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A Viga quer criar um Quarteirão Aberto em Carolina Michaelis
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Este ano, o Cultura em Expansão apoia 18 projetos de cocriação comunitária e de criação participada. Até ao lançamento do programa, partilhamos entrevistas com representantes das estruturas artísticas selecionadas.
A Viga quer criar um Quarteirão Aberto

Quase no fim da Rua de Oliveira Monteiro, mesmo ao virar da esquina da estação de metro de Carolina Michaelis, Filipa Souto — de nome artístico Pipa Krua — recebe-nos no novo espaço da Viga.


Quem espreita para dentro do estúdio — e tiver a sorte de ser seguido pela cadela residente, a Lata — depara-se de imediato com a exposição As the wind is about to meet the leaves, de Sara Gonçalves. As cores vibrantes, que são já assinatura da artista portuense, contrastam com uma peça têxtil que separa a galeria de um ateliê fortemente habitado.


Naquele espaço amplo, entre telas, tintas, livros e ainda um terraço fresco, trabalham cinco artistas residentes que se dividem por uma miríade de artes visuais: Santa Maria, Mãos Largas, Joana Castro, Carolina Grampin e Pipa Krua. Estivemos à conversa com a última não muito longe de onde fica a sua roda de oleiro para nos falar do projeto Quarteirão Aberto, um dos selecionados em 2026 dentro da modalidade de criação participada.

Cultura em Expansão: De onde surgiu esta ideia de fazer um Quarteirão Aberto?  


Pipa Krua: Nós estávamos localizados no quarteirão Miguel Bombarda e começámos a pensar em mudar de espaço, porque já éramos cinco artistas, só que tínhamos pouco espaço para trabalhar. Tínhamos uma localização incrível — estávamos ali mesmo no meio das artes todas — mas queríamos expandir e ter mais espaço para cada um. Começámos a namorar a ideia de ir para um quarteirão diferente, um que não tenha imensa arte, e descentralizar um bocadinho — sair dali [Miguel Bombarda] e aproveitar tudo de bom que conseguimos tirar daquele espaço, porque tivemos uma comunidade incrível à nossa volta, conhecemos imensa gente, tivemos muitas pessoas a passar. Mas queríamos focar mais na nossa prática artística e ter isso como prioridade, e ao mesmo tempo trazer um público diferente. A nossa missão, enquanto espaço, é levar a arte ao dia-a-dia de qualquer pessoa. As pessoas estarem perto de casa, estarem a passar e, de repente, entrarem e verem-nos a trabalhar, conversarem connosco, terem arte presente. E neste sítio tínhamos a possibilidade de explorar esse lado, o que, para nós, foi chamativo.


CE: Tendo este objetivo de viver mais a zona de Carolina Michaelis, como tem sido a relação com os vossos vizinhos?


PK: Nós acabámos de nos mudar, mas têm-nos recebido bem. Temos uma vizinhança de pessoas que vivem aqui desde sempre, porque é uma área bastante residencial. E já começámos a conhecê-las. Através da nossa candidatura ao Cultura em Expansão, tivemos a ideia de fazer intervenções artísticas aqui no bairro, em cada espaço, em cada negócio local. E isso fez com que nos fôssemos apresentar logo. Na primeira semana cá, fomos a todos os espaços, dissemos que gostaríamos de colaborar com eles, e isso abriu-nos logo portas para uma relação. E é, de facto, assim, porque agora vamos ao Café Dallas, vamos ali à frutaria, e as pessoas já nos conhecem, já gostam do nosso trabalho, já estão entusiasmados com o que viemos fazer. Já começámos a criar estas relações, mas estou na esperança de que, com estas oficinas que vamos fazer agora, seja possível consolidá-las melhor.

A Viga quer criar um Quarteirão Aberto

© Renato Cruz Santos

A Viga quer criar um Quarteirão Aberto

© Renato Cruz Santos

CE: As oficinas serão organizadas pelos artistas do estúdio?


PK: Vamos ser os cinco: o Santa Maria, eu (Pipa Krua), a Mãos Largas e a Carolina Grampin. E, entretanto, já recebemos a nossa quinta artista, que é a Joana Castro. Portanto, vamos fazer cinco oficinas e ainda pensámos se convidaríamos artistas de fora ou não, mas como nós queremos muito que isto tenha repercussões futuras, fez mais sentido ser algo interno. Queremos que as pessoas passem pelo estúdio e saibam perfeitamente quem é que nós somos. Portanto vai ser tudo cá dentro e com os artistas residentes. 


CE: A vossa ideia é fazer não só uma exposição aqui no espaço, com os trabalhos desenvolvidos durante estas oficinas, com pessoas que, à partida, tenham um contacto menos frequente com artes visuais, como também expor nos vários comércios locais. Como é que podem ser criados laços, estando as obras da comunidade expostas nos diferentes espaços?


PK: Honestamente, já nem me lembro de como é que esta ideia surgiu. Porque é exatamente isso: as pessoas não têm ligação e nós não queremos que tenham uma só connosco. É muito bom que se sintam bem--vindas a passar na Viga — no dia-a-dia, ou numa exposição — mas o objetivo final deste projeto e deste tipo de concursos [Cultura em Expansão] é mesmo as pessoas conhecerem o bairro, conhecerem-se uns aos outros, desenvolverem mais relações através da arte. A arte acaba por ser também um meio e não só um produto final. Há pessoas que demoram a desbloquear a sua relação com a arte — nós, que trabalhamos nisto todos os dias, já estamos mais à vontade, claro. Acho que era muito giro as pessoas sentirem que têm ligação com vários pontos — com o seu bairro, a sua comunidade —  e depois poderem passar nesses sítios. De repente, verem uma peça que criaram exposta na frutaria ou na Escola de Dança Sabor Latino — e mostrar a outras pessoas, ou poderem falar sobre isso. Há logo um desbloqueador de conversa, uma vontade de querer ir lá para ver o que é que o outro fez. É uma oportunidade de motivar o próprio bairro e a comunidade a conhecerem-se e a fortalecer essas ligações.

A Viga quer criar um Quarteirão Aberto

Filipa Souto (Pipa Krua) © Renato Cruz Santos

CE: E a quebrar a rotina também, para alguém que não pratica a sua veia artística, mas por ter uma obra exposta na sua zona de residência.


PK: É entusiasmante. Mesmo que exista, por vezes, algum nervosismo à volta disso, no final é entusiasmante. Como vamos ter pessoas de backgrounds completamente diferentes, nós estamos também a mostrar que a valorização está muito mais no processo e no explorar da técnica do que na coisa final. Qualquer tipo de trabalho vai ter muita qualidade. Não será preciso ter-se imensa experiência prévia para se sentir orgulho de uma coisa que se fez. Quando uma pessoa vê uma cianotipia feita por eles, já exposta, surge logo um quentinho.


CE: Sentem que há áreas de Carolina Michaelis que querem trabalhar mais, ou pessoas que querem imediatamente chamar?


PK: Nós fizemos um mapa, porque tivemos uma dificuldade: o que é que é exatamente o bairro? Não existe um bairro pré-determinado nesta zona de Carolina Michaelis — não é muito óbvio onde é que começa e onde é que acaba. Então fizemos um mapa de até onde é que iríamos, para termos umas linhas gerais por onde nos orientarmos. Agora vamos começar a convidar as pessoas. Já fomos falando — sempre que falamos com vizinhos, avisamos “vamos fazer isto”. Mas agora vamos mesmo tocar nas campainhas, deixar cartas nas caixas de correio, falar com as diferentes instituições e espalhar a mensagem de que este projeto vai mesmo acontecer. Mas ainda não conseguimos perceber muito bem o que é que pode entusiasmar mais as pessoas. Dentro deste mapa estão todos os espaços com quem nós falámos para participar no projeto — até agora são oito negócios locais.


CE: De que forma é que pretendem integrá-los?


PK: Nós falámos com estes diferentes negócios para expor lá trabalhos. Ninguém nos disse que não — o que achámos mesmo giro. Não é assim tão óbvio mexermos na identidade visual do espaço, mas as pessoas ficaram muito entusiasmadas. Agora que estamos a começar a distribuir os convites, também vamos deixar especificamente nesses sítios para poderem divulgar. Como agregam naturalmente pessoas aqui à volta, é fácil assumirem esse papel. E nós, na altura, quando nos apresentámos, começámos a dizer “tem que vir à oficina; tem que experimentar pintura ou azulejo” e os comerciantes ficavam um pouco nervosos, mas nós queremos mesmo puxar por eles.

A Viga quer criar um Quarteirão Aberto

© Renato Cruz Santos

Lê a entrevista completa no site do Cultura em Expansão.

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