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setembro 2026
Luís Monteiro partilhava um escritório no Bonfim com Fred Menos, urbanista e músico, e Nuno Sanches, arquiteto, quando “surgiu a oportunidade” de se mudarem para o número 54 da Rua da Olivença, a dois passos da estação de metro de Faria Guimarães. As características da nova morada, localizada num edifício modernista “lindíssimo”, abriu portas também à criação de um polo dedicado à cultura, como conta o museólogo de 33 anos à Agenda Porto.
Com a desenvoltura de quem está habituado a expor ideias, Monteiro – que chegou à Assembleia da República com apenas 22 anos e foi deputado do Bloco de Esquerda durante duas legislaturas – apresenta o projeto de uma assentada, sem necessitar de perguntas. Começa pela “história particular” do prédio, “uma obra importante do modernismo da cidade”, projetada por Arménio Losa e Cassiano Barbosa, dois arquitetos que deixaram marca no Porto. O primeiro, marido da poeta Ilse Losa, “uma alemã judia fugida do regime nazi”, “tinha claramente uma inclinação república e democrática” e, pelas suas “posições contrários ao regime”, “nunca fez obra pública até 1974", só trabalhava para o setor privado. “Este edifício foi uma encomenda de um senhor chamado Custódio Lino, que tinha uma fábrica de candeeiros do outro lado da rua”, explica Luís, justificando o nome do novo espaço.
O tal empresário vivia numa casa em frente e, desde 1923, tinha a garagem transformada “numa pequena oficina, uma fábrica artesanal de candeeiros”. Em 1952, fez o encargo a Losa e Barbosa com a ideia de rentabilizar os apartamentos e usar “o rés-do-cão e o [piso] menos um como showroom dos candeeiros”. Até aos anos 1990, a garagem do edifício foi então “uma loja enorme como hoje temos o IKEA”, dividida por cenários domésticos: “todos os candeeiros de sala-de-jantar estavam enquadrados num ambiente de sala-de-jantar, com uma lareira, um sofá, etc., para os quartos a mesma coisa, para a cozinha também.”

"Arena" principal onde tem decorrido os eventos do Lino © Nuno Miguel Coelho
O nome de Custódio Lino ganhou expressão no setor e, no auge da sua empresa, nas décadas de 1970 e 80, “arquitetos como Siza Vieira, Alcino Soutinho, Souto de Moura e outros, encomendavam ali os candeeiros que desenhavam para os seus projetos”, recorda o investigador. “O Siza, inclusive, tem um conjunto de candeeiros desenhados, no início do seu percurso profissional, feitos ali na empresa Lino.” A fábrica fechou no final do século passado, o edifício “ficou com muito poucas pessoas a habitar e, entretanto, ficou vazio”, explica. “Foi adquirido muito recentemente por um arquiteto chamado Carlos Maia – que tirou um doutoramento sobre a arquitetura Arménio Losa – e está a ser reabilitado.”
Os pisos dos apartamentos vão continuar destinados a habitação, enquanto o rés-do-chão e o menos um passam a receber a atividade cultural do novo Lino. Luís Monteiro, Fred Menos e Nuno Sanches conheciam Carlos Maia e a “oportunidade veio enquadrar-se” numa preocupação que o trio, apesar de terem “idades diferentes e áreas de trabalho e de interesses muito diferentes”, partilhava: “começámos a sentir que a cidade do Porto, com o boom do turismo, começou a ter cada vez menos espaços low cost”, detalha o museólogo. “Para um músico hoje dar um concerto, vai eventualmente pagar alguma coisa para estar numa sala, e o mesmo para uma peça de teatro, uma conferência, um debate ou uma exposição.” No fundo, diz, querem responder ao que acham que “é uma necessidade da cidade”: “voltar a juntar comunidades”, sejam “de bairro ou temáticas, de artistas, de músicos, de investigadores, etc.” E é por isso que estão a “preparar o espaço para ser polivalente”.

Zona de bar provisória © Nuno Miguel Coelho
Umas luzes do que aí vem
O novo Lino está ainda “numa fase entres obras”. Já foram resolvidos “problemas estruturais, de humidade, de água, de eletricidade” e em breve a reforma será retomada para os dois pisos ficarem “apetrechados” com os recursos pretendidos, incluindo a instalação de um elevador que permita o acesso a pessoas com todo o tipo de mobilidade. Ainda assim, nos últimos meses, já foram feitos “alguns ensaios”. Desde abril, recebeu gente como os investigadores Manuel Matos Fernandes e Pedro Levi Bismarck, a psiquiatra Inês Homem de Melo e o ex-Ministro da Educação João Costa, o escritor Carlos Ramalhão e a sua nova editora, os historiadores Fernando Rosas e José Pacheco Pereira, o vereador da Cultura da Câmara do Porto, Jorge Sobrado, e ainda coletivos como a Casa da Poesia, o Alquimia (do Coliseu) ou a Porta-Jazz.
Durante um mês, acolheu a exposição Memórias à Procura de Lugar (enquadrada no doutoramento na área da Museologia que Luís está a realizar na Faculdade de Letras), que reunia “objetos e testemunhos de pessoas que estiveram presas no Porto, no edifício da PIDE, durante a ditadura”. A iniciativa atraiu “mais de 1200 visitas” e funcionou como “um pop-up do próprio espaço”, uma amostra do que o trio imagina para o projeto, já que incluía um “conjunto alargadíssimo de atividades” entre “debates, conferências, concertos, uma festa no 25 de Abril, sessões de poesia e de cinema”.

Sessão com Luís Monteiro, o historiador José Pacheco Pereira e o vereador da Cultura da Câmara do Porto, Jorge Sobrado. | © Lino
Apesar dos “problemas de acústica e de acesso ainda por resolver” no local, os fundadores do Lino ficaram “contentes com o resultado”. Até agora foi “tudo de acesso gratuito”, mas não fecham “a porta que haja, evidentemente, espetáculos ou atividades que sejam pagas”, até porque estão “abertos a receber pedidos de utilização do espaço que não sejam da programação do Lino”. Essa, de produção própria, será retomada em setembro de forma “mais regular”: “vamos ter todas as segundas, a fim da tarde/noite, aulas de [dança] folk; à quarta-feira, ao fim da tarde, sessões de teatro de improviso; uma vez por mês, uma noite de poesia; e vamos começar também a ter mais apresentações de livros, conferências, debates ou sessões de cinema organizadas por nós.” Para o fim do verão vão acolher a estreia de uma peça de teatro e, neste momento, “fazem parte de uma candidatura ao [projeto] RTP Palco”, ligada a um espetáculo “justamente para pensar como é que o teatro pode estar em sítios que não são à partida espaços de teatro”.

Inauguração da exposição Memórias à Procura de Lugar © Lino

Acesso a pátio exterior do Lino © Nuno Miguel Coelho
Umas luzes do que já foi
Ainda “numa lógica um bocadinho de estaleiro”, a equipa vai dedicando o “seu próprio tempo pro bono” para realizar as atividades, diz Monteiro, “e não podia ser de outra forma”. No futuro, planeiam “eventualmente lançar um crowdfunding” para melhorar os equipamentos técnicos e garantir “alguma qualidade visual e acústica”. O espaço terá também “um bar de apoio que não funcionará diariamente, apenas quando existirem eventos”, pois são “uma associação cultural, não um estabelecimento comercial”.
A zona a que chamam “palco, mas que na verdade é uma arena”, e onde outrora se estacionavam carros, está a ser preparada para funcionar como “espaço multifunções”. Tem já um sistema de som e cadeiras amovíveis, além de aproveitar “a arquitetura e algum legado” da antiga loja. Das “estruturas metálicas cruzadas” do teto, que antes se usavam para “pendurar centenas de candeeiros”, vão criar “uma teia de luz” e instalar “umas cortinas para fazer uma black box” necessária para espetáculos. “E ainda haverá uma parte à volta desse palco-arena, onde estará o café, que também dará para exposições, oficinas ou outro tipo de utilização”, continua o fundador. Há também “um pequeno jardim atrás e um pátio”, onde será criado “um jardim suspenso e que dará para outro tipo de atividades ao ar livre, sempre respeitando a nossa relação com a vizinhança”, ressalva Luís.
Para o fim do verão, o Lino está a preparar um fim de semana com propostas das áreas nas quais pretendem “vir a ter uma agenda regular”. Nessa rentrée, chamada Bagunça 2026, contam começar a conquistar o público logo com o encanto do espaço: “o edifício é muito bonito, nós nem precisamos de fazer nada, abrimos a porta e deixamos as pessoas entrar.”

Trio de fundadores do Lino: Luís Monteiro, Fred Menos e Nuno Sanches (da esquerda para a direita) © Nuno Miguel Coelho
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