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O triunfo dos jogos analógicos
Três espaços que promovem eventos com jogos de tabuleiro no Porto: para descontrair, aprender ou para ‘fritar’ o cérebro
Reportagem Mar26 Jogos Tabuleiro

março 2026

Reportagem Mar26 Jogos Tabuleiro

© Guilherme Costa Oliveira

Em meados dos anos 2000, o universo dos jogos de tabuleiro no Porto cingia-se à hoje extinta loja de jogos XXL, na Avenida dos Combatentes. “Era muito difícil comprar jogos fora do mainstream e encontrar com quem jogar”, recorda Pedro Silva, do Grupo de Boardgamers do Porto, que viria a formar-se organicamente em 2006, no decorrer da abertura daquele espaço. Ainda sem nome, o grupo começou a promover encontros semanais e gratuitos na loja, que foi também o primeiro local a acolher a Invictacon, a convenção anual de jogos de tabuleiro do Grande Porto. Mais tarde, com o fecho da XXL, os encontros migraram para a esplanada do Tropical Burger, no Cristal Park.


Esse foi um período de grande crescimento do hobby, apenas estancado pela pandemia, que motivou também o encerramento do Tropical. Desde então, o grupo tem tido uma vida seminómada, com encontros semanais, em diferentes espaços, e mensais na Casa do Alto, na Maia, mas é um de vários a promover eventos com jogos de tabuleiro na cidade.


O boom de anos recentes, alavancado pela sede de convívio vinda da pandemia, pela divulgação em sites e fóruns online e pelo crescimento do setor em Portugal, fez com que os jogos de tabuleiro se espraiassem pela cidade. Hoje, multiplicam-se no Porto os espaços dedicados ao hobby, mas também os cafés com prateleiras de jogos e/ou recetivos a acolher jogadores, e os grupos que organizam estes eventos na cidade. A Agenda Porto foi conhecer três destes espaços.


Reportagem Mar26 Jogos Tabuleiro

© Mariana Rollo

Portal


Anna Lisnévskaia, Antón Startsev e Tatiana Krasnorútskaia eram vizinhos em Moscovo, mas só se conheceram quando se mudaram para o Porto, em 2023 e 2024, respetivamente. Entusiastas de longa data de jogos de tabuleiro, começaram por procurar espaços na cidade com as condições e dimensões adequadas para cada tipo de jogo, mas acabavam sempre limitados ou de casa às costas. Então, decidiram desenhar um espaço à medida das suas necessidades: o Portal – Board Game Cafe & Bar, situado no n.º 420 da Rua de Álvares Cabral, e inaugurado em julho de 2025.


“Isto começou como um pequeno clube de jogos de tabuleiro da comunidade russófona, porque as pessoas não tinham um sítio onde se pudessem encontrar para jogar”, contextualiza Tatiana. Além de acolher as várias comunidades de jogadores residentes no Porto, de locais a russófonos a outros imigrantes e expats, o trio almejava uma maior integração na vida da cidade. “Como organizamos eventos em várias línguas, conhecemos pessoas de várias origens que chegam até aqui para jogar, mas depois ficam nossos amigos”, explica Antón.


A multiculturalidade está bem presente na coleção do Portal, que inclui jogos de tabuleiro em português, inglês, francês, espanhol e russo. Além dos clássicos jogados em família à mesa de Natal ou entre amigos, como Monopoly ou Catan, há títulos incontornáveis da cultura geek como Dungeons & Dragons e outros RPG (Role Playing Games, jogos em que os participantes interpretam personagens), jogos de dedução social como Mafia (também conhecido como “A Aldeia Adormece”), populares jogos de cartas como Magic: The Gathering e outros TCG (Trading Card Games, jogos de cartas colecionáveis) e os chamados wargames (jogos de estratégia que simulam cenários de guerra, históricos ou fictícios, habitualmente com miniaturas), como Warhammer.


Também os LARP (Live Action Role Playing Games) têm lugar de destaque no Portal. “É como se fosse uma festa em que os jogadores desempenham os papéis atribuídos e atendem às necessidades das suas personagens”, elabora Antón que, enquanto master, cria cenários e orienta jogadores há 15 anos. “Queremos apresentar este formato aos portugueses.”


A primeira sessão está prevista para este mês de março, a par dos eventos habituais dedicados a jogos de tabuleiro em geral, ou eventos dedicados a um determinado jogo ou tipo de jogo (Dungeons & Dragons ou Magic: The Gathering, por exemplo). A agenda muda semanalmente e é, normalmente, divulgada nas redes sociais no fim de semana anterior à semana a que diz respeito ou no início dessa semana. Além dos eventos principais, há atividades paralelas como workshops de pintura de miniaturas ou de linogravura.


Reportagem Mar26 Jogos Tabuleiro

© Mariana Rollo

De portas abertas para jogadores novatos e experientes, o Portal guia-se por um princípio de proximidade no acolhimento das pessoas que ali vão. “Damos-lhes as boas-vindas à porta, falamos sobre o que está a acontecer naquele momento e sobre os formatos que temos, e perguntamos-lhes sobre o nível de experiência ou envolvimento que têm com o hobby”, explica.


Há, igualmente, um cuidado em adaptar a abordagem feita consoante o número e perfil dos jogadores. “Tentamos perceber de quanto tempo dispõem, se estão dispostos a aprender regras novas ou se só querem relaxar e precisam de algo fácil”, completa Tatiana. A partir dos dados recolhidos, a equipa apresenta um leque de escolhas razoável.


As possibilidades são (quase) infinitas. Mesmo quem vem sozinho tem muito com o que se entreter. “Temos vários jogos para uma pessoa e não são aborrecidos!”, garante Anna, entre risos. Existem, ainda, vários jogos adequados para duas pessoas, o que faz do Portal um local inesperadamente romântico. “Há uns dias, um rapaz pediu-me uma recomendação de um jogo porque ia ter um primeiro encontro aqui, e a rapariga adorava jogos de tabuleiro”, recorda Antón.

A componente social é um dos grandes motores do hobby, observa Tatiana. “Quando estamos a jogar, é muito fácil fazer amigos, porque o jogo dá-nos algo sobre que falar e torna esse início de conversa muito mais fácil.”


Apesar de se focar, primordialmente, nos jogos de tabuleiro, o Portal também funciona como bar e café. A elasticidade do conceito foi pensada para atrair novos públicos, mas sobretudo para assegurar que ninguém fica de estômago vazio. “As pessoas vêm depois do trabalho, estão a gastar energia e a fazer trabalho mental, queremos que tenham tudo o que precisam para descomprimir.”


Inicialmente, foi testado um modelo de consumo mínimo no café e bar, mas atualmente está a ser experimentado outro: é cobrada uma taxa de 3€, valor que permitirá continuar a expandir a coleção e melhorar o espaço.

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© Mariana Rollo

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© Guilherme Costa Oliveira

Quebra-Dados


Carolina Dias aventurou-se no mundo dos jogos de tabuleiro em 2016, depois de espreitar uma sessão de Dungeons & Dragons recomendada pelo algoritmo. Costumava jogar os clássicos com a família, mas foi nessa altura que começou a jogar semanalmente nas lojas que, à época, organizavam eventos. Por lá encontrou um grupo com quem testar jogos narrativos como D&D e outros jogos de tabuleiro. Durante uma viagem a Copenhaga, Carolina e a melhor amiga, Sara, visitaram um café de jogos de tabuleiro com vários pisos e ficaram fascinadas. Foi Sara que lhe lançou o desafio de criar a Associação Quebra-Dados.


“Não havia um espaço no Porto que agregasse a comunidade e em que as pessoas pudessem vir e pegar em qualquer jogo num horário mais pós-laboral”, reconhece a fundadora. Formalizada em 2019, e assente num modelo que permitiria usar os jogos para promover projetos sociais, a Quebra-Dados abriu portas no n.º 82 da Rua de Brito de Capelo em fevereiro de 2020, com uma enchente de mais de cem pessoas. Pouco depois, a pandemia obrigou-a a fechar.


Sem perspetivas de obter retorno do investimento feito pelos membros da direção, a nível financeiro e de trabalho voluntário, para lançar o projeto, a Quebra-Dados viveu um período difícil que foi possível ultrapassar, numa primeira fase, com apoio da Câmara do Porto e um “senhorio compreensivo” e, mais tarde, com recurso a uma campanha de angariação de fundos. Quando foi possível reabrir, os jogadores responderam em força. “Estávamos cansadíssimos de estar no ecrã e notou-se uma sede de estar com pessoas, de falar com os outros cara a cara.”


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© Guilherme Costa Oliveira

Desde então, a procura tem crescido consistentemente e não só se tornou possível cobrir as despesas fixas da associação como pagar às pessoas que servem no bar. Os associados pagam uma quota anual de 12€ e os restantes jogadores pagam 1,50€ para jogar qualquer jogo, sem limite de tempo.


A agenda da Quebra-Dados inclui dias dedicados a determinados jogos, como torneios de Warhammer, sessões de Dungeons & Dragons para iniciantes, encontros focados no jogo Blood on the Clocktower, realizados semanalmente de forma alternada para principiantes ou experts, ou demonstrações de Beyblade. Alguns grupos preferem jogos digitais e reúnem-se semanalmente para jogar Smash Bros. ou Street Fighter, por exemplo. Também há workshops de pintura de miniaturas.


Existem, ainda, eventos mensais como o Domingo em Família, em que as famílias são convidadas a aparecer para jogar e a misturar-se umas com as outras; o Encontro Mensal de Roleplayers do Porto, dedicado a jogos narrativos e RPG, e o Meeple Meet-Up, um evento para pessoas que queiram conhecer novas pessoas com quem jogar, organizado em inglês.

“Desde cedo, criámos grupos regulares que vêm todas as semanas ou todos os meses”, conta Carolina. “Ao fim de semana, principalmente, começou a aparecer muita gente nova, porque os jogos analógicos, no geral, estão a ganhar uma popularidade muito grande.” Para a presidente da Quebra-Dados, a tendência decorre de uma viragem no entendimento social da importância do lazer. “As pessoas começam a compreender que fazer casa-trabalho-casa não é tão saudável quanto isso e que são precisos os chamados terceiros espaços.”


Também fenómenos da cultura pop, como a série televisiva Stranger Things ou a websérie Critical Role, que integraram D&D nos seus enredos, ajudaram a projetar os RPG e a trazer mais pessoas para este universo.

A dimensão social da Quebra-Dados, que já envolveu parcerias com a Câmara Municipal do Porto e a União de Freguesias do Centro Histórico para promover sessões de jogos de tabuleiro com crianças em bairros sociais e nas escolas, ou com mulheres vítimas de violência doméstica, continua a ser prioritária.


Atualmente, existe um grande projeto ativo, o Grow.Dice.Study, que oferece diferentes valências a partir dos jogos, como apoio ao estudo e explicações, ensino de língua e cultura portuguesa a crianças estrangeiras e ensino de inglês para todas as idades, e sessões de jogos de tabuleiro variados que desenvolvem competências como o raciocínio, a socialização e o planeamento estratégico.


Além de voltar a trabalhar com escolas e expandir a sua atuação no âmbito social, a associação pretende, futuramente, alcançar novos públicos, nomeadamente as camadas mais seniores. Este objetivo já está a ser ensaiado através de uma parceria com o Alquimia, projeto do Coliseu Porto, que já promoveu visitas ao espaço. “Alguns participantes que vieram experimentar tornaram-se associados.”

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© Guilherme Costa Oliveira

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© Rui Meireles

Ponto 2


Sónia Lerma veio passar férias ao Porto para visitar uma amiga portuguesa que conhecera no Peru, mas gostou tanto da cidade que nunca mais arredou pé. Médica de profissão, já dava uma mãozinha nos negócios de restauração do marido na Argentina, mas foi há cinco anos que decidiu mudar duplamente de vida. Nos primeiros tempos, trabalhou nas cozinhas e copas de cafés e restaurantes locais para “conhecer os hábitos e os gostos das pessoas e aprender palavras”. Em julho passado, comprou o Ponto 2, mesmo à saída do metro da Casa da Música e, logo depois, inaugurou um cantinho dedicado aos jogos de tabuleiro.


“Foi um cliente habitual, o senhor Augusto, que é muito ligado aos jogos e integra os Camera With No Name, que propôs fazer o primeiro evento”, recapitula Sónia, que até então conhecia pouco mais que os family friendly Monopoly ou Pictionary. Aceitou sem hesitar, não fosse ela uma acérrima defensora do convívio à volta de uma mesa.


“A ideia é incentivar a partilha de momentos entre família e amigos, seja à semana, depois do trabalho, ou ao fim de semana, e promover uma maior comunicação longe dos ecrãs”, refere.


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© Rui Meireles

Tal como fizera com a restauração, Sónia procurou mergulhar no mundo dos jogos de tabuleiro, pesquisou sobre o que já existia e foi a eventos dedicados como a Vianacon. Depois, uniu forças com quatro grupos que organizam eventos focados neste hobby – Camera With No Name, CuboCuboCubo, Engrenagem Lúdica e Porto Torto – para conceber uma programação regular. “Eles já fazem parte da casa.” Geralmente, os grupos preparam as dinâmicas e tratam de convidados, se os houver, e passam os detalhes a Sónia, que apetrecha o espaço, sobretudo o bar. “À medida que o jogo vai terminando, eles começam a ter fome”, afirma.


Regra geral, é disponibilizada a carta habitual, mas podem ser confecionados outros petiscos a pedido. No verão, há uma grelha à disposição para fazer churrascos. A comida é parte integrante do alinhamento, seja de forma mais óbvia, como nos Meeples & Mozzarella, serões de jogos descontraídos e acompanhados por pizzas, ou mais subtil, nas restantes sessões.

O cardápio é extenso e inclui itens como a Tarde de Jogos, dirigida sobretudo a famílias, ao fim de semana, a Noite de Jogos, para o público em geral, à semana, o Heavy Day, dedicado a jogos de pôr a cabeça em água, o Boardgame & Quiz, evento que junta as duas modalidades, e o Team Up, evento focado em jogos cooperativos. Na programação paralela, o Traz o Teu Jogo desafia os jogadores a tirar o pó aos jogos que têm em casa e a Noite de Protótipos permite ver e experimentar jogos em desenvolvimento, com a presença de designers envolvidos no processo. Há, ainda, apresentações e lançamentos de jogos e mercados de jogos em segunda mão.


O calendário é publicado mensalmente nas redes sociais e o acesso à maioria dos eventos funciona com base no donativo consciente, que serve para apoiar os grupos na organização dos eventos e na manutenção dos 120 jogos da ludoteca. Algumas sessões requerem inscrição prévia e têm um custo associado, geralmente entre 2€ e 5€.


Também Sónia tem vindo a cultivar o gosto por este hobby nas suas pausas. “Há dias em que isto está mais parado e vou lendo e aprendendo”, relata. Quando fica a ver, nota que há vários jogos que saem constantemente da estante, sobretudo pelas mãos de jogadores casuais, como Camel Up, Trash Travellers, Smart 10, Flip 7 ou Porto.


Atualmente, vão jogar ao Ponto 2 crianças com os pais e avós, grupos de adolescentes, estudantes universitários e outros jogadores de vários níveis e nacionalidades. Para a responsável, o próximo passo é integrar a Língua Gestual Portuguesa (LGP) nas sessões, para que todos possam jogar. “Mas primeiro temos de ter umas aulas”, conclui.

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