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setembro 2026
Num domingo de manhã, o silêncio dá lugar ao movimento ao fundo da Rua do Barão de Nova Sintra, no Bonfim. Caminhantes humanos e patudos assomam de ambas as pontas da via e detêm-se diante de um palacete oitocentista grafitado e entaipado, cumprimentando-se com a cumplicidade de quem sabe ao que veio.
É da casa-viveiro onde residiu Aurélio Paz dos Reis (1862-1931), cineasta- floricultor e pioneiro do cinema português, que sairá Fantasmas a Oriente, o 17.º percurso dos Caminhos a Oriente, programa do Matadouro — Centro Cultural do Porto que convida o público a caminhar para redescobrir o Vale de Campanhã e a zona oriental da cidade.
Maria Dias, de 61 anos, é uma veterana das caminhadas participadas que arrancaram em março passado. Aficionada desta atividade nos tempos livres, já fazia outros percursos pedonais e visitas guiadas como as do programa municipal Porto Saudável e os passeios com Germano Silva. Estreou se a oriente com o empurrão de uma amiga, que soube do programa do Matadouro online.
“Sinto-me muito ignorante em relação à cidade quando venho fazer os Caminhos”, confidencia Maria. Nascida e criada nas proximidades do Estádio do Dragão, circula há largos anos pela zona, mas reconhece que só agora está a experienciar aquele território na sua totalidade. “Há recantos muito engraçados que antes me passavam ao lado.”
Enquanto Maria conversa com a Agenda Porto, o grupo liderado pelo cineasta Eduardo Brito mergulha nas entranhas do vale através da Calçada de Nova Sintra. Depois da descida, seguem pela Rua da Formiga em direção à Rua da Presa Velha, um corredor que preserva a ruralidade e a informalidade da Campanhã de antanho, habitado por uma sinfonia de cães a ladrar e comboios a passar.

Maria Dias é presença assídua nos Caminhos a Oriente

Maria do Céu, moradora na Ilha do Pardal, recebe os caminhantes
Nesta paisagem convivem casas de “brasileiros torna-viagem”, hortas, tanques comunitários e bairros operários como a Ilha do Pardal, onde os caminhantes param para escutar a moradora Maria do Céu, que traçou o mapa da sua vida em três ilhas da freguesia. “Campanhã é uma nação”, clama, liderando, de seguida, o grupo numa interpretação espontânea da “Chulinha” de José Mário Branco.
Dali, os participantes avançam para a Rua do Freixo, eixo fundamental desta geografia que, como vários outros arruamentos situados à face da estrada, dava a Maria Dias a ilusão de saber o território de cor. “Desço o Freixo muitas vezes para fazer caminhadas e, até vir fazer estes percursos, não imaginava o que estava aqui para trás”, ressalta, acenando com a cabeça na direção da linha de habitações das ilhas da Agra e da Alegria, na Rua da China.

O cineasta Eduardo Brito orientou o 17.º percurso do programa
O estabelecimento de pontos de contacto entre os diversos trajetos desenhados é intencional, segundo Ana Rocha, curadora do eixo Criação — Territórios Imaginados, um dos três que compõem a iniciativa, e a que se reporta a sessão deste dia. “Normalmente, passamos por sítios com que nos cruzámos noutros caminhos, mas olhando-os de formas diferentes”, assinala.
As várias camadas de vivências, memórias e afetos que se destapam a cada caminho, e que atravessam as dimensões histórica, geográfica, industrial, social e paisagística do Vale de Campanhã, constituem a grande riqueza do programa, de acordo com Maria Dias. “Uma pessoa chega ao domingo e tem sempre vontade de vir, porque há sempre coisas novas [para ver e aprender].”
Paralelamente, a caminhante destaca o ambiente familiar e descontraído que carateriza estes percursos e que contrasta com o tom cerimonial das visitas guiadas convencionais. “Uma vez, no final de um caminho, fomos todos almoçar”, exemplifica. Aqui não há uma separação clara entre orientador e público, mas antes uma vontade partilhada de observar, interpelar e interpretar a cidade que cabe dentro destas coordenadas, criando com ela uma nova relação.
O ponto de chegada desta deriva é prova viva desta dinâmica. Na Praça da Corujeira, depois de um percurso assente no “caminhar como gesto cinematográfico”, nas palavras de Eduardo Brito, os participantes são desafiados a imaginar o local onde Aurélio Paz dos Reis pousou a câmara de cinco quilos que terá trazido do seu palacete para captar a feira de gado que ali decorria.
A partir de um frame dos escassos dois segundos de imagem que chegaram aos nossos dias, uns analisam o traçado da praça no século XIX e outros examinam a posição do arvoredo ou da luz para encontrar pistas. No final, há diversas opiniões e respostas, mas apenas uma certeza: ainda há muito(s) caminho(s) para fazer.

Fotografias © Inês Aleixo
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