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Crónicas da ZOP
Mercado Abastecedor
Ainda antes da inauguração do seu espaço físico, o Matadouro – Centro Cultural do Porto encontra-se já a documentar e amplificar o território que o envolve: a zona oriental do Porto.
Cronicas da ZOP Mercado Abastecedor

Fevereiro 2026

É só às 6h que abrem as portas do mercado, mas às 4h da manhã Maria João já está de pé. "Levanto-me, faço alguns clientes pelo caminho e chego cá às 6h45". A produtora de Resende, a quem a cereja é muito cobiçada e o sorriso nunca descola da cara, é uma das cerca de 190 comerciantes que montam praça no Mercado Abastecedor do Porto. 


Ali acorrem grossistas de toda a zona norte do país: "de Coimbra para cima, todos comem aqui", diz desta feita Rafael Marques, 28 anos, terceira geração do negócio hortofrutícola Sá & Marques. É nos portões dos números 18 e 20 do pavilhão A, onde está instalado o negócio fundado em Cinfães pelo seu avô, que Rafael recorda os tempos de miúdo, em que andava a brincar entre os caixotes e as canastras de frutas e legumes empilhados pelos corredores. "O Mercado tem uma atmosfera própria. Quem cresceu aqui, como eu, só gosta disto. É um país à parte".

Cronicas da ZOP Mercado Abastecedor

© Rui Pinheiro

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© Rui Pinheiro

Neste "país" de 12 hectares, visitado diariamente por mais de 5000 comerciantes, os produtores e revendedores são como uma família: têm um tipo de entendimento próprio que não vem em nenhum manual de convivência, mas que se aprende pelo fazer e pelo falar. E quando alguma coisa corre menos bem, há figuras como a de Lemos que ajudam a manter a ordem: "o segredo está em haver muito diálogo. Aqui é um lugar de paz, onde não há acidentes, roubos nem desavenças".

Lemos, um dos 18 seguranças do Mercado Abastecedor, já ali trabalha há 35 anos. Não se lembra do tempo em que havia camiões de caixa aberta a revender num terreno em terra batida, no lugar do antigo Matadouro, mas recorda-se da dureza que era carregar e descarregar tudo à mão nos antigos pavilhões: "não havia câmaras de refrigeração, empilhadoras, nada disso. Agora está muito mais organizado". O Mercado, para ele, é praticamente uma segunda casa. "Trabalho ao ar livre e conheço muitas pessoas. Gosto muito do que faço".

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© Rui Pinheiro

Poucos são aqueles que trocavam esta rotina por outra ocupação qualquer, mesmo aqueles que, como Rafael, passam ali 12 horas por dia. "Este negócio é como uma relação amorosa", ri-se o empresário. A jura é para a vida e, enquanto assim for, este amor continuará a alimentar muitos outros.

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© Rui Pinheiro

Texto de Filipa Vaz Pinto 
Fotografias © Rui Pinheiro

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