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Rubrica

“Todos somos deuses, todos somos estrelas. Não mais escravos! Não mais trabalho, não mais dinheiro. Queimemos o dinheiro na fogueira dos índios!”, clama-se no longo tema que abre A Odisseia de Carlos Bizarro, terceiro disco de Sereias. A ânsia de abalar os alicerces mentais do público continua a guiar a banda, mas, desta vez, é apresentada com uma certa continuidade narrativa. O que não significa que tenham abandonado o fascínio pelo caos.
A viagem que propõem é guiada por Carlos Bizarro, personagem que herdou o nome de um heterónimo que António Pedro Ribeiro “tinha entre os 19 e 25 anos”, altura em “que publicava poemas e artigos de opinião no Correio do Minho e no DN Jovem [antigo suplemento do Diário de Notícias]”. Nascido num mês histórico para a agitação social, o Maio de 68, o vocalista-performer do grupo explica à Agenda Porto que Bizarro “é uma espécie de poeta louco” criado há quase quatro décadas, nos tempos boémios em que “Braga tinha uma banda em cada esquina”.
Foi na cidade minhota que António Pedro se ligou a projetos musicais como Mana Calórica, Las Tequillas ou Ébrios, mas o seu campo artístico sempre foi a escrita. Publicou 19 livros, sobretudo de poesia, entre os quais Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro ou O Poeta Underground Passeia-se na Cidade com Dioniso e Jim Morrison. É sociólogo e foi jornalista, esteve em movimentos políticos estudantis ou partidários e fez uma pré-candidatura nas últimas presidenciais, apresentando-se como “anarco-nietzscheano-guevarista”.

©João Pádua
Poesia, sociologia, jornalismo, política: Ribeiro quer apontar o dedo ao mundo, virá-lo do avesso, aperfeiçoá-lo, no papel e na rua. Em A Floresta, a tal faixa que serve de prólogo ao álbum, o seu heterónimo faz um macrorretrato crítico do capitalismo durante 14 minutos hipnóticos. Ruma-se a um novo mundo, onde se ergue um renovado ser humano com filósofos gregos, Cristo e Camões à mistura. Carlos Bizarro, “perseguido por demónios, via inimigos em todo o lado, mas depois da cura” regressa a um paraíso sem castração, escravatura ou controlo, onde “não há pressas, nem pressões, nem depressões”, “só o reino da paz e do amor e da harmonia e do prazer”, proclama o narrador. “O mundo é nosso, não é dos patrões nem dos políticos”, sentencia no clímax da canção.
“A utopia não é uma fantasia nem é uma quimera”, diz agora António Pedro. “A construção de uma sociedade nova, com liberdade absoluta e amor infinito, não é impossível, é realizável e não é para daqui a dois mil anos, apesar de as coisas estarem aparentemente muito más”. Este ideal atravessa a extensa canção inaugural, cuja gravação foi improvisada tanto pelo letrista como pelo resto da banda.
Entre a espontaneidade instrumental e a gaveta do poeta
“Os títulos das letras do [António] Pedro são os títulos das músicas, portanto, as letras seguram a música”, explica, noutra conversa com a Agenda Porto, o teclista Niels Meiser, ao falar do método de composição de Sereias. “Nós criamos depois um tema central, que tentamos repetir, mas também varia”, ideia aprofundada pelo baterista João Pires, um dos fundadores da banda: “muito vem de improvisação e caos”. Para o baixista Tommy Hughes, outro dos precursores do grupo, “geralmente o grande desafio é encaixar num poema dele, alguns escritos há já muito tempo”. “Ele escreve muitas coisas, mas para Sereias é um tipo de poesia específico”, muitas vezes retirado da “gaveta”, complementa Niels.
Depois de O País a Arder (2019), um primeiro disco mais cru e mais livre, e de Sereias (2022), álbum mais equilibrado, mais maduro”, segundo a própria banda, publicaram agora um trabalho mais conceptual, ainda que não tenha resultado de uma aposta consciente desde início. “Como é que a ideia surge? Se soubéssemos, estávamos ricos!”, ironiza Tommy. Assumem que compuseram o instrumental em torno dos versos e, segundo Niels, “a ideia da odisseia chegou mais tarde, por sugestão do João”.
O tom de protesto catártico contra a sociedade de massas continua em Esquizofrenia e Macacos, alertando para “a lavagem ao cérebro” aplicada a gente “em fila”, símios “que se vigiam uns aos outros” durante a “corrida por um lugar e uma carreira”. A alegoria é trocada, na quarta faixa do disco, Extrema-Direita Fascista, por um apelo sem paninhos quentes: “é preciso pará-los custe o que custar”. E na quinta, chamada A P*ta da Revolução, Bizarro deseja que a mudança chegue e depressa.
“Ou nos revoltamos, ou morremos”, defende Ribeiro, que mostra grande preocupação com as alterações climáticas e diz que “as pessoas andam distraídas com telemóveis, com computadores, com a Internet, com a competição do dia a dia e a luta pelo estatuto, pelo poder… dá-se demasiada importância ao dinheiro, acho”.

©João Pádua
A mão viva que apadrinha os seus pares
“Uma mistura de post-rock e kraut em progressão contínua, tenso, obsessivo, massacrante, em jogos de texturas e piscar de olhos ao free-jazz e à música contemporânea e mesmo a algum tribalismo”, escrevia Adolfo Luxúria Canibal no texto que apresentava o segundo disco de Sereias, em 2022. São muitas as etiquetas usadas habitualmente para definir o som da banda, que os próprios integrantes apelidam de “punk jazz pós-aquático”. Mas, pela sua natureza experimental e de confronto, a juntar ao facto de o seu canto ser falado, e logo por alguém com ligação à movida bracarense dos anos 1980/90, parece natural relacioná-los com os Mão Morta.
“São um bocado como os Velvet Underground, em Portugal toda a gente que toca em bandas de rock foi influenciada diretamente ou indiretamente pelos Mão Morta, ainda mais se tens um cantor que não canta, declama”, afirma Tommy, embora admita que cada um em Sereias tem “influências diferentes”. A verdade é que nas apresentações ao vivo do primeiro disco começaram a reparar na repetida presença de Luxúria Canibal entre o público. Segundo o baixista, pensaram: “se veio a mais do que um concerto é porque gostou minimamente”. E, por isso, convidaram-no a escrever o tal texto introdutório. Adolfo salientava o “caldeirão sónico” do grupo, que se juntava à “voz psicótica” de António Pedro, “ora gritada ora murmurada ora declamada, ora colérica ora depressiva, e a sua poesia bruta, de poeta de café em invectivas contra o mundo ou em lamentações existenciais”. Numa recente reportagem do Público, o vocalista dos Mão Morta definia Sereias como “um viveiro experimental e vanguardista que existe no Porto”.

©João Pádua
Em A Odisseia de Carlos Bizarro, a colaboração estreitou-se, com Luxúria Canibal a escrever e a dar voz ao tema Beber por Beber, uma espécie de fuga autodestrutiva da personagem principal, que deixa de retratar o mundo para se alienar dele. Uma música que acaba por se ligar ao tal texto de 2022, quando Adolfo falava do seu amigo António Pedro abandonado ao “fado da inadaptação social e da carência afectiva que o faz cair ‘no fundo do copo, no fundo do abismo’, por entre farrapos de melodia”. É verdade que, além da ferocidade contra o capitalismo, em Sereias sempre houve também angústias interiores e fragilidade, o que neste terceiro trabalho se sente na sétima canção, Menina, com um narrador mais humanizado, ainda que ambíguo. Ou mesmo em Satã, capítulo que fecha a viagem, que embora possa soar à aceitação do colapso ou a um salto no abismo, é, afinal, “um poema de amor”, segundo explica o autor: “baseia-se num filme do Coppola, o Drácula de Bram Stoker” e fala numa “numa vingança por causa de uma mulher por quem me apaixonei loucamente”.
Paula Guerra, professora da Faculdade de Letras do Porto especializada em criação artística e movimentos de contracultura, terminava um texto sobre A Odisseia de Carlos Bizarro com a seguinte frase: “num tempo em que tudo compete pela atenção, Sereias insistem na urgência da criação artístico-musical enquanto gesto político-poético que nos lembra que, mesmo em tempos distópicos, narrar este mundo de caos, de desigualdade, de crueldade é um ato profundamente político”.
Do Porto, mas com muito mundo dentro
Apesar da intensidade das palavras, nos ensaios da banda fala-se pouco. O disco de estreia, por exemplo, saiu de quatro horas de gravações num só dia. Há um continuum de urgência no que tocam, um agir em cima da hora que tem tanto de rotura como de contemporâneo. E perante o lado instintivo, efervescente, das composições, “os poemas conseguem... cut through it”, diz João Pires. É inglês que o baterista explica como vão diretos ao assunto, talvez uma herança dos 13 anos que viveu em Londres.
Pires criou a banda com o baixista Tommy Hughes, filho de britânicos, quando ambos regressaram à Invicta. Os restantes membros foram sendo convidados pouco a pouco: primeiro o luso-alemão Niels Meisel e António Pedro Ribeiro, já referidos, depois Ra-Yacov (sopros), que viveu na Suíça, Marrocos e Roménia, e ainda a dupla que forma a banda Montes – a venezuelana Arianna Casellas (vozes) e o brasileiro Kauê Gindri (na guitarra, em substituição de Sérgio Rocha que estava na formação inicial). Gente com percursos nas artes plásticas e performativas, de diferentes gerações, com mais ou menos anos de ligação ao Porto.
É na cidade, pois, que a 23 e a 24 de abril, às 18h45, Sereias vão apresentar pela primeira vez ao vivo o novo disco, no espaço da Lovers & Lollypops, editora responsável pela publicação. Niels promete que será “uma espécie de aquecimento para o 25 de Abril” e Tommy, entre risos, garante que quem lá for irá “sair uma pessoa completamente diferente”. Para o confirmar terão de ir ao concerto e, ao contrário do que fez Ulisses para sobreviver às sereias na mãe de todas as odisseias, destapar os ouvidos.
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