EN

outubro 2026
“Se tu ganhasses o Euromilhões, o que gostarias de fazer da vida?”, perguntavam-se um ao outro quando se conheceram. A questão-clichê, segundo lhe chamam, fê-los perceber que criar um centro cultural era um sonho comum. A música Maria Carvalho Vazquez queria “um lugar que, através da arte, pudesse transformar de certa maneira a vida de algumas pessoas”; o bailarino Edmilson Botelho também, mas imaginava “um aqui e outro em São Tomé e Príncipe”, onde estão as suas origens. Faz a 1 de novembro um ano que abriram, no Porto, o Bamu Zunta Mon.
No segundo piso do 432 da Rua do Bonjardim, o casal uniu as suas artes e moldou a vontade partilhada. Já organizaram aulas, oficinas, exibições de filmes, conversas, concertos e convívios, diferentes caminhos para valorizar, “de forma crua”, distintas culturas. Promovem sessões semanais de dança, com vários estilos à escolha para quem quer experimentar ou é já experimentado, a solo ou a par, mas não querem, explica Maria, ser uma escola comum.
Por se aperceberem de que muitas “pessoas querem aprender passos” mas “não sabem de onde vem” cada género, pretendem que as formações transmitam “a cultura envolvente”, ou seja, uma contextualização histórica e social que mostre “tudo o que implicou” o surgimento daquela prática. Uma intenção que, mais do que orientar uma linha de programação, é uma forma de posicionamento: “quem vem aprender semba não vem aprender [apenas] uns passos de semba, vem aprender cultura angolana”.
A pretensão impregna outras atividades, como nos seus Cantos em Travessia, jantares-concerto em que que os convidados falam “sobre o seu país, de onde vem aquela música, como é que foi construída”. “Claro que tem de ser um momento de diversão, mas tem de ter essa essência, preferimos pôr as pessoas a pensar um bocadinho”, completa a portuense. Dá ainda o exemplo da rubrica Conversar o Mundo, projeções de documentários seguidas de conversas sobre “várias problemáticas”, para incentivar à reflexão “sobre o que estamos aqui a fazer, qual é o nosso papel aqui no meio”. Maria serve-se de uma frase do amigo Chico Bastos, músico brasileiro que ali orienta um laboratório de choro, para resumir a ideia: “a arte é a melhor forma de conhecermos uma cultura”.

Maria Carvalho Vazquez trabalhava numa empresa de software antes de fundar o Bamu Zunta Mon. | © Guilherme Costa Oliveira

Edmilson Botelho nasceu em São Tomé, mas foi no Porto que encontrou blues e o lindy hop. | © Guilherme Costa Oliveira
A preocupação do Bamu Zunta Mon com as raízes de cada forma de expressão vê-se também no respeito pelo seu estado original. “Uma pessoa fez-me uma queixa, disse que eu não sabia dançar kizomba, e fiquei a tentar entender o que ela queria dizer”, recorda Edmilson, sorrindo. Percebeu que “não respeitava o padrão” da forma “europeizada” que o ritmo angolano ganhou nos últimos anos. “Quando uma cultura chega ao exterior, precisa de ser adaptada, e é normal, porque as pessoas [de fora] não estão habituadas a essa forma de estar; o que aconteceu com a kizomba é que essa adaptação mudou um pouco o que vinha de trás”. O bailarino diz que o estilo perdeu um lado “de improvisação”, de experiência social, e que a sua padronização resulta também de uma determinada “supremacia europeia” que se impõe sobre “muitas culturas, especialmente de África, e que de certa forma desvaloriza a sua real essência”. Acrescenta que “há coisas que podem ser muito simples de entender, mas é preciso vivê-las para fazer parte [delas]”. Brinca que chega a ver gente “dançar kizomba fazendo só um passo durante uma música inteira”, mas com isso não quer dizer que “não haja alma, não haja entrega”. Defende que “são formas de estar diferentes que não se podem julgar”, até porque acha que “a kizomba está a crescer muito com essa mudança”. O que ele gostaria é que não a entendessem apenas “por aqueles padrões, porque tem muito mais do que isso”.
A imersão numa dança para lá da sua coreografia faz parte do percurso profissional de Botelho. Especializou-se em blues e lindy hop, estilos que, por virem de outras latitudes, lhe exigiram “ir mais fundo” e frequentar “aulas com nativos”. “Descobri que essas danças têm muito que ver com a minha cultura, também com a de Angola e não só, porque a base dos passos, dos instrumentos, dos ritmos, são todos muito parecidos”. Até no contexto social em que se originaram esses géneros afroamericanos encontrou espelho no passado de São Tomé e Príncipe, onde surgiu a puíta, estilo cujo “ritmo está muito presente no blues”, diz. Nas aulas que dirige, o bailarino convida as pessoas a entender “como cada dança evoluiu”: “no Texas o blues dança-se de uma forma, em Memphis de outra, no Mississippi de outra… tudo isso é rico, é cultural, é histórico e é identidade”. E com swing nas palavras, regressa à kizomba: “cá, perdeu alguma identidade, ou melhor, perdeu algum ponto, transformou-se – e isso é bom, a cultura transforma-se, é assim que também evolui”.
Entre 9 e 11 de outubro, o Bamu Zunta Mon organiza a terceira edição do Blues Juke Joint Weekend, festival descrito como um “braço da associação” e que vai pôr muita gente a dar à perna no seu espaço e no d’A Beneficência Familiar, ali perto. Será um encontro internacional de “pessoas a celebrar o blues”, indica Edmilson. “Os juke joints eram aqueles pequenos bares onde a comunidade negra se conseguia concentrar para partilhar os seus males, para cantar os seus males, e bens também!”, detalha. “O blues surge nesses espaços, onde não havia as condições que hoje encontramos num bar, era tudo o mais rústico possível, com pouca luz…”. “Era tudo em segredo, não se podiam expressar”, acrescenta Maria, antes de o companheiro voltar ao festival: “conseguimos trazer pessoas do Brasil, dos Estados Unidos, de boa parte da Europa, e até da China vem pessoal para dançar”.

Laboratório de choro Saberes que Passam, orientado pelo músico e compositor brasileiro Chico Bastos no primeiro sábado de cada mês. | © Guilherme Costa Oliveira
“Mostrar as culturas” dos países africanos de língua portuguesa foi um foco desde o início. A começar pelo de Botelho: “os nossos primeiros eventos foram para mostrar a puíta, a dança tradicional de São Tomé e Príncipe, e mesmo na inauguração tivemos calulu [prato típico do arquipélago] feito pela mãe dele”, conta Carvalho Vazquez. Servem petiscos também nos tais jantares-concerto, “comida tradicional de Moçambique, de Angola, de São Tomé, de Cabo Verde…”, mas é apenas ponto de partida: “queremos ir para o mundo, ou seja, começar aqui, mas alargar”, aponta Maria. “E o nosso nome vem daí”.
Bamu Zunta Mon foi retirado de uma música dos Calema, em que a dupla canta “Bomu zunta mon / Bomu naqui o vofa / Zunta mon fesu ba sola ba tela no bawê” (“Vamos juntar as mãos / Vamos não ter receio nem vergonha / juntar as mãos como a base de uma vassoura para a nossa terra crescer”). O trecho está escrito em forro, um “crioulo de São Tomé”, diz Edmilson, para logo corrigir: “gosto mais de dizer língua de São Tomé”. “A nossa vassoura não é como as de cá, é com folhinha de palmeira – e se as juntarmos, pouco a pouco, construímos uma vassoura”.
Os primeiros dedos que se começaram a entrelaçar foram, claro, os do casal e do seu entorno. Somaram-se depois os de familiares e amigos, como Tony Mondlane, que “dá as aulas de danças tradicionais moçambicanas”, ou os de “muita gente brasileira” próxima. Um dos desafios agora é atrair público africano. Encetaram algumas relações, contactaram “associações de estudantes” de países da CPLP e querem tornar o seu projeto cada vez “mais acolhedor para todos”, transformá-lo num “espaço-casa”. Aspiram até, um dia, criar “um projeto social” que ajude no acolhimento desses jovens, para que se sintam menos “perdidos” à chegada, como passou a Edmilson. “Todas as pessoas que vêm devem sentir um bocadinho isso”, diz Maria.

No Bamu Zunta Mon há aulas semanais de dança, com vários estilos à escolha para quem quer experimentar ou é já experimentado, a solo ou a par. | © Guilherme Costa Oliveira
O caminho também passa por Portugal. Botelho destaca que, por a companheira integrar as Sopa de Pedra, coletivo portuense de canto a capella, teve a possibilidade de entrar no universo da música tradicional portuguesa, que diz não ter “nada a ver com o que se vê por fora”, e lhe permitiu conhecer “músicos que constroem instrumentos, como adufes, coisas bastante técnicas”. Como imigrante, refere que pouco ouve falar deste lado da cultura nacional, antes de reforçar que o que procuram é isto mesmo: gente que tenha convivido com traços identitários de diferentes culturas e os queira “comentar ou partilhar”, seja de África, da Europa, de onde for.
Para registar os primeiros passos da associação, e “para passar um bocadinho do lado interno”, estão a gravar um documentário. A vontade complementa-se com uma newsletter mensal, As Cartas do Bamu, em que além de divulgar a agenda refletem sobre os desafios que vão surgindo, “aquilo que não se vê, e que acaba por se tornar um bocado mais em ligação humana”. Uma forma de transformar desconhecidos em amigos, diz. Para já no Porto, um dia talvez em São Tomé ou noutro destino.

Faz em novembro um ano que Maria e Edmilson abriram as portas da sua associação. | © Guilherme Costa Oliveira
Share
Relacionados