EN

Stromboli © Gil Delindro
Janeiro 2026
Nos dias 29 e 30 de janeiro, a Central Elétrica vai acolher a 6.ª edição do WATTS, um ciclo sonoro cuja programação se afirma como "um espaço de resistência, pensamento crítico e cruzamento disciplinar". Música, som, performance e artes visuais encontram-se num evento de dois dias, de entrada gratuita, que vai contar com nomes como Gil Delindro, Catarina Vieira, Raquel André, Maria Reis e Violet. A Agenda Porto esteve à conversa com o diretor artístico da Circolando – Central Elétrica sobre este ciclo sonoro.
Segundo André Braga, a programação desta edição articula-se em torno de “um gesto de resistência aos tempos de devastação social, ambiental e política”. “Todos os projetos convocados partem de cenários de catástrofe”, mas recusam o pessimismo absoluto, abrindo espaço à ideia de esperança.
Um dos exemplos mais claros é o projeto Lugar X, da artista transdisciplinar Catarina Vieira, que esteve a trabalhar com a Central Elétrica em Azevedo de Campanhã, “num monte de lixo, que parece uma montanha, mas não é”.
A partir dessa paisagem ambígua, a artista escreveu textos que ficcionam histórias “sobre aquilo que nasce no meio da destruição”. Esses textos foram posteriormente musicados e dão agora origem a um audiolivro, com sonoplastia de Yaw Tembe e Artur Moura, que será apresentado no WATTS, acompanhado por um pequeno concerto.

Catarina Vieira, Lugar X © Sebastià Masramon
"Nós organizamos o ciclo a pensar num gesto de resistência aos tempos que correm e a esta devastação que sentimos que existe."

André Braga © MR

Gil Delindro, Cortiça Ardida © DR
Também Gil Delindro, nos trabalhos que vai apresentar, explora a ideia de resistência da matéria e da natureza. Em Cortiça Ardida, o artista sonoro e visual criou uma grande instalação feita a partir de um sobreiro queimado, numa homenagem à prática artesanal dos portugueses que trabalham na extração da cortiça, e simultaneamente uma referência aos incêndios que alastraram em 2021.
Além da instalação, Delindro apresenta Lava Lavra, um concerto-performance, construído a partir de imagens e sons recolhidos nos vulcões Etna e Stromboli, em Itália.
A programação inclui ainda Belonging [Pertença], de Raquel André, um espetáculo de cinema com música ao vivo “onde as tentativas de captura do sentimento de pertença são formas poéticas de contar a história pessoal de alguém”. “A Raquel André tem um projeto em que ouve histórias de pessoas e viaja com elas; neste caso, o projeto parte da história pessoal de Aliu Baio, um baterista que viveu até aos nove anos na Guiné e que hoje é cego”, desfia o diretor artístico.
Através de uma viagem de regresso aos lugares da sua infância e da escuta das suas memórias, o espetáculo questiona o que significa pertencer a um lugar, a uma cidade, a uma família ou a um país. “Interessa-nos muito questionar este sentimento de pertença”, sublinha André Braga.
No plano musical, Maria Reis (Pega Monstro) apresenta Suspiro, álbum lançado no ano passado, onde escreve “canções bonitas” sobre o quotidiano com uma delicadeza assumida.
Já a DJ Violet traz um projeto desenvolvido para o Lisboa Soa 2023, que revisita canções da Revolução e música de intervenção, transformando-as em matéria dançável. "É uma abordagem curiosa; não é só um DJ set, embora achemos que a festa é um lugar de luta e de resistência”, conclui o diretor artístico.
O WATTS é o primeiro de quatro ciclos que serão apresentados pela Circolando – Central Elétrica ao longo deste ano, nomeadamente o VOLTS, mais focado nas artes performativas; o Curto-Circuito, pensado para um público jovem, e o Fio Condutor, que acontece fora da Central Elétrica, no território.

WATTS, 2025 © Inês Costa
Share
FB
X
WA
LINK
Relacionados