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maio 2026
Sabias que o Ginkgo biloba é uma espécie considerada fóssil porque existe desde o tempo em que os dinossauros andavam na Terra? Ou que o teixo (Taxus baccata) é uma árvore muito venenosa, mas a indústria farmacêutica descobriu na sua toxicidade (taxina) propriedades anticancerígenas? E que esta árvore, considerada sagrada pelos celtas, era plantada à entrada das igrejas para “afastar o diabo”? Estas são apenas algumas (entre muitas) curiosidades que podemos descobrir durante uma visita da Rota das Árvores.
“Não é bastante não ser cego / Para ver as árvores e as flores.” Os versos de Alberto Caeiro podiam servir de bússola à nova edição da Rota das Árvores: ver implica aprender a olhar. Entre abril e novembro, ao terceiro sábado do mês, oito visitas temáticas percorrem vários jardins e parques do Porto para revelar “a vida escondida” na paisagem urbana. São percursos focados na descoberta das árvores e dos espaços que as acolhem, sendo que cada um deles oferece “uma imersão na biodiversidade urbana e nos locais que testemunham a evolução da paisagem portuense”.
Mais do que passeios, são exercícios de atenção: cada trajeto cruza biodiversidade e histórias, a maioria deles conduzidos pelo arquiteto paisagista João Almeida, que sublinha que o objetivo fundamental é “aproximar as pessoas das árvores”. “Queremos quebrar esta barreira que ainda existe entre os humanos e as árvores.”

Primeira visita da Rota das Árvores 2026 © Ana Caldeira
A Agenda Porto acompanhou a primeira rota que percorreu os jardins do Palácio de Cristal, da Quinta da Macieirinha e da Casa Tait. Uma das monumentais araucárias à entrada dos Jardins do Palácio de Cristal serviu de ponto de encontro às mais de trinta pessoas que se inscreveram na atividade. Antes do início do percurso, Conceição Almeida, coordenadora técnica do Futuro – O Projeto das 100 Mil Árvores, lembrou que existem no espaço público da cidade “mais de 75 mil árvores”, 236 das quais classificadas como de Interesse Público.
Depois, durante cerca de três horas, João Almeida guiou os participantes (muitos deles munidos de máquinas fotográficas e cadernos) pelos três espaços previstos no roteiro. Natural do Ribatejo, a viver há mais de duas décadas no Porto, o arquiteto paisagista evoca o gosto em transmitir conhecimento como principal motivo para estar ligado à Rota das Árvores, desde a primeira edição, em 2017. “Gosto muito de ensinar às pessoas coisas novas, especialmente sobre árvores, que acho que ainda é um mundo bastante desconhecido, e é muito gratificante perceber que há interesse [nestas visitas] e ver também a reação das pessoas”, conta.
No entanto, faz questão de sublinhar que o objetivo “não é debitar informação”. “Muitas vezes, há pessoas que já têm algum conhecimento e vêm aprofundar e tirar dúvidas. A minha intenção é que isto seja mais uma conversa; gosto muito que interajam comigo. Isso faz com que a visita seja mais leve e acho que assim o conhecimento passa melhor para o outro lado”, conclui.
Ao longo do percurso, são muitas as paragens junto de diversas árvores, mas João Almeida não se limita a falar delas “enquanto espécie”: “tento sempre fazer uma aproximação, às vezes até mais carinhosa, sobre alguma árvore em particular, de forma a que a visita não seja só debitar informação científica”.

João Almeida com uma folha de Ginkgo biloba © Ana Caldeira
Este ano, há uma novidade relativamente às edições anteriores: além dos jardins públicos e históricos, as visitas estendem-se a novos espaços, como o Parque da Asprela e a Quinta de Salgueiros, “que foi agora recuperada para um projeto de biodiversidade da Câmara Municipal”, o Porto Biolab. “Vamos dar a conhecer esses dois espaços, que são mais recentes, para as pessoas perceberem que os jardins continuam a aparecer no Porto, não são apenas uma coisa do passado”, refere o arquiteto paisagista.
Nesta edição, as visitas focam-se também nos serviços de ecossistemas, ou seja, nos benefícios essenciais que a humanidade retira diretamente da natureza. Fala-se dos "benefícios materiais e imateriais que retiramos das árvores": "dão-nos fruta e sombra, purificam o ar e a água, criam solo", explica, sublinhando também a sua importância para a saúde mental. "Não há nada melhor para nos acalmar do que um passeio num jardim, a olhar para as árvores e a ouvir os passarinhos, ou seja, a fauna que elas suportam.”
Segundo o especialista, o nosso olhar muda quando conhecemos as árvores e as plantas e sabemos chamá-las pelo nome: “conhecer é fundamental para proteger”, vinca. “É importante percebermos para o que é que estamos a olhar porque assim compreendemos melhor e valorizamos mais. Acaba por se resumir a isso.”
Para o arquiteto paisagista, as árvores são “verdadeiros monumentos verdes”, como declara junto a um centenário tulipeiro da Virgínia plantado no jardim da Casa Tait, e que está classificado, desde 1950, como Árvore de Interesse Público.
Rota 2: “Na Boavista, há tâmaras, lagos e árvores de papel”
A próxima visita está marcada para 16 de maio (as inscrições ficam disponíveis em EcoAgenda a partir das 21h do dia 5) e vai percorrer três espaços na zona da Boavista: o jardim da Casa-Museu Marta Ortigão, a Praça de Mouzinho de Albuquerque e o Cemitério de Agramonte. "Começamos na casa da sobrinha de Aurélia de Sousa; uma habitação nunca estreada, onde se esconde um lago e um jardim de árvores de papel. Da residência de Marta Ortigão vamos até à feira, que já foi de São Miguel, dos Moços e do livro. A Praça de Mouzinho de Albuquerque já foi tudo e tem de tudo, até tâmaras! Por fim, terminamos em Agramonte, num cemitério romântico que nasceu da cólera.”
“São três espaços muito diferentes e também com funções diferentes — um começou por ser um jardim privado, outro é um espaço público e o terceiro é um cemitério — mas que em comum têm as árvores”, afirma João Almeida.
“Acreditamos que, com estes percursos, despertamos a curiosidade nas pessoas, que depois continuam a aparecer nas visitas seguintes”, diz, com satisfação. É o que esperamos que aconteça já a 16 de maio.
A Rota das Árvores é uma iniciativa do Município do Porto.

João Almeida © Ana Caldeira

© Ana Caldeira
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