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Fevereiro 2026
“Sou muito mau com datas”, adverte logo no início da nossa conversa. Alfredo Teixeira, 60 anos, principiou a tocar música antes de imaginar construir instrumentos. Aprendeu sozinho a tocar cordofones “por volta dos 14 anos” e é construtor "mais ou menos autodidata" desde 2006. Começou por construir um cavaquinho e depois vários violinos – instrumento que também toca – até chegar à sua primeira guitarra portuguesa.
Aos 18 anos foi estudar guitarra elétrica na Escola de Jazz do Porto, mas desistiu; andou três anos em Arquitetura até que, aos 21, decidiu ir estudar violino para o Conservatório do Porto. “Na altura, era um bocado estranho porque tinha aulas com miúdos de sete, oito anos”, recorda. Tocou bandolim nos Vai de Roda, grupo de música tradicional, e nos JIG, grupo de música celta. “Depois, já não sei muito bem o que é que fiz, mas fui sempre fazendo muita coisa”. Chegou a ter uma empresa de organização de eventos, juntamente com o irmão, e fez música para teatro (trabalhou largos anos com a Circolando). A música nunca saiu do caminho, apenas mudava de forma.
“Comecei a construir porque queria ter instrumentos fixes para tocar”

Guitarra portuguesa © Ana Caldeira
Quando tinha a empresa de eventos, Alfredo convidou uma aluna do conhecido violeiro António Luciano (Toni das Violas) a orientar uma oficina de construção de cavaquinhos. Como havia poucos inscritos, decidiu participar também. “Construí o primeiro cavaquinho e, a partir daí, lancei-me. Fui indo sozinho, investigando. Como toco violino, comecei a tentar fazer violinos, a ler a pouca informação que havia, na altura, na internet. Depois, um vizinho desafiou-me para fazer uma guitarra e a partir daí não fiz mais violinos”, ri-se. Hoje, constrói essencialmente guitarras portuguesas e violas de fado – “mas há muita gente que não concorda com este nome”, acrescenta.
“Da escola dos violeiros do Porto, o Sr. Toni das Violas é o último. Comecei a construir violas por mote próprio, mas o Toni aprendeu na António Duarte que era a casa mais emblemática do Porto, e era onde se construíam estas guitarras”, diz, apontando para um modelo do Porto pendurado na parede.

© Ana Caldeira
Ao longo de duas décadas, este violeiro – “não há necessidade de dizer luthier porque sou português” – perdeu a conta aos instrumentos que já construiu, e também àqueles que lhe têm chegado às mãos para serem reparados. Alfredo admite que começou a construir “porque queria ter instrumentos fixes para tocar”. “Depois comecei a gostar cada vez mais porque nunca se sabe muito bem o que é que vai ‘sair’; por muito que uma pessoa tente aprimorar, são muitos fatores, começando pela madeira, que nunca é igual, e que se calhar é o principal fator para que todos os instrumentos ‘saiam’ diferentes”, conta.
Além da paciência, da perícia e do acabamento em goma-laca — que prolonga por meses a conclusão do trabalho — é a madeira que dita como é que um instrumento vai soar. Nogueira e pau-santo é a madeira que o violeiro utiliza como matéria-prima para construir os seus instrumentos. Conta-nos que, em Portugal, “os instrumentos mais caros são em pau-santo e os mais baratos em nogueira”, mas que, atualmente, compra a madeira pela internet, “e o pau-santo indiano é mais barato do que a nogueira”.
Alfredo começou por mostrar o seu trabalho a alguns amigos, “e a partir daí depois as coisas começam a acontecer”. “Hoje, felizmente, já há mais gente a construir no país, mas na altura em que comecei a construir guitarras portuguesas, não havia. Devia haver quatro ou cinco pessoas com algum nome a construir instrumentos” conta.

© Ana Caldeira
“Os meus instrumentos têm um som doce”
Uma particularidade deste violeiro é que “não faz instrumentos por encomenda”. Alfredo faz questão de que os músicos experimentem instrumentos diferentes e que depois escolham aquele que melhor se adequa à sua personalidade. “Cada músico procura um som e cada violeiro tem um som”, diz. Por isso, defende que “entre os violeiros não existe concorrência”: “o meu som não será do agrado de todos”, assegura. O violeiro considera que os seus instrumentos têm “um som doce”: “procuro ter um som redondo; não gosto de sons muito afirmativos, muito agudos nem muito metálicos”, revela. A propósito, recorda “a história engraçada” de um amigo seu que foi dar um concerto à Austrália, e que foi abordado por um elemento do público que lhe perguntou se a guitarra que estava a utilizar tinha sido adquirida na Casa da Guitarra porque também ele tinha um bandolim construído por Alfredo, e “reconheceu o som”.
Para Alfredo, cada instrumento carrega uma intenção sonora, sendo que no caso do fado a guitarra deve servir quem canta. “Se estamos a tocar fado, a guitarra portuguesa não deve atropelar a voz; deve situar-se numa zona sonora que permita que a voz continue a dominar”, exemplifica. E sublinha: “a voz é o mais importante; por isso, procuro um instrumento que seja doce, que dê uma boa base para a voz, mas que não se sobreponha.” No entanto, adverte que se for para tocar “num tasco de fado vadio, com barulho, com as pessoas a comer, o instrumento precisa de ‘berrar’ mais um bocadinho”: “há quem prefira uma guitarra portuguesa com mais agudos, com mais brilho para chegar mais longe nestes espaços.”
Alguns anos depois de começar a construir e a reparar cordofones, em 2012, Alfredo funda a Casa da Guitarra.

© Ana Caldeira
Silêncio que se vai cantar o fado
São seis da tarde, e a Casa da Guitarra, na Av. de Vímara Peres, perto do tabuleiro superior da Ponte Luiz I, já está à pinha (40 lugares sentados) – são turistas expectantes para ouvir cantar o fado. A guitarra portuguesa de Alfredo e a viola de fado de Rogério Rocha já estão em cima do palco a postos para a entrada dos músicos que vão acompanhar as duas fadistas que atuam à vez naquele fim de tarde, Carla Cortez e Isa de Castro.
Este espaço passou a fazer parte dos roteiros turísticos da cidade. Todos os dias há sessões de fado. No verão, chegam a ser três sessões diárias. “Fomos a primeira casa, e agora há 16 espaços – e ninguém se atropela, há espaço para todos. São, sobretudo, turistas, há poucos portugueses”, conta o músico pouco antes de atuar. “Criou-se uma tradição no Porto que não existia. O fado vadio já existia, mas não era hábito haver fado ao fim da tarde. E aqui, no Porto, tal como vão ver o pôr-do-sol ao Jardim do Morro, também vêm ouvir fado.”
A ideia de um dia criar a Casa da Guitarra foi buscá-la a uma memória da adolescência: Alfredo tinha comprado uma viola que “era muito difícil de tocar porque era muito dura”, e aconselharam-no a ir à oficina do violeiro Domingos Cerqueira, em Costa Cabral, “figura muito importante na história da guitarra no Porto”. “Quando entrei na oficina, fiquei mesmo maravilhado porque ele estava lá com as ferramentas a trabalhar, acompanhado por um monte de gente a tocar e a cantar, e aquilo nunca mais me saiu da cabeça”, recorda.

Fado na Casa da Guitarra. Alfredo toca guitarra portuguesa. © Ana Caldeira

© Ana Caldeira
Quando começou a construir instrumentos, sonhou em abrir um espaço que se assemelhasse “às oficinas dos violeiros do antigamente”. “Propus ao meu irmão abrirmos uma loja onde não só tivéssemos a venda e a construção de instrumentos, mas onde pudéssemos ter espetáculos e tertúlias; que fosse um lugar onde se pudesse tocar, conversar e promover aulas de guitarra portuguesa, braguesa, cavaquinho e bandolim”.
“Somos uma loja especializada em instrumentos tradicionais, e inicialmente não fizemos uma coisa a pensar em turistas; a surpresa foi que os turistas começaram a vir muito mais do que os portugueses.” O músico recorda que, aos fins de semana, costumavam promover espetáculos de instrumentos tradicionais ou acústicos, até que um dia alguém sugeriu fazer um espetáculo de fado. “Experimentámos e correu muito bem, e decidimos arrancar com espetáculos de fado a determinados dias de semana, às seis da tarde – porque a malta do fado atua à noite e a essa hora estava livre”.
A partir de certa altura, o fado “começou a ser um sucesso e passou a pagar as contas”, porque hoje ter uma loja de instrumentos musicais “não é [um negócio] rentável”. “A maior parte das pessoas compram online e a maior parte das lojas do Porto estão condenadas a desaparecer”, vaticina.
Foi durante a pandemia, e depois com o escalar das rendas, que a Casa da Guitarra perdeu metros quadrados e as aulas de música e os concertos acústicos gratuitos, bem como a construção e restauro de instrumentos ao vivo. Ainda assim, e apesar de apenas funcionar num só espaço, que também alberga uma exposição permanente de instrumentos de cordas portugueses, continua a promover várias oficinas. A próxima acontece no dia 14 deste mês; trata-se de uma oficina de guitarra portuguesa, conduzida por José Manuel Neto, reconhecido mestre da Guitarra de Lisboa, que no mesmo dia, às 21h30, fará um concerto no Mosteiro de São Bento da Vitória, acompanhado por Pedro Santos, no acordeão, e Carlos Manuel Proença, na viola de fado.
A Guitarra Portuguesa
Quando se fala em guitarra portuguesa, fala-se quase sempre em dois modelos: o de Coimbra e o de Lisboa. Mas antes destas distinções, existia apenas “a guitarra”. Descobrimos que essa, a original, poderá ser o modelo do Porto. “Não há certezas históricas”, diz Alfredo Teixeira, sublinhando, contudo, que “pelo que leu e pelos instrumentos que lhe passaram pelas mãos, até cerca de 1930 ‘era assim’: não existia guitarra de Lisboa ou de Coimbra. Existia a guitarra portuguesa.”
Segundo leu num artigo do Pedro Caldeira Cabral, “um estudioso da matéria”, a mudança surge quando Artur Paredes, pai de Carlos Paredes, procurou outro poder sonoro e, juntamente com João Pedro Grácio Júnior, um mestre guitarreiro, repensam o instrumento: “o corpo aumenta e é-lhe dado características diferentes, nomeadamente a divisão de corda, o tamanho do cavalete até aqui [demonstra no braço do instrumento], que é um quarto do comprimento de corda, que lhe deu algum rigor científico e aprimorou bastante o som - que se tornou mais grave e potente.”
Entretanto, Armandinho, figura lendária da guitarra lisboeta, colabora com outro membro da família Grácio para alargar o modelo da original. O objetivo repete-se: ganhar projeção e corpo sonoro. Nasce assim a guitarra de Lisboa, “um bocadinho mais contida” do que a de Coimbra.
A antiga guitarra, mais pequena, menos potente, deixa de ser produzida. Os novos modelos oferecem mais volume, mais sustento, melhor resposta às exigências dos músicos.

© Ana Caldeira
A guitarra que “ficou pelo caminho” — a do Porto
O primeiro contacto que Alfredo teve uma dessas “guitarras pequeninas” antigas com uma flor na voluta [cabeça] acontece na oficina de António Duarte. “Fui tentar saber a história por detrás”. Descobre um modelo esquecido, anterior às padronizações de Lisboa e Coimbra. “Havia quem dissesse que era uma guitarra de senhora porque tinha uma flor na voluta”, conta. "Não é verdade porque estas guitarras tinham cabeças completamente distintas; algumas tinhas flores, outros rostos — cheguei a apanhar uma cuja cabeça era um bulldog com charuto”, ri-se.
Mas quais são, afinal, as características do modelo do Porto? “Mais pequena e, normalmente, a ilharga [parte lateral] era mais estreita. Era construída em ácer ou plátano — as características sonoras de ambas as madeiras são muito parecidas, e a decoração era extremamente simples.” E, a propósito, refere que, possivelmente, a guitarra de Coimbra "herdou um bocadinho dessa simplicidade", porque a de Lisboa "é cheia de madre de pérolas e é mais exuberante". "Eu tenho a teoria, que tem que ver com as guitarras que me foram chegando para reparações, de que a lágrima [na cabeça da guitarra de Coimbra] é uma espécie de simplificação da flor [da guitarra do Porto],” conclui.
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