infantário, o irmão para a escola, e Ana continuou com os seus “clientes” do Prado do Repouso, afeiçoando-se a vivos e a mortos. “A nossa vida foi construída grão a grão”. Hoje, é Mónica quem faz as manhãs pelo cemitério, para ajudar a mãe. Cuida de cerca de 80 campas. Começa segunda-feira numa ponta e acaba na sexta noutra. “Chega-se ao fim de semana e está tudo orientado. Depois volta ao primeiro e é outra vez sempre a rodar.” No final da jornada, fica uma oração no ar: Anjo da Guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia.

Texto de Filipa Vaz Teixeira
Fotografias © Rui Pinheiro


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