EN

novembro 2026
É dia de ensaio no Bairro São Vicente de Paulo, como acontece aos sábados, de quinze em quinze dias. Mas o ensaio de hoje não é um qualquer. Basta sentir o cheirinho a pataniscas acabadas de fazer para perceber que há uma aura de festa no ar. “Fiz uma bacia de massa e já foi toda”, diz Eufémia, apontando o olhar para a outra ponta da sala, onde o Sr. Neto está sentado com o seu cavaquinho ao colo. “Ele faz 92 anos, é um exemplo vivo.”
As pernas pesam-lhe, é verdade, e por causa delas esteve afastado do rancho nos últimos três anos. Mas as mãos continuam ágeis a saltar de acorde em acorde e a impor o ritmo dos tocadores, juntamente com os ferrinhos da Sãozinha, a outra veterana do grupo. Já a voz é límpida e bruxuleante como o vibrato de um rouxinol. É com ela que o Sr. Neto finaliza o ensaio: Indo eu por esta estrada fora / vou tocando a minha viola / e cantando esta linda canção. Os companheiros e companheiras aplaudem, saudando-o com vivas, sob o olhar atento de Francisco de Assis e Maria Natividade, já falecidos e ali retratados em fotografia e numa placa em sua homenagem. Afinal, foram eles que fundaram o Rancho Folclórico Danças e Cantares de Campanhã a 25 de abril de 1994, como nos conta a filha Eufémia.

Rancho Folclórico Danças e Cantares de Campanhã © Rui Pinheiro
A riqueza deste coletivo, guardião de uma tradição que vai passando de geração em geração, está no seu reportório e também nos laços que ali se fazem. Há quem se tenha apaixonado a dançar, como Eufémia e Bernardino, atual presidente; há os que já nasceram entre viras e malhões, como Pedro, o ensaiador que bailou nove meses na barriga da mãe antes de bailar pelo seu próprio pé; e há quem lhe tenha tomado o gosto mais tarde, como Margarida, de 62 anos, que foi ali parar por conta da filha. “Ficava aqui sentada a vê-la dançar e o sangue a ferver”, conta com a teatralidade de uma Montserrat Caballé. Certo dia, abriu a goela e agora não há quem lhe contenha o canto. “Sou da terra dos galos, claro que tinha de cantar.” Com licença, que aqui vai disto: E arregaça pum pum, arregaça o teu vestido; E arregaça pum pum, as calças calças ao teu marido.

© Rui Pinheiro
No meio da sala, vê-se Sandra, de 40 anos, a ensinar Yara a dar os primeiros passos. “1, 2, 3, agora vai para ali, 1, 2, 3, agora vem para aqui” e a menina de cinco anos, os mesmos que Sandra tinha quando começou a dançar, atira os bracinhos para o ar e faz-se à roda com gosto, decorando a pouco e pouco os movimentos. Lara, de 15 anos, incentiva-a e Melissa, de 12, embora mais envergonhada, entra no ritmo, para gáudio da tia Eufémia. No meio deste rodopio todo, só há um problema: homens, nem vê-los a dançar! Maria João, que já anda no rancho há 34 anos e que por causa dele conheceu grande parte do país, assume então o papel de homem. “Ai que me troco toda”, ri-se às gargalhadas, mandando o pé esquerdo para a frente em vez do direito, que é o pé com que eles entram na dança.
Fernando, um dos poucos homens do grupo, tem pena que não haja mais rapazes a seguirem-lhe as pisadas, mas compreende que nem sempre é fácil. No seu caso, era gozado em miúdo por fazer parte do rancho. “O rancho era visto como uma coisa parola.” Felizmente, pouco se importou com o que os outros lhe diziam e hoje, aos 40 anos, continua de pedra e cal a dançar. Claro que as pataniscas de Eufémia, que, entretanto, se pôs a bater uma segunda bacia de massa, ajudam a que uma pessoa se afeiçoe a isto. As gargalhadas de Maria João também. E até o choro da Maria, que deixou de cantar por estar de luto e que assiste sentada ao ensaio, mantém o grupo unido. “Somos uma família”, afirma Sandra, sem pestanejar. O seu único lamento é que a cultura se esteja a esquecer de grupos como os dela. “As pessoas pensam que isto é uma cultura pobre, mas é muito rica.” Cultura que se quer fofa, como uma boa patanisca, tem de saber entrar em muitas danças e não desdenhar de nenhuma delas. No que depender do Rancho Folclórico Danças e Cantares de Campanhã, todos os que estiverem dispostos a arregaçar calças e vestidos, são bem-vindos a esta linda canção.

© Rui Pinheiro
Texto de Filipa Vaz Teixeira
Fotografia © Rui Pinheiro
Ainda antes da inauguração do seu espaço físico, o Matadouro – Centro Cultural do Porto encontra-se já a documentar e amplificar o território que o envolve: a zona oriental do Porto. Mais Crónicas da Zona Oriental do Porto (ZOP) em matadouroporto.p
Share
Relacionados