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julho 2026
“Transeunte é uma palavra que parece conter o ‘eu’ dentro dela, mas é um ‘eu’ múltiplo que vai mudando de estado e se vai transformando”, introduz Aura, diretora artística do espaço Asterisco, desfiando o mote da segunda edição do festival homónimo: Estados Transeuntes. Entre 3 e 5 de julho, sete artistas e coletivos nacionais e internacionais passarão por Serralves e por vários espaços culturais e artísticos do Bonfim e de Campanhã para mostrar obras que retratam “estados de migração, fluidez e transição”.
A interseção entre os circuitos artísticos alternativo e institucional é a grande novidade do festival, que ganha mais um dia de programação. “Havia uma vontade de levar a cultura underground às instituições e trazer mais visibilidade aos artistas independentes e aos espaços autogeridos”, justifica. Em Serralves, as honras de abertura caberão a Joshua Serafin, artista filipino-belga que apresentará, na sexta-feira, às 19h30, a performance Relics: An Eye Once Blind, sobre esquecimento e trauma colonial.
A contaminação entre underground e institucional concretiza-se, também, através de uma parceria estabelecida com a Future Ritual, plataforma independente criada por Joseph Morgan Schofield, curador dos programas públicos dos museus Tate Modern e Tate Britain, no Reino Unido. Schofield participará no festival com with bare feet touching the sky I yearn, reflexão sobre desejo, luto e transcendência que ocupará a CRL – Central Elétrica no sábado, às 21h30.
A criação de redes de apoio e parcerias a longo prazo é um dos objetivos do Asterisco, mas a programação é, em si mesma, resultado do contacto e relação prévia do coletivo com diversos artistas e obras. Em alguns casos, Aura viu outras peças dos criadores no estrangeiro e decidiu convidá-los a virem ao Porto. Noutros, já existia uma relação vinda de trabalhos anteriores, em que Aura foi intérprete nas suas obras ou vice-versa, ou a partilha de determinada etapa de um processo de criação envolvendo diferentes disciplinas.

Aura, diretora artística do Asterisco © Guilherme Costa Oliveira

Sol Santana, Transit © Faye Yan
Este último lote abrange performers como Sol Santana, que apresentará Transit, obra sobre um corpo em trânsito entre identidades e geografias, às 19h00 de sábado, no PAZ – Performance Arts Zone; Carincur, autora de From a Liquid Memory, peça centrada num tanque com hidrofones que permitirá escutar paisagens líquidas, que pode ser vista no domingo, às 18h00, n’O Lugar da Palmilha Dentada; e Xana Novais, que apresentará a instalação duracional …ao que isto chegou a partir das 13h00 na Fisga Warehouse – espaço que, pela primeira vez, recebe o festival.
“Ela está a vender o seu próprio corpo ao público, levantando esta questão sobre a prostituição da arte e mostrando transações que acontecem dentro do setor”, refere Aura sobre aquele que será um dos destaques do certame. O espetáculo acontece ao longo de seis horas, mas o público permanece apenas o tempo que desejar. “Haverá bebidas e zona de terraço para as pessoas apanharem ar.”
Além dos espetáculos, o Festival Asterisco vai promover a oficina Ternura Radical com a dupla janne&tabea, no sábado, às 10h00, na Junta de Freguesia do Bonfim, e dinamizar momentos de convívio como uma conversa e um jantar com artistas, programadores e público, às 16h00, no Asterisco, e às 19h00, na CRL – Central Elétrica, respetivamente. A festa de encerramento decorre no domingo, às 19h00, no JAM Porto, e estará a cargo do coletivo Fylhas do Dragão.
Tal como na primeira edição, os eventos do festival têm entrada livre, mas a bilheteira funciona por reserva e com base no donativo consciente. “Não queremos que [o preço] impeça as pessoas de virem com as suas famílias”, vinca a diretora artística. Porém, Aura reconhece que as propostas “experimentais e radicais” apresentadas podem dissuadir determinados públicos. “O foco acaba por ser mais a comunidade artística, mas toda a gente é bem-vinda.”
Futuramente, o festival pretende aprofundar a sua ligação ao universo institucional e apostar na internacionalização. “Muitos artistas em Portugal queixam-se da dificuldade de circularem no estrangeiro”, observa. Aura gostaria de ver o Asterisco transformar-se num “festival itinerante que acontece não só no Porto, mas noutras cidades de outros países”, levando os artistas a mostrar as suas obras nacional e internacionalmente. Para já, será ela a encabeçar esse intercâmbio artístico. Depois da performance de Joseph Morgan Schofield no Asterisco, Aura estará no festival da Future Ritual, em Londres, em novembro.

Xana Novais, ...ao que isto chegou © O FOSCO / Rita Soeiro
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