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julho/ agosto 2026
A história do Sportivo Nun’Álvares começou de forma ambiciosa. Instalado inicialmente na Rua do Monte dos Burgos, o clube construiu, ainda nas primeiras décadas do século XX, um parque desportivo considerado exemplar para a época. Num único espaço conviviam modalidades como futebol, atletismo, basquetebol, voleibol, natação e polo aquático. O grande símbolo da coletividade era uma piscina, conhecida na época como “tanque”, considerada a primeira da cidade do Porto.
A notoriedade alcançada ultrapassou as fronteiras da cidade e chegou ao palco internacional. Em 1924, o clube tornou-se uma das primeiras coletividades portuguesas ligadas ao movimento olímpico, com Karel Pott a representar Portugal nos Jogos Olímpicos de Paris.
Poucos anos depois deste período de afirmação, o Sportivo Nun’Álvares sofreu um dos momentos mais marcantes da sua história: a perda das instalações. Sem casa própria, viu-se obrigado a procurar espaços alternativos para continuar. O Nun’Álvares nunca desistiu e foram os seus dirigentes, atletas, treinadores e sócios que garantiram a sobrevivência do clube.

Taças e troféus conquistados pelo Sportivo Nun’Álvares © Sofia Hugens

Rui Rangel, do Sportivo Nun’Álvares © Sofia Hugens
Se há alguém que personifica a história do Nun’Álvares, esse alguém é Rui Rangel. Atual presidente da Mesa da Assembleia Geral, liderou a direção durante 42 anos e está ligado ao clube há mais de meio século. “Sou nascido e criado no Carvalhido. Cresci entre treinos, jogos e deslocações, muitas vezes a pé, com os patins às costas. Voltávamos cansados, mas felizes”, recorda.
Rui Rangel foi também um dos impulsionadores da secção de hóquei em patins do clube, em 1958. A estreia ficou longe de ser vitoriosa, mas tornou-se uma das suas memórias mais queridas. "O primeiro jogo foi inesquecível. Nós, os jogadores, nem nos conhecíamos bem, queríamos era jogar. A estreia terminou com uma derrota por 17-0 frente ao Educação Física do Norte. Mas o resultado ficou para segundo plano. Estávamos muito felizes. Deu-nos força para continuar."
A recompensa pela persistência chegou anos mais tarde. Em 1973, o clube obteve a concessão de um terreno na Rua Particular de Monsanto, em Paranhos, onde viria a nascer o atual complexo desportivo.
Rui Rangel atribui a longevidade da instituição a uma fórmula simples: “imaginação, muito trabalho e muita união. Aqui nunca houve disputa de lugares. Quem vinha para os corpos gerentes sabia que era para trabalhar.” O espírito familiar tornou-se uma marca identitária do clube. “Os diretores colocavam os filhos como sócios antes de nascerem. Sem saberem se era menino ou menina, deixavam a ficha preparada. Quando o meu filho nasceu, passados dez minutos já era sócio.”
A preocupação em integrar toda a comunidade levou inclusivamente à criação de novas atividades. Quando as mães aguardavam pelos filhos à porta dos treinos, nasceu uma secção de ginástica para que também pudessem participar. No Nun’Álvares havia espaço para todos. Os treinadores conheciam os atletas para lá do campo, acompanhavam o percurso escolar e as preocupações do dia a dia. "Não funcionava o singular, funcionava o plural. Aqui era sempre 'nós',” afirma o histórico dirigente.
O espírito de comunidade continua presente na memória de quem vestiu a camisola do clube durante décadas. Luís Costa, antigo jogador e capitão da equipa de andebol, entrou por influência de amigos e nunca mais saiu. “Só joguei aqui. Este é o clube da minha freguesia, do Carvalhido. O andebol e o Nun’Álvares continuam a unir-nos.” Mais do que os resultados, Luís Costa guarda as relações que nasceram dentro do pavilhão. “As amizades construídas dentro e fora de campo sobreviveram ao fim das competições. Éramos uma família. O Nun’Álvares foi uma escola de vida."
Para João Carlos, conhecido por todos como Joca, o Nun’Álvares foi muito mais do que um clube. “Eu era muito tímido e reservado, quase não saía de casa. O Nun’Álvares foi uma bênção para mim. Aqueles cinco anos na equipa de andebol ajudaram a construir aquilo que sou hoje. Foi aqui que aprendi a conviver, a fazer amigos e a ganhar confiança.” Recorda ainda a dedicação de dirigentes e voluntários que acompanhavam os jovens atletas dentro e fora das competições. “Iam buscar-nos aos jogos, acompanhavam-nos. Havia várias pessoas que davam a vida pelo clube e faziam tudo por nós.” Mais tarde tornou-se professor de Educação Física. “Se hoje tenho esta profissão, muito devo ao que aprendi aqui.”

João Carlos e Luís Costa © Sofia Hugens
Mais de um século depois da fundação, o Sportivo Nun’Álvares abriu um novo capítulo da sua história. Desde maio de 2026, a direção é liderada por Sofia Rangel, a primeira mulher a assumir a presidência do clube em 111 anos de existência. Mas a história de Sofia Rangel com o Nun’Álvares começou muito antes. "O Nun’Álvares sempre esteve presente na minha vida. Desde pequena que venho para aqui. A minha mãe fazia ginástica no clube e eu passava horas à espera de que acabassem os treinos ou as reuniões. Cresci neste ambiente." Mais tarde vieram a vida profissional, o casamento e os filhos. Ainda assim, a ligação manteve-se. "Construímos as nossas vidas, mas rapidamente os meus filhos também passaram a fazer parte desta casa."
Para a nova presidente, é esse espírito familiar que explica a longevidade da instituição. "As direções sempre foram construídas pelo exemplo, pela dedicação e pelo trabalho. Somos uma instituição sem fins lucrativos. Vivemos dos sócios, do amor à camisola e do voluntariado."
Recorda que, durante décadas, o funcionamento das modalidades dependia da disponibilidade das próprias famílias. "No andebol eram os carros particulares que levavam os jogadores para os jogos. As mães preparavam os lanches. Os pais ajudavam no que fosse preciso. Isto nunca foi apenas um clube desportivo. É uma casa."

Sofia Rangel, presidente do Sportivo Nun’Álvares © Sofia Hugens
Com cerca de 6.500 sócios, o Nun’Álvares continua a afirmar-se como uma coletividade muito ligada à comunidade. “Sempre fomos um clube integrador. Nunca fechámos as portas a ninguém."
Essa missão passa também pela proximidade ao Bairro do Regado, de onde vieram muitos atletas, associados e até colaboradores do clube. "Muitos jovens cresceram aqui. Alguns não tinham condições para pagar uma mensalidade, mas isso nunca foi o mais importante. Muitos regressaram mais tarde como sócios. Quem fica aqui fica pelo amor e pela dedicação ao clube."
O futuro passa agora por recuperar modalidades que marcaram gerações de nun'álvaristas. “Queremos voltar a ter andebol e hóquei em patins. Sabemos que é uma ideia muito ambiciosa, mas faz parte da identidade do clube." Sem investidores nem grandes fontes de financiamento, Sofia Rangel acredita no futuro. "O verdadeiro património do Nun’Álvares sempre foram as pessoas."
Do primeiro olímpico à primeira presidente, passaram 111 anos de história. Mudaram as modalidades, mas permaneceu sempre o sentimento de pertença comum a todos.

Sportivo Nun’Álvares © Sofia Hugens
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