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Em 2026, celebra-se o centenário de uma das maiores actrizes e ícones populares de sempre: Norma Jeane Mortenson (1926-1962), ou, mais propriamente, Marilyn Monroe. Figura bigger than life, tanto no cinema como, sobretudo, na vida (bigger than cinema, então? Será isso possível?), mito por excelência, a actriz norte-americana permanece ainda hoje, porém, uma figura mal-conhecida. Entre os públicos mais jovens, então, pouco ou nada se saberá sobre Marilyn Monroe para além do estereótipo de sex symbol (com o qual, de resto, manteve uma relação ambígua, ora orgulhosamente o celebrando, ora rejeitando-o).
A mulher cuja voz a cantar os parabéns a John F. Kennedy ficou eternizada no ouvido popular foi, antes de tudo o mais, uma magnífica actriz (e cantora, bailarina, entertainer, inclusivamente autora de poesia). O ciclo propõe, através de seis filmes, alguns deles verdadeiras pérolas por (re)descobrir, uma revisitação à sua relativamente curta mas inesquecível carreira, oferecendo um olhar panorâmico e crítico sobre o seu trajecto artístico, longe da sua redução a mulher-fetiche, objecto de desejo ou mera femme fatale.
Nos filmes que interpretou, ao lado de alguns dos maiores realizadores da história do cinema (Fritz Lang, Billy Wilder, Howard Hawks, John Huston, George Cukor), Monroe foi, veramente, muito mais do que isso: mulher consciente do valor do seu corpo e do que isso lhe permite num sistema que não oferece outras formas de agência e poder às mulheres; vítima do amor masculino possessivo e violento e batalhadora pela sua independência; alguém consciente de padrões relacionais abusivos e que tenta, mesmo se fracassadamente, quebrá-los; ser frágil e hiper-sensível (a coisas tão simples e díspares como a um odor, a um entardecer, ao sofrimento dos outros ou dos animais); figura sexualmente poderosa e moralmente ambígua que paga um preço alto pela transgressão num sistema punitivo de mulheres que desafiam as normas.
Neste trajecto, pretende-se, pois, dar a conhecer alguns dos seus títulos menos vistos (ou mal vistos), e nos quais desempenhou personagens complexas e dificilmente categorizáveis. Simultaneamente, tomaremos pulso a diversos géneros cinematográficos (film noir, western, comédia, musical, drama, thriller psicológico), aos quais Monroe se adaptou sempre com o maior dos à-vontades (mesmo se, até ao último momento, duvidou profundamente, patologicamente mesmo, do seu talento), auscultando, a uma escala maior, as perturbações político-culturais de todo um país e o lugar da mulher (ou do “Índio”, por exemplo) na complexa sociedade norte-americana, num momento em que a segunda vaga do movimento feminista fazia o seu caminho (anos 50/60).
Singular e complexa, ora adoptada, ora rejeitada pelos movimentos feministas (como ganhar a simpatia destes quando, no único filme produzido pela sua produtora indepentente Marilyn Monroe Productions, The Prince and The Showgirl/O Príncipe e a Corista, título no qual pôde colocar o seu dedo nas decisões de produção, a sua personagem pouco ou nada tem de emancipador ou, enfim, “feminista”?), Marilyn Monroe, figura definitivamente não etiquetável (como hoje sói hoje fazer-se no tribalismo das redes sociais), teve nos seus filmes e nas personagens neles desempenhadas um constante e perturbador “reenvio” para a sua vida pública e privada (se é que elas se distinguem). Frequentemente, as suas personagens biografam, ecoam ou antecipam aquilo que a Monroe actriz atravessa na sua vida pessoal, desde o início marcada pelo infortúnio e o sofrimento (sem pai biológico e com a mãe internada num hospital psiquiátrico, viveu em orfanatos e famílias de acolhimento, sendo abusada física, psicológica e sexualmente pelo caminho, bem como vítima de violência doméstica na vida adulta). De facto, talvez tenha sido a única actriz na história do cinema cuja personagem é nomeada nos créditos de um filme (The Seven Year Hitch/O Pecado Mora Ao Lado, 1955, de Billy Wilder) sem nome próprio (apenas como “The Girl”) pelo facto de, como escreveu João Bénard da Costa, tal personagem ser nada mais, nada menos do que… ela própria, Marilyn Monroe.
Finalmente, e tendo em conta o desconhecimento do público mais jovem sobre quem foi, de facto, Marilyn Monroe, o programa permite também, num tempo em que o machismo e a misoginia recrudescem sem pudor através das redes sociais, da “manoesfera”, enfim, dos “influencers”, bem como, claro está, de movimentos políticos ultra-conservadores (a começar na terra-natal de Monroe, actualmente sob a alçada de um governo de extrema-direita), pensar e debater criticamente o papel de Monroe e da Mulher enquanto agentes de emancipação e transformação política e cultural.
Francisco Noronha
QUEM ÉS TU, NORMA JEANE? 100 ANOS DE MARILYN MONROE
Programação: Francisco Noronha
5 maio
18h00: Don’t Bother to Knock/Os Meus Lábios Queimam (Roy Baker, 1952)
Convidados: Manuela Hargreaves (historiadora de arte) e Marina Leonardo (actriz e realizadora)
21h30: Niagara (Henry Hathaway, 1953)
Convidados: Daniela Rôla (crítica de cinema) e Cláudia Coimbra (investigadora)
6 maio
18h00: River of No Return/Rio Sem Regresso (Otto Preminger, 1954)
Convidados: Vítor Ribeiro (director e programador do Cineclube de Joane) e Ana Carneiro (directora e programadora do Cineclube do Porto)
21h30: Bus Stop/Paragem de Autocarro (Joshua Logan, 1956)
Convidados: Daniel Marques Pinto (professor universitário) e Pedro Ludgero (músico e realizador) [Podcast “Noites de Cabíria”]
8 maio
21h30 Let’s Make Love/Vamo-nos Amar (George Cukor, 1960)
Convidados: Miguel Ramalhete Gomes (professor universitário) e José Reis (professor universitário)
9 maio
21h30 The Misfits/Os Inadaptados (John Huston, 1961)
Convidados: António Roma Torres (psiquiatra e crítico de cinema) e Bernardo Pinto de Almeida (historiador de arte e ensaísta)
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Em 2026, celebra-se o centenário de uma das maiores actrizes e ícones populares de sempre: Norma Jeane Mortenson (1926-1962), ou, mais propriamente, Marilyn Monroe. Figura bigger than life, tanto no cinema como, sobretudo, na vida (bigger than cinema, então? Será isso possível?), mito por excelência, a actriz norte-americana permanece ainda hoje, porém, uma figura mal-conhecida. Entre os públicos mais jovens, então, pouco ou nada se saberá sobre Marilyn Monroe para além do estereótipo de sex symbol (com o qual, de resto, manteve uma relação ambígua, ora orgulhosamente o celebrando, ora rejeitando-o).
A mulher cuja voz a cantar os parabéns a John F. Kennedy ficou eternizada no ouvido popular foi, antes de tudo o mais, uma magnífica actriz (e cantora, bailarina, entertainer, inclusivamente autora de poesia). O ciclo propõe, através de seis filmes, alguns deles verdadeiras pérolas por (re)descobrir, uma revisitação à sua relativamente curta mas inesquecível carreira, oferecendo um olhar panorâmico e crítico sobre o seu trajecto artístico, longe da sua redução a mulher-fetiche, objecto de desejo ou mera femme fatale.
Nos filmes que interpretou, ao lado de alguns dos maiores realizadores da história do cinema (Fritz Lang, Billy Wilder, Howard Hawks, John Huston, George Cukor), Monroe foi, veramente, muito mais do que isso: mulher consciente do valor do seu corpo e do que isso lhe permite num sistema que não oferece outras formas de agência e poder às mulheres; vítima do amor masculino possessivo e violento e batalhadora pela sua independência; alguém consciente de padrões relacionais abusivos e que tenta, mesmo se fracassadamente, quebrá-los; ser frágil e hiper-sensível (a coisas tão simples e díspares como a um odor, a um entardecer, ao sofrimento dos outros ou dos animais); figura sexualmente poderosa e moralmente ambígua que paga um preço alto pela transgressão num sistema punitivo de mulheres que desafiam as normas.
Neste trajecto, pretende-se, pois, dar a conhecer alguns dos seus títulos menos vistos (ou mal vistos), e nos quais desempenhou personagens complexas e dificilmente categorizáveis. Simultaneamente, tomaremos pulso a diversos géneros cinematográficos (film noir, western, comédia, musical, drama, thriller psicológico), aos quais Monroe se adaptou sempre com o maior dos à-vontades (mesmo se, até ao último momento, duvidou profundamente, patologicamente mesmo, do seu talento), auscultando, a uma escala maior, as perturbações político-culturais de todo um país e o lugar da mulher (ou do “Índio”, por exemplo) na complexa sociedade norte-americana, num momento em que a segunda vaga do movimento feminista fazia o seu caminho (anos 50/60).
Singular e complexa, ora adoptada, ora rejeitada pelos movimentos feministas (como ganhar a simpatia destes quando, no único filme produzido pela sua produtora indepentente Marilyn Monroe Productions, The Prince and The Showgirl/O Príncipe e a Corista, título no qual pôde colocar o seu dedo nas decisões de produção, a sua personagem pouco ou nada tem de emancipador ou, enfim, “feminista”?), Marilyn Monroe, figura definitivamente não etiquetável (como hoje sói hoje fazer-se no tribalismo das redes sociais), teve nos seus filmes e nas personagens neles desempenhadas um constante e perturbador “reenvio” para a sua vida pública e privada (se é que elas se distinguem). Frequentemente, as suas personagens biografam, ecoam ou antecipam aquilo que a Monroe actriz atravessa na sua vida pessoal, desde o início marcada pelo infortúnio e o sofrimento (sem pai biológico e com a mãe internada num hospital psiquiátrico, viveu em orfanatos e famílias de acolhimento, sendo abusada física, psicológica e sexualmente pelo caminho, bem como vítima de violência doméstica na vida adulta). De facto, talvez tenha sido a única actriz na história do cinema cuja personagem é nomeada nos créditos de um filme (The Seven Year Hitch/O Pecado Mora Ao Lado, 1955, de Billy Wilder) sem nome próprio (apenas como “The Girl”) pelo facto de, como escreveu João Bénard da Costa, tal personagem ser nada mais, nada menos do que… ela própria, Marilyn Monroe.
Finalmente, e tendo em conta o desconhecimento do público mais jovem sobre quem foi, de facto, Marilyn Monroe, o programa permite também, num tempo em que o machismo e a misoginia recrudescem sem pudor através das redes sociais, da “manoesfera”, enfim, dos “influencers”, bem como, claro está, de movimentos políticos ultra-conservadores (a começar na terra-natal de Monroe, actualmente sob a alçada de um governo de extrema-direita), pensar e debater criticamente o papel de Monroe e da Mulher enquanto agentes de emancipação e transformação política e cultural.
Francisco Noronha
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