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maio 2026
O Sporting Clube da Cruz é centenário, mas soube reinventar-se. Longe vão os tempos da “peladinha” no campo de terra. Hoje, o “clube dos rapazes do Outeiro” cresce e afirma-se a cada geração.

Luís Miguel e Augusto Almeida, sócios do Cruz © Sofia Hugens
Augusto Almeida segura o cartão de sócio com orgulho. É o número 2. Ao lado, o filho, Luís Miguel Almeida, sócio número 45. Dois números que contam uma vida inteira ligada ao Sporting Clube da Cruz. “Sou o mais antigo sócio do Sporting Clube da Cruz! Tenho 80 anos, o meu filho 52… faça as contas!”, diz, com um sorriso. Aponta para as casas ao lado do campo: “Nasci e fui criado ali. Joguei futebol aqui. Este é o meu clube.”
As memórias são muitas. “O meu filho também jogou aqui, até aos juniores, mas era no antigo campo onde arranhavam as pernas todas! Era guarda-redes, mas quando a bola vinha… via tantas pedras que a deixava entrar. Para não se magoar não se atirava!”, ri-se, antes de concluir: “O Cruz sempre foi muito familiar. Dei tudo por este clube”.
O filho, Luís Miguel Almeida, ouve atentamente a conversa. “Este é o clube da minha terra. Eu estava a jogar no Campo do Cruz e a minha avó vinha à janela de casa e gritava: “Ó Miguel, anda jantar! São histórias que não se esquecem”.
É assim que o Cruz se constrói, de geração em geração.
Paula Correia é parte desta família há mais de três décadas. Um nome que todos conhecem no clube. “Para mim, o Cruz é família. Fui praticamente criada aqui. O meu pai era treinador e eu vinha sempre com ele. Fui ganhando o gosto e nunca mais saí”.
Paulinha, como é conhecida no Cruz, não tem dúvidas de que “o segredo é o amor ao clube. Aqui ninguém trabalha por dinheiro, é tudo carolice. Se o Cruz chegou até aqui foi porque houve pessoas que nunca desistiram. E continua a ser assim.”

Paula Correia © Sofia Hugens
Fundado a 19 de maio de 1919, por três amigos que queriam criar um espaço para jogar futebol no Outeiro, o Sporting Clube da Cruz nasceu com uma ideia simples: ser um clube de bairro, próximo das pessoas. A primeira sede ficava na Rua da Cruz. O clube começou apenas com futebol e passou a contar com instalações próprias em 1926, as mesmas que o serviram até 2023. Ano em que foi inaugurado o Campo Municipal do Outeiro, uma obra da Câmara Municipal do Porto.
Mais de um século depois, a essência mantém-se, mas ganhou dimensão. “É um clube diferente, com um cariz social que poucos têm”, explica o presidente. Luís Silva conhece o Cruz desde criança. “Vinha com o meu tio ver os jogos, depois joguei aqui. É uma ligação que ficou.”
Hoje, conta com mais de 400 atletas, uma realidade muito diferente da de outros tempos. “Não há nenhum miúdo que não jogue por não ter condições para pagar”, garante. “Cerca de 35% dos atletas têm bolsas. Ninugém fica excluído." Mais do que futebol, há cuidado. “Há miúdos para quem o lanche no fim do jogo é importante. E isso diz muito.”
Desde 2010 que o Cruz tem uma IPSS que apoia crianças e jovens, incluindo acompanhamento ao estudo. “Não somos um negócio”, reforça o presidente. “Somos um clube com responsabilidade social e isso nunca vai mudar.”
Ao longo de mais de um século, o Cruz resistiu a dificuldades, mudanças e até ao risco de desaparecer. Cresceu e reinventou-se. “Temos as instalações com que sempre sonhámos”, confessa o presidente do Cruz.

Luís Silva, presidente do Cruz © Sofia Hugens

João Bastos, capitão da equipa sénior do Cruz © Sofia Hugens
Do campo pelado ao título
Se Augusto Almeida, sócio n.º 2, fala de memória, João Bastos representa o presente. Capitão da equipa sénior, conhece bem o percurso do clube. “Quando cheguei, senti-me em casa, mesmo com as condições que tínhamos.” O jogador recorda o antigo campo pelado: “De um lado parecia areia de praia, do outro era sobe e desce.”
Em 2023, tudo mudou com o novo campo. E no mesmo ano chegou o título de campeão da 2.ª Divisão da Associação de Futebol do Porto. “Foi especial. Quem vê o Cruz agora não imagina o que foi. Este é o clube do coração. O Cruz são as pessoas.”
Crescer sem perder a identidade
Desde 2023, o número de atletas quase triplicou. O desafio agora é outro: crescer sem perder identidade. “O que distingue o Cruz é o sentimento de pertença”, diz Vasco Queiroz, coordenador da formação. “Quem entra aqui sente que faz parte.” E acrescenta: “Não é fácil lidar com tantas histórias, realidades muito diferentes, mas esse espírito de entreajuda tem de se manter.”
A paixão pelo clube atravessa gerações. Rodrigo, jogador dos sub-11, é um exemplo deste sentimento: “Escolhi o Cruz pela união e pelo carinho.”
Treina três vezes por semana: “É duro, venho direto da escola, mas vale a pena. Ao sábado damos tudo para ganhar e quando ganhamos é uma sensação muito boa. Vale mesmo a pena.”

Treinador Vasco Queiroz © Sofia Hugens
Ao longo de 107 anos, o Sporting Clube da Cruz conquistou títulos, enfrentou dificuldades e soube reinventar-se. Mas nunca perdeu aquilo que o torna único. Desde 1986 que tem estatuto de utilidade pública e, em 2016, foi distinguido com a Medalha de Mérito Desportivo da Cidade do Porto. O futuro passa por aumentar o número de sócios, apostar no futebol feminino (com, pelo menos, uma equipa de formação), reforçar a secção de atletismo, recentemente reativada, e novas modalidades.
107 anos depois, o Cruz continua a crescer… sem nunca deixar de ser o clube do bairro.

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