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“No fundo, foi uma necessidade de voltar para casa, e queria muito que a minha filha tivesse a experiência de crescer no Porto como eu”, resume Rute Arnóbio para explicar porque surgiu, em 2005, o Águas Furtadas. A empresária de 45 anos conta que, depois de estudar Artes Digitais Multimédia na Universidade Católica, rumou a Lisboa, onde trabalhou em produção cultural, na Experimenta Design. Ali, lidou com gente que “já falava de sustentabilidade e de uma série de coisas que tinham mais que ver com a economia local” e aprofundou conhecimentos sobre “crafts e design”. Só que quando ficou grávida, aos 23 anos, decidiu com o marido “fugir de Lisboa”.
Arranjou trabalho numa produtora de animação 3D, mas rapidamente percebeu “que não queria estar fechada no escritório a trabalhar em frente ao computador”. A sua inquietação juntava-se às dos amigos, frequentadores de um popular local em Massarelos, no início do milénio: “Havia um espaço que era o Bazaar, em que se reuniu uma série de gente que hoje tem um papel muito ativo em várias áreas da cidade, desde restaurantes a clubes, e que foram depois o motor de muito do dinamismo do que é hoje o centro”. Rute descreve-o como “um movimento”, composto por “miúdos que estavam num Porto vazio, decrépito, em que não havia trabalho para ninguém das áreas artísticas” e cuja saída era “emigrar ou ir para Lisboa”. Mas nem todos, diz, aceitavam esse fado: “Havia alguns de nós que não queriam ir, queriam ficar cá”.
Foi entre esse grupo de jovens que, já depois do nascimento da sua filha Luz, se iluminou o caminho de Rute: criar “um espaço dedicado ao craft, ao design e à ilustração, tudo o que, no fundo, fosse português, feito em Portugal”. O projeto começou nas águas furtadas do Bazaar, que “era um bar, uma discoteca, e tinha a loja no topo”, daí o nome. Os senhorios “não cobraram renda no início”, conta Arnóbio, mas ainda assim “não havia dinheiro para comprar produto”, pelo que começou por se ligar a artistas que não tinham onde expôr as suas criações. Numa época em que surgiram os blogues e os portefólios online, a portuense, com uma perna partida na altura, lançou-se numa pesquisa exaustiva. “Foi um trabalho muito interessante”, recorda, em que encontrou “pessoas muito abertas” à ideia.

Rute Arnóbio fala sempre no plural, mas criou e lidera a solo o projeto Águas Furtadas © Sofia Hugens
Do alto do prédio para a Baixa da cidade
Quando o Bazaar fechou, o Águas Furtadas deixou o Cais das Pedras, junto ao Douro, e subiu até ao quarteirão das artes. “Fomos o primeiro projeto a fechar contrato no Centro Comercial Bombarda; aquilo existia há 10 anos e estava vazio”, lembra, saudosa. “Miguel Bombarda era o sítio onde nos sentíamos em casa”. Mais tarde, uma amiga desafiou Rute a integrar uma iniciativa ligada à “ativação da renovação do Passeio dos Clérigos”, que consistia em reunir “cinco ou seis projetos que não estavam no centro do Porto” numa “loja enorme vazia” durante a época natalícia. “Correu tão bem” que lá permaneceram por “um longo período, muito depois do Natal”, e só saíram porque “o desenho do espaço era para outro tipo de conceito”. Após o surpreendente sucesso, pôs-se “à procura de uma loja na Baixa para dar continuidade ao projeto e surgiu a Almada 13”.
O espaço tinha sido, no passado, um estabelecimento de venda de ferragens, como muitos outros da Rua do Almada. Mais recentemente, fora um local “muito giro” dedicado à decoração, “de produtos orientais”, recorda Arnóbio, mas já levava tempo fechado quando chegou o Águas Furtadas (de início, a partilhar morada com outros negócios, que entretanto saíram). Na manhã de sábado em que decorre a conversa com a Agenda Porto, há sempre pessoas a circular entre expositores de molduras com ilustrações, posters e esculturas de diferentes tamanhos, mas também roupa, acessórios e outros objetos decorativos. A variedade dá forma a esta concept store, como se diz no setor, apesar de Rute não gostar muito de rótulos. “Nós não temos, provavelmente, uma gaveta”, diz, “somos o que o público nos pede, aquilo que nós sentimos que nos apetece fazer”.
O rebuliço constante no estabelecimento e a “necessidade de ter um escritório” levou-a a abrir um segundo espaço, no número 44 da Rua de São Bento da Vitória. Chamou-lhe Padaria, em tributo ao antigo ofício praticado no local. Mas, como também ali as pessoas apareciam como pãezinhos quentes, e “estavam sempre a bater à porta”, o escritório fermentou noutra forma e passou a ser também uma galeria.

Se antes a relação entre visitantes locais e turistas "era de 50-50", desde as obras do metro que a percentagem de estrangeiros que entram na loja tem aumentado © Sofia Hugens
Uma porta sempre aberta e outras por abrir
Entretanto, o Águas Furtadas abriu-se “também a coletivos europeus e marcas europeias”, por exemplo “pequenos estúdios alemães muito interessantes”, explica a sua diretora. As voltas “do próprio mundo” levaram ao novo rumo. “A identidade portuguesa também mudou”, contextualiza Rute, “nós já não somos só portugueses, somos europeus”, sentimento que, segundo crê, era diferente há 20 anos: “Já éramos [da União Europeia], mas ainda não se sentia tanto”. E essa mudança refletiu-se também nos autores com quem trabalha. Começou “a ter uma questão ética” à medida que ia recebendo cada vez mais contactos de “artistas que não eram portugueses”, muitos “que estavam cá a viver”, daí que tenha decidido “abrir o conceito”.
Na loja Almada 13 vendem-se apenas coleções próprias, exclusivas. Como “muitos artistas tinham ideias e projetos”, mas careciam de “capacidade de produção”, o projeto aportou capacidade de investimento. Além de “convites directos” para exposições e curadoria, todos os meses lança chamadas públicas às quais “qualquer pessoa pode concorrer”. “Sempre fomos uma porta aberta”, diz Arnóbio. “O artista podia chegar aqui e apresentar peças, produtos… porque nós começámos assim: começámos a ir procurá-los e depois começaram eles a procurar-nos a nós”.
Antes da pandemia já tinham experimentado fazer convocatórias abertas, mas foi no confinamento, quando Rute e a sua equipa estavam “entediadas em casa”, que decidiram apostar no formato. “Fazíamos as chamadas através das redes sociais, recebíamos as coisas por email – às vezes havia artistas que iam entregar originais à porta da minha casa” –, conseguíamos enviar para a gráfica produzir e vendíamos online”. Hoje, fazem open calls de ilustração, de cerâmica, técnicas têxteis ou desenvolvimento de produto. “Nós estamos sempre a inventar, como eu costumo dizer”. Ou a reiventar: em 2022, o Águas Furtadas regressou a Bombarda, onde ainda se sente em casa, para abrir um terceiro polo, a galeria Cor Própria. Fica no número 129 da Rua do Rosário e ali, tal como na Padaria, programam exposições e desenvolvem projetos próprios.



“Para nós é muito importante ter liberdade de expressão, as pessoas querem dizer o que lhes apetece, não é?”
O orgulho de ser uma casa de artistas
Desafiada a destacar dois ou três dos artistas com quem tem trabalhado nas últimas duas décadas, Rute hesita: “Isso aí tem quase boca de barulho, não?!”. Defende-se dando o exemplo de Adriana Fontelas, que ali ao lado faz o atendimento ao público na loja. “Começou connosco, também trata da nossa imagem gráfica”, diz a patroa. “Ela entrou pela porta dentro a querer vender ilustrações a dois euros”, recorda, enquanto sorriem as duas. “Isso nem paga o papel que tens na mão, respondi-lhe eu”. Rute ajuda os artistas na vertente comercial, com dicas sobre como definir preços, valorizar e estruturar o trabalho ou, por exemplo, adaptar as criações a formatos vendáveis. “Há muita insegurança, especialmente nos jovens”, explica, pois “não percebem se vai haver recepção do produto”.
Adriana, que segundo Rute desde que chegou em 2018 “cresceu imenso”, juntou-se ao projeto enquanto ainda era estudante, tal como vários colegas que trabalham nos espaços do Águas Furtadas. A equipa, detalha a líder, é feita de “ilustradores, fotógrafos, arquitetos”, tudo “gente das artes”, e é uma “comunidade LGBTI…” – Rute perde-se na sigla, desculpa-se dizendo que teve uma “boa noite portuense” na véspera e também assume “não estar atualizada” na nomenclatura. Mas o que quer dizer é simples: são “uma casa” para toda a gente.
Fora, fica a censura. “Para nós é muito importante ter liberdade de expressão, as pessoas querem dizer o que lhes apetece, não é?”. O tema empolga Rute: “Todos os anos os nossos espaços vestem-se de 25 de Abril, porque se não fosse o 25 de Abril nós nem podíamos existir”. Acha a data “o maior marco de identidade contemporânea portuguesa” e defende que “a forma como foi feita a revolução” é “uma herança maravilhosa”, que “diz muito sobre nós como povo e para onde queremos ir”. O entusiasmo leva-a a recordar a coleção “Caminho de Lenços”, da autoria de Marta Nunes, "[uma artista] que é bastante conhecida no mundo da ilustração hoje em dia”. É um dos muitos nomes com reconhecimento no setor que trabalharam com a Águas Furtadas, e a sua primeira exposição foi na tal loja do Centro Comercial Bombarda. “Tenho muito orgulho de que a Marta tenha começado connosco, porque gostamos muito do trabalho dela”.

Montra da loja Almada 13 alusiva ao 25 de Abril © Sofia Hugens
Águas passadas movem moinhos do futuro
E qual a relação do Águas Furtadas com o turismo? O tópico surge porque, após meia dúzia de minutos de conversa, terão passado 20 turistas estrangeiros pela loja. “Tudo na vida tem problemas e tem coisas boas”, começa por dizer Arnóbio. Ressalva que não podem “ser ingratos” e admite que “para o crescimento do projeto [o turismo] foi ótimo” e ajudou “até a ganhar alguma confiança”, mas também mostra receios: “Por exemplo, não saber quanto tempo é que vamos aguentar uma loja por causa das rendas”, especialmente “quando acabarem as obras do metro”.
A preservação de uma certa identidade do Porto é uma preocupação sentida nas respostas da empresária. “Tenho filhos, que cidade é que lhe vamos deixar? A cidade vai continuar a ser deles?”. Interesse-lhe preservar o legado de quem vive o Porto como ela, mas não se coloca numa trincheira. “Há uma série de coisas complexas que estão a acontecer, mas que acho que se podem resolver, tem de haver discussão e espírito crítico. E alguma ação."

O letreiro da loja, tal como a imagem coorporativa da marca Águas Furtadas é da autoria do Studio Dobra © Sofia Hugens
O Águas Furtadas, que começou no alto, continua o seu caminho ascendente. Diversificou a oferta e já “exporta algumas coisas para outras lojas na Europa”, sem parar de pensar em coisas novas. Como a criação de “um guia do Porto” feito com “coisas mais locais”: “Às vezes, sentimos que muitas das pessoas que vêm cá não têm a experiência real da cidade, perdem-se um bocado numa cidade que também é real, mas é uma outra cidade que não é a que nós vivemos, que não é a nossa realidade”. Rute faz uma pausa, como que a deixar a ideia espreguiçar-se. “Um guia feito com, por exemplo, arquitetos da cidade ou pessoas que têm negócios cá há muito tempo”, como “o João Vieira, da Mint Mint, que é um dos DJ mais conhecidos e abriu uma loja de discos que é incrível”, ou João Maya, que gere o Auditório CCOP, onde ainda há umas semanas atuou Luz.
A filha que Rute fez questão de criar no Porto, e que entretanto se tornou cantora e vive em Berlim, veio apresentar Stories About the Colors, um EP descrito como um retrato das “diferentes fases emocionais do crescimento e da experiência de viver longe de casa”. Sintetiza tudo do que se falou neste texto: a procura de um caminho, a arte indie-pop, o cosmopolitismo e a pertença a um lugar.
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