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julho/ agosto 2026
Quando Filipe Pinto era revisor da CP, as semanas não tinham dias, os dias não tinham horas. “Saía num dia e regressava no outro. Não havia segunda ou domingo.” O tempo era calculado pelo pêndulo das viagens, entre estações e apeadeiros.
“Fiz 14 anos de longo curso e o restante no regional”, diz, lembrando como muitas das caras que enchiam as carruagens, e que inicialmente eram desconhecidas, se iam tornando familiares pela repetição da rotina. Criavam-se laços de empatia enquanto se picavam os bilhetes. Era uma micro-sociedade dentro de uma maior, que reconhecia os seus rostos, mesmo em movimento.
Hoje, com 52 anos, Filipe decidiu voltar ao ponto de partida, aquele que o acolheu depois de ter concluído o curso na Escola de Aprendizes da CP, no final dos anos 80. “Tinha de voltar”, refere com retidão e serenidade, vestindo o seu fato-macaco cinza-encarnado, uniforme do Complexo Oficinal de Contumil, em Campanhã.

Complexo Oficinal de Contumil © Rui Pinheiro
No fundo, este complexo, inaugurado em 1993 e um dos principais da Comboios de Portugal, onde se realizam atividades essenciais de manutenção, reparação e conservação de material circulante, bem como de preservação do património ferroviário histórico, é também uma micro-sociedade em si. A torre dos escritórios, visível a quilómetros de distância, é como um panóptico sobre uma área imensa onde trabalham 220 pessoas e que, apesar da sua dimensão, permanece quase desconhecida aos habitantes da cidade.
Neste complexo, “um colega é como se fosse da família”, diz desta feita Luís Oliveira, 34 anos. Tal como Filipe, cujo pai e irmão trabalharam para a CP, também Luís vem de uma família de ferroviários. “O meu avô era revisor. Andei com ele para o Porto, para Trás-os-Montes… todos os anos andava com ele para trás e para a frente.” Neste pouca-terra da vida, o bichinho foi-se instalando. “Assim que apareceu a oportunidade para vir trabalhar para a CP, candidatei-me.”

Complexo Oficinal de Contumil © Rui Pinheiro
Filipe e Luís integram a equipa da Ofi cina dos Comboios Históricos e Carruagens, um autêntico pavilhão museológico ao cuidado de 25 operários, entre os quais técnicos e chefes de manutenção e engenheiros. É nesta oficina de curiosidades que a icónica locomotiva centenária 0186, a do Comboio Histórico do Douro e do Comboio Histórico de Natal a Vapor, repousa com o seu negrume tão austero quanto belo, até que uma nova viagem histórica chame por si.
É também aqui que são reparadas e cuidadas as carruagens Schindler da linha do Douro, conhecidas pelas suas janelas panorâmicas e pelo branco e vermelho pirulito, bem como as do Comboio Histórico do Douro e do Vouga, com os seus bancos corridos de madeira, ou as mais recentes Sorefame e Arco, do Intercidades. “Fazemos a manutenção das carruagens e algumas reparações. Tudo o que elas necessitarem”, explica Luís.
Apesar do cansaço e da fuligem nas mãos, nem Filipe nem Luís trocariam aquela vida por outra qualquer. “Quando alguém deixa o fi lho no comboio, queremos garantir que ele vai em segurança e regressa em segurança.” Estima e sentido de missão, é este o vapor que os move. O coração, compreendemos ao deixar o Complexo de Contumil para trás, também é uma locomotiva.

Complexo Oficinal de Contumil © Rui Pinheiro
Texto de Filipa Vaz Teixeira
Fotografias © Rui Pinheiro
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