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Recorrer a uma frase feita para falar de alguém com meio século dedicado à promoção da leitura é quase uma heresia, mas a vida de Rui Vaz Pinto dava mesmo um livro. Numa conversa com a Agenda Porto, o homem que há 48 anos está na direção da Unicepe respondeu a cada pergunta com recordações de serões culturais, gente “fora de série” ou viagens marcantes, como aquela no Chile em que confraternizou com amigos de Neruda, passou horas num autocarro com freiras e mapuches, e dormiu embalado pelo som do Pacífico. Cada resposta chegou com a riqueza de quem, mais do que uma memória enciclopédica, tem uma memória quase poética, capaz de rimar lembranças com qualquer tema.
A propósito da recente passagem da depressão Kristin, por exemplo, Rui recorda como a mãe falava do “ciclone de 1941, que destruiu tudo” em Aldeia dos Redondos, localidade do município de Pombal onde ele cresceu. Foi lá que, por influência de um pai “muito religioso”, começou com oito anos a ajudar na missa, dada em latim. Estava ali a base para uma longa paixão e uma aptidão para idiomas. Logo na comunhão solene, ele e a irmã foram os únicos, entre “para aí uns 500”, a obter 19 valores no exame feito pelo padre.

Rui Vaz Pinto integra a direção da Unicepe desde 1978 | © Guilherme Costa Oliveira
Nessa idade “já tinha a ideia de que havia mais línguas”, devido aos relatos de “um tio-avô que tinha estado na Batalha de La Lys”, na Primeira Guerra Mundial. Mas, depois, “quando soube da Torre de Babel”, ficou “muito triste com Deus, por em vez de permitir que os homens se contactassem ter criado a divisão” [linguística]. O desapontamento foi compensado na juventude, levava já uns anos a viver em Vila Nova de Gaia, quando descobriu o esperanto, a língua artificial mais popular do mundo, criada para facilitar a comunicação internacional. “Fiquei todo entusiasmado com a ideia, mas o Salazar proibia o seu ensino”, conta.
“Até que, em 74, soube que havia aqui um professor, um grande esperantista, que trabalhava na Casa dos Bordados e de quem fiquei amigo até à morte, o senhor Manuel Freitas, que era bahá'í, uma religião de que eu nunca tinha ouvido falar”. Rui explica que se trata de uma fé “pela paz” e que o colega não tinha “nenhuma ação política ativa”, mas a “PIDE chegou a visitá-lo muitas vezes só pelo facto de ser esperantista”. Um homem que, “apesar de ter apenas a quarta classe”, foi “o primeiro a fazer chegar ao Japão textos de Bento Jesus Caraça e Agostinho da Silva”, traduzindo para esperanto esses “dois gigantes”.

A livraria reúne neste momento cerca de 40 mil livros | © Guilherme Costa Oliveira
Vaz Pinto começou a aprender a língua logo nesse agitado ano de 1974, numa formação que é exemplificativa da sua notável capacidade de mobilização: “num dia ou dois arranjei uns 30 para fazer o curso, no Piolho”. Começou então a aplicar o que aprendia em viagens, fosse em hotéis na Bulgária ou num parque de campismo na Eslovénia. Em 1987 esteve numa celebração do centenário da invenção da língua, na Hungria, e participou depois em vários congressos internacionais, tendo organizado uma edição no Porto em 2024.
Há vários anos que, na Unicepe, com base num livro editado pela própria cooperativa, se oferecem cursos de esperanto. “Temos feito um por ano, mas a todo o momento se podem fazer, se houver 10 pessoas interessadas”, explica o diretor. São 22 lições, divididas em 11 sessões, “e fica-se apto para viajar”, diz-nos Rui, cujo fascínio não esmorece: “é uma obra-prima em termos de lógica linguística, não há nada comparável”.

Piano e quadro com palavras em esperanto | © Guilherme Costa Oliveira
As atividades que já são tradição, as novas e as passadas
As formações de esperanto são apenas um exemplo da oferta cultural que sempre acompanhou a venda de livros na Unicepe. Outro é a “mais antiga roda de choro do Porto”, já com mais de 130 edições, que se realiza quinzenalmente nas noites de quarta-feira, atraindo gente de muitas origens. “Nesta última, estava aqui um indivíduo da Bolívia e vou dar com ele a chorar a ver dois quadros do Panamá que temos ali”, conta Vaz Pinto. “Ele toca instrumentos que estão ali no quadro e pôs-se a chorar por sentir que… aqui não é a Bolívia, mas é como se fosse”. Estes serões decorrem numa sala com 50 lugares sentados, ao fundo da livraria, onde já se ouviu muita música. Há umas décadas, o espaço chegou a estar cheio de discos, nomeadamente com o catálogo da Orfeu, do editor Arnaldo Trindade — de quem Rui podia “passar o resto da vida a falar”—, e tinha duas cabines com gira-discos onde os visitantes se podiam encerrar para escutar um álbum (“na altura não havia auscultadores”).
É nessa sala também que, em 2024, começaram a exibir cinema, igualmente de 15 em 15 dias, mas às terças. A ideia surgiu depois da projeção do premiado documentário 1965 | Panreal, um edifício de Nadir Afonso, do cineasta José Paulo Santos, curador da iniciativa que vai já para a 34.ª edição. O filme, como sublinha Rui, acompanha a destruição da panificadora de Vila Real projetada pelo célebre arquitecto e pintor, que “chegou a cozer 80 mil pães por dia e foi destruída para fazer um parque de estacionamento”.
Além da música, do cinema e das apresentações, a divisão também recebeu várias exposições (inclusive chegou a ser “uma espécie de delegação da [Galeria Nicolau] Nasoni”), e inúmeras sessões de poesia, outra das predileções de Rui e das especialidades da livraria. Foram vários os ciclos organizados, por exemplo “um de noites de poesia portuense, com poetas da cidade e arredores já falecidos”. “As pessoas chegavam e inscreviam-se para dizer poemas desse poeta e de dez em dez minutos ia dando a palavra”. Entre cada troca, um músico convidado tocava uma canção. “Funcionou lindamente durante vários anos”, recorda, saudoso. “Eram só [autores] mortos”, pois, segundo a sua experiência, "nas sessões de poetas vivos todos se atropelam, nem deixam acabar de ouvir o poema anterior para ir dizer o poema deles”, aclara sorridente.
Lembra, com afeto, o seu amigo Jorge Lino, poeta que participou em vários recitais, como o dedicado à leitura d’O Sermão de de Santo António aos Peixes, quando se cumpriram 400 anos do nascimento do Padre António Vieira. Destaca ainda a última vez em que o amigo “disse poesia em público”, numa sessão que a Unicepe evocou António Gedeão – a filha do escritor, Margarida Carvalho, mandou parar a declamação de Lino ao fim do primeiro poema, emocionada, “agarrou-lhe no braço e disse: eu tenho ouvido muitas pessoas a dizer bem o meu pai, mas nunca ouvi nada assim”. “Era um assombro ouvi-lo”, remata Vaz Pinto.
A par da programação no interior da livraria, a cooperativa organizou já 235 “Jantares da Amizade”, convívios que durante muitos anos foram mensais, mas que, “devido ao aumento de preços nos restaurantes depois da pandemia”, agora se realizam apenas em ocasiões especiais, seja o aniversário da Unicepe ou de alguma personalidade, seja a propósito de um evento (como o encontro “Viagem às nascentes da língua portuguesa”, que periodicamente junta “um grande grupo de escritores vindos de Brasília”). Já receberam à mesa “convidados de todo o mundo, como por exemplo uma japonesa que anda há 40 anos a estudar os naufrágios das caravelas portuguesas e veio aqui apresentar a sua tese de mestrado”.

Sala com meia centena de lugares sentados | © Guilherme Costa Oliveira

Vistas para a "Praça dos Leões" e a Igreja do Carmo | © Guilherme Costa Oliveira
Livros e mais livros para “quem já lê”
Se juntarmos as apresentações de teses e dissertações académicas às dos novos livros, a Unicepe recebe, em média, duas sessões por semana. Rui aproveita para destacar a que está marcada para 11 de abril, sábado, às 16 horas, dedicada à obra A Casa de Nuvem, que reúne todos os livros de poemas de Inês Lourenço. “Ela vai ser homenageada na Feira do Livro, mas lá é muito barulhento, não resulta, tem que ser aqui, em silêncio, com anónimos a dizer a poesia”.
O presidente da direção detalha que desde que a cooperativa foi criada, a 19 de novembro de 1963, já passaram pelas suas estantes mais de 70 mil títulos. Ao número somam-se diariamente cerca de 10 dos 50 livros que se publicam por dia em Portugal, “o que é um exagero para um país que lê tão pouco”. “Aqui temos um público mais exigente”, explica Rui. “Alguns [autores] que se dizem bestsellers, ninguém compra aqui”, diz, pois “quem entra para associado da Unicepe é uma pessoa que já lê, portanto, tem mais critério, é mais exigente – daí que haja alguns livros que entram cá e depois não se vendem, desses que dizem que vendem centenas de milhares de exemplares”.

A cooperativa recebe cerca de 10 novos títulos por dia | © Guilherme Costa Oliveira
A cooperativa também lançou publicações. “Nós não queremos ser uma editora propriamente dita, mas por causa destas relações todas, já editámos 40 livros”, revela, antes de exibir o mais recente, Venezuela, a montanha acima das nuvens: uma hipótese de crónica, “um livro importantíssimo, oportuníssimo, do jornalista Rui Pereira”. Dá também o exemplo da obra Camões, grande Camões, um trabalho de mais de duas décadas do seu antigo professor António Ruivo Mouzinho, um homem que tinha “70 mil livros lidos” – “lidos!”, repete o velho aluno para confirmar que entendemos bem. Mostra-nos ainda Barro e Luz, uma compilação dos poemas de Ermelinda Xavier, publicada em 2016 após 40 anos de recusa a convites de Vaz Pinto, que recorda que na apresentação a autora disse tratar-se do “dia mais feliz” da vida dela.
Ao 63.º ano de atividade, a cooperativa atingiu já o associado 8106, número que engloba, claro, muitos que já faleceram ou que foram viver para longe. “Evitamos a palavra ‘sócio’, para distinguir do capitalismo”, ressalva Rui. Ainda assim, com as cotas em dia, ultrapassam o milhar (a contribuição anual foi de 7,50 euros durante muitos anos e passou em 2023 para os 12 euros). Convidado a elencar alguns associados “ilustres”, Rui dá como exemplo três professores de referência, que denotam a longa ligação entre a cooperativa e a Universidade do Porto (UP), cuja reitoria se pode ver das janelas: o matemático Ruy Luís Gomes (expulso da UP durante a ditadura após reclamar contra a prisão de uma aluna pela PIDE), o médico Nuno Grande (“homem que revolucionou aqui a endocrinologia”) e o economista Carlos Pimenta (fundador do Observatório de Economia e Gestão de Fraude). Destaca também dois artistas de renome na cidade, o escultor José Rodrigues e o pintor Armando Alves (do Grupo dos Vintes, fundadores da Cooperativa Árvore), antes de garantir que “podia dar muitos mais exemplos”. “Temos reconquistado alguns associados, o objetivo é recuperar algumas centenas que têm estado afastados”, explica, ciente de que “muitos estão a chegar aos 80, 90 ou 100 anos”. “Precisamos de jovens como de pão para a boca!”, alerta.
É que a Unicepe nasceu mesmo da juventude, já que “era um projeto de estudantes com consciência [política] acima da média”, que “criaram a República 24 de Março”, um tipo de organização estudantil que nos anos 60 tinha tradição em Lisboa ou Coimbra, mas “que não havia no Porto”. “Começaram a pensar em ter livros proibidos e livros mais baratos”, e cogitaram criar uma associação, mas o professor Armando de Castro desaconselhou-os, já que o regime tornava “muito complicado” o processo. Quanto às cooperativas, como as autoridades “ainda estavam a deixar fazer”, seria a melhor opção. “E assim nasceu a Unicepe”, inicialmente na Rua de José Falcão, “e acabou resistindo”.
Rui não estava no grupo fundador, mas como começara a trabalhar ali perto, na Rua de Ceuta, passou pouco depois “a frequentar”. Tinha “as mesmas regalias” por ser associado do Cineclube do Porto, mas só em 1972 é que entrou para a Unicepe, depois de chegar da Guerra do Ultramar. Esteve em Angola, e juntamente com alguns camaradas, “dava a ouvir Luís Cília, Sérgio Godinho, Zeca Afonso” aos companheiros de “21, 22, 23 anos”, que hoje ainda lhe recordam como essas canções, escutadas “baixinho”, foram importantes para a sua “tomada de consciência”.
Na tropa chegou também a trabalhar em contabilidade e administração, a sua área de estudos. “Comecei na contabilidade aqui na CIFA – Companhia Industrial de Fibras Artificiais –, era a maior empresa de fibras químicas de Portugal”. Passou depois por várias empresas, também de outros setores, como os curtumes ou o mobiliário: “fui secretário-geral da APIMA, Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins, foi uma experiência gira”. Lembra quando foi como representante nacional a a uma reunião com 15 países em Bruxelas – numa altura em que “já tinha investido bastante em línguas” – e teve protagonismo por ser o único, além da pessoa que presidia o encontro, que falava italiano. É que apesar de vir dos números, Vaz Pinto acaba sempre a falar das Letras.

Rui Vaz Pinto com um dos 40 títulos editados pela Unicepe | © Guilherme Costa Oliveira
A “loucura boa” do pós-25 de Abril que quase foi fatal
O entusiasmo dos membros da Unicepe com a Revolução foi tão grande que quase levou ao fim da cooperativa. “Nessa ânsia de fazer chegar o livro aos trabalhadores, chegaram a comprar uma carrinha e a ir levar livros às fábricas”, conta o rosto da direção. “Depois não controlavam a cobrança e vendiam a crédito, que é uma coisa que nunca se deve fazer nas cooperativas”. Chegaram até a ter “uma delegação ali na Rua de Faria Guimarães” e outras fora da cidade, “uma em Santarém, outra em Viseu”. “Houve falta de controlo, com aquela loucura – uma boa loucura! –, o entusiasmo daquele mundo novo, e houve muito crédito dos fornecedores, portanto, foi-se vivendo à custa de acumular dívidas”, explica à Agenda Porto.
Rui foi contratado em 78 para tentar reverter as coisas. Numa primeira reunião de urgência, ficou a saber que “o passivo era mais de quatro vezes o ativo”, que não havia quem vendesse livros à Unicepe e que “já tinham despedido muitos trabalhadores, mas ainda havia uns sete ou oito”. Portanto, “aquilo tudo indicava que devia fechar”. Mas conta que no fim do encontro, o principal fornecedor, que era associado e tinha sido um dos fundadores, aceitou arriscar e disse: “amanhã já ponho aqui muitos livros”.
Já com quase 20 anos de experiência, Rui Vaz Pinto pôs as contas em dia e a cooperativa foi saldando as dívidas, apesar de terem tido de reduzir o pessoal. Atualmente contam apenas com duas trabalhadoras, mas o presidente da direção recorda também o esforço de muitos amigos, como Maximiano Silva, “que aos 21 anos já era gerente de um banco e foi um homem dos seguros”, mas que depois da reforma trabalhou na Unicepe “dos 80 aos 100 anos, voluntariamente”. “Dava entrada a todos os livros à mão – o título, o autor, o editor, as condições de compra, a data de compra, o preço –, tudo sem um erro”, detalha Rui. “Numa última fase fazia-o já com duas lupas”.
Vaz Pinto ainda conserva esse “livrinho”, tal como muitos outros registos, meticulosamente anotados em papel ou no site da organização. Rui armazena também milhares de horas de gravações em vídeo (incluindo em 8mm) das atividades realizadas ao longo dos anos, à espera de “uma pessoa de confiança” que o ajude a converter o material para formatos atuais.

Banca de imprensa na livraria | © Guilherme Costa Oliveira
O percurso de seis décadas da cooperativa foi reconhecido pela autarquia, primeiro em 2014, quando Rui Moreira lhe atribuiu a Medalha de Mérito, grau ouro, e depois em 2020, quando passou a integrar o programa Porto de Tradição. Vaz Pinto espera agora reunir-se com o município para reativar o projeto de substituição do letreiro exterior da Unicepe, que caiu de velho. Um placard necessário para que quem passe na “Praça dos Leões” saiba que ali, no primeiro andar do número 128A, há não só uma rica atividade cultural e as ricas histórias de Rui, mas também cerca de 43 mil livros à espera de serem lidos.

A Unicepe fica na esquina de duas das mais famosas praças do Porto | © Guilherme Costa Oliveira
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