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Mural de Mura, BALUARTE 2023 © Andreia Merca
nov 2026
No Porto, foi nos anos 90 que as manifestações de grafíti começaram a ganhar maior expressão ligadas à cultura hip-hop, à escrita de nomes e tags e à ocupação informal do espaço público. Mas, durante muito tempo, a relação institucional com estas práticas foi repressiva. A viragem começou a acontecer apenas em 2014 com a criação do Programa de Arte Urbana do Porto (PAUP), durante o mandato de Rui Moreira, que quis integrar a street art na própria identidade cultural da Invicta, e que até hoje promoveu mais de duas centenas de intervenções em espaço público.
Em 2023, a BALUARTE — Exposição de Arte Urbana do Porto, cuja primeira edição ocupou o antigo Quartel de Monte Pedral, abriu um novo capítulo. O projeto assumiu uma dimensão mais expositiva e reflexiva: não apenas produzir murais, mas mostrar, discutir e pensar a própria arte urbana. Nas edições seguintes, a BALUARTE instalou-se no Silo Auto, cruzando criação artística e encontro com o público. A quarta edição acontece de 13 a 15 de novembro, na zona das Fontainhas, nomeadamente na Escola Básica do Sol, no Passeio das Fontainhas e no Abrigo dos Pequeninos, espaço que será intervencionado pela artista Catarina Glam.

Fox, de Catarina Glam na Expodemo 2022, Moimenta da Beira © DR
Lisboeta a viver no Porto, Catarina Glam é uma artista visual cujo trabalho se foca na criação de personagens e ilustrações que materializa através de pinturas, esculturas e intervenções públicas. Após um percurso inicial pelos universos do grafíti e do papercraft, encontrou na pintura mural e na escultura com materiais mais resistentes a possibilidade de aumentar a escala das suas criações, permitindo que ganhassem presença no espaço envolvente. “O meu trabalho é muito gráfico porque venho do design gráfico; desenho personagens e faço ilustrações com universos ou narrativas que dão origem a obras materiais, que podem ser pintura e escultura públicas”, conta à Agenda Porto.
No âmbito da BALUARTE, no jardim do Abrigo dos Pequeninos, vai desenvolver uma escultura em ferro, partindo de conceitos como “a fantasia, a brincadeira e as memórias de infância”. O objetivo é que seja “uma obra interativa”.

Catarina Glam © Renato Cruz Santos

Polar Light, Catarina Glam, 2018 © DR
A sua identidade estética é um reflexo do seu interesse por geometria e carpintaria, explorando sólidos regulares como ponto de partida para desenhar as suas peças de arte. “Como estudei design, comecei a fazer esculturas em papel, daí as formas serem facetadas. Depois, fui evoluindo para outros materiais e para outras escalas, o que condicionou a minha técnica; eu não faço escultura por desbaste, porque não sou escultora, mas queria fazer escultura, porque gosto muito, e arranjei o meu próprio processo”, explica. “É uma forma de trabalhar em plano e construir sem ter de ser como um bloco que se vai desbastando, como acontece na escultura em pedra”, elucida a artista, que pretende que as suas peças “agradem a pessoas de todas as idades”. “Eu sei que as minhas obras são lúdicas e, portanto, tornam-se muito apelativas para as crianças, mas gosto que suscitem curiosidade em todo o tipo de público.”

Mural de Catarina Glam feito com alunos do Colégio de Nossa Senhora da Esperança no âmbito do Programa de Arte Urbana do Porto, 2023 © Rui Meireles
Glam mostra-se satisfeita com a evolução da arte urbana na cidade e no país e lembra que, anteriormente, “não existia enquanto profissão”. “Os artistas perceberam que conseguiam fazer coisas mais interessantes e começaram a fazer murais mais elaborados, desenhos mais bonitos, e trabalhos para clientes particulares, como hotéis e restaurantes.” Neste sentido, a artista sublinha, também, o papel das autarquias, que “passaram a olhar para a arte urbana como uma possibilidade de reabilitar espaços e de criar algo que fosse agradável aos olhos do público, ou seja, de embelezar” as cidades, tendo este posicionamento contribuído para que “os artistas se profissionalizassem nesta área”.
Glam tem já vários murais assinados no Porto, mas a intervenção no Abrigo dos Pequeninos será a sua primeira escultura pública na cidade.
Ilustradora e designer, natural de Oliveira de Azeméis, Leonor Violeta participou na última edição da BALUARTE e integra o PAUP deste ano. Desde que aprendeu a pegar no lápis, nunca mais parou de desenhar — percurso que a levou a aventurar-se na ilustração. À Agenda Porto conta que o que distingue o seu trabalho são “muitas cores vibrantes e formas planas, sintetizadas e depuradas, as composições simples e um olhar mais imediato, uma coisa meio infantil e mais genuína de olhar para as coisas”. Leonor procura criar uma ligação imediata das pessoas às suas pinturas. “Tenho um bocadinho de dificuldade em lidar com o ruído e, nas cidades, tudo [acontece] ao mesmo tempo, a toda a hora. Para mim, só faz sentido fazer coisas que tenham uma presença forte, mas simples ao mesmo tempo.”

Leonor Violeta no seu estúdio © Guilherme Costa Oliveira
Na pintura mural, Leonor encontra uma forma de aproximar a sua “paixão muito grande” pela arquitetura da prática artística, intervindo diretamente sobre os espaços — uma possibilidade que encara como “uma conquista”. Mas essa relação não se esgota nos espaços e estende-se também a quem os habita ou atravessa. “A interligação com o público, com as pessoas que passam, com o seu dia a dia, é importante para mim, e eu penso nisso quando estou a desenvolver as minhas propostas.”
O erro, admite, já ocupou “um lugar mais dramático” na sua prática, fruto do seu perfeccionismo. A pintura mural obrigou-a, porém, a aceitar o imprevisto como parte do processo: “Ao fazer murais, o erro vai acontecer, e as imprevisibilidades também vão acontecer, porque, por mais que tenhamos as medidas, há sempre alguma coisa que vai sair [do planeado]. Com o tempo, aprendi a lidar com o erro, e é uma forma de me surpreender no final.”
A artista admite que, quando cria, não gosta de partir de “uma folha em branco”, preferindo que lhe seja dado um mote. Neste sentido, aponta como um dos projetos que lhe deram grande satisfação a pintura mural no âmbito do bicentenário do escritor Camilo Castelo Branco, a convite da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N). “Eu entrego-me bastante à pesquisa, leio os livros propostos. Para o mural do Camilo, havia uma lista de livros, e eu decidi que queria trabalhar o Cabeça, Coração e Estômago porque achei que ia conseguir transpor o meu trabalho, a minha linguagem.” Sobre este mural, acrescenta, ainda, que “tem recebido feedback de muitas pessoas que reconhecem que é seu”. “É bom ver pessoas ‘fora da bolha’ a falar sobre os murais da cidade.”

Mural inspirado na obra Cabeça, Coração e Estômago © DR
No âmbito do PAUP, até ao final do ano, Leonor fará uma intervenção num Ponto de Transformação na Avenida do Dr. Antunes Guimarães. “Curiosamente, é um sítio que frequentava bastante quando era miúda, porque o meu pai vivia naquela zona. Vai ser um trabalho com formas depuradas, simples, cores muito vibrantes e com um olhar ainda mais infantilizado do que o costume, vai ter umas borboletas”, adianta. Causar alegria é, pois, um dos seus objetivos. “Quero ir à procura desse olhar que todos temos em nós, mas que às vezes desaparece. Há uma vontade que as pessoas passem e se entusiasmem por uma simples coisa e que se alegrem.” A propósito, a artista acrescenta, ainda, que a cidade “é muito séria” e que “precisa de cor”.
Sobre o panorama da arte urbana na cidade, destaca “muitas iniciativas que criam espaços para os artistas” e que são “uma coisa que pode ser cuidada”. “Claro que também há o grafíti e essa parte toda mais urbana, mas é importante conseguir criar espaços para artistas de vários estilos e formas de estar para que possam mostrar o seu trabalho”, conclui.

Leonor a pintar mural na Concha Acústica dos Jardins do Palácio de Cristal, que acompanhou a Feira do Livro do Porto 2023, no âmbito do programa de Arte Urbana do Porto © Rui Meireles
A viver em Portugal há cinco anos, a artista brasileira Giulia Yoshimura, mais conhecida como Mura, tem um trabalho que cruza arte botânica, investigação científica e pintura mural, a partir da pergunta: por que nos custa reparar nas plantas que nos rodeiam?
A formação em arquitetura deixou em Mura uma marca importante porque a ensinou “a compreender os lugares de uma perspetiva tridimensional”, que considera “fundamental” para a arte urbana, uma vez que as pinturas “saem da tela e passam a integrar edifícios, muros e outros elementos da cidade”. Segundo a artista, a arquitetura pô-la a pensar o espaço urbano “de uma forma mais democrática, cruzando a arte com a própria ideia de cidade”. Foi ainda durante o curso que começou a pintar paredes e nunca mais parou.
Em 2021, inscreveu-se no Mestrado em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. A investigação que desenvolveu para a sua tese, intitulada Do invisível ao visível: o corpo vegetal, em torno da chamada “cegueira vegetal”, nasceu de uma “obsessão” com flores que herdou da sua avó, que também era pintora. À medida que o seu interesse se foi intensificando, começou a perceber que as outras pessoas não olhavam para as plantas da mesma forma.

Mura junto do mural Passiflora © Renato Cruz Santos
As pinturas de Mura procuram “levar as pessoas a reparar na natureza para lá da sua condição de cenário”. Interessa-lhe que as plantas deixem de ser apenas elementos da paisagem e passem a ser entendidas como “seres vivos, ativos e importantes”. Quando desenvolve um mural, gosta de “misturar diferentes referências, dando espaço às espécies locais, mas também às plantas que encontra no seu quotidiano”. A artista tem o hábito de fotografar as flores que encontra pelo caminho e muitas acabam por chegar aos seus trabalhos. A escolha das espécies pode partir “tanto de uma ligação pessoal como de uma vontade de estabelecer uma relação com o lugar onde o mural é criado”. Neste sentido, considera importante trazer plantas locais para determinados espaços, sobretudo porque “uma espécie reconhecível pode ser uma forma eficaz de comunicar com quem passa”.
No seu trabalho, a escala é uma componente essencial e, por isso, pinta flores gigantes. “Quero trazer [para os meus murais] essa grandiosidade; não me interessa fazer muitas flores pequeninas. Gosto de fazer uma inversão da escala para que o ser humano se sinta pequeno.”

© Renato Cruz Santos
A relação entre Portugal e o Brasil também atravessa as suas pinturas e está representada num dos seus trabalhos mais emblemáticos, Passiflora, na Escadaria do Monte do Tadeu, criado em 2022 no âmbito do PAUP. Um dos seus “primeiros choques”, recorda, aconteceu quando lhe ofereceram um maracujá em Portugal e não reconheceu imediatamente a fruta. A imagem que tinha do maracujá era diferente, associada a uma variedade amarela e maior. A experiência tornou-se simbólica das semelhanças e diferenças entre os dois países. Foi também este mural que acabou por lhe “abrir portas” para festivais e projetos internacionais. Mais tarde, junto ao Passiflora, a artista pintou tulipas, uma flor que nunca vira no Brasil. A experiência aconteceu durante o seu primeiro inverno no Porto, numa altura em que o frio e a ausência de flores lhe transmitiam uma sensação de tristeza. “Quando as tulipas apareceram foi como um mar quente nesse inverno frio, rigoroso”, recorda à Agenda Porto. Desde então, associa-as à resistência durante o inverno. Para Mura, a natureza funciona como uma espécie de espelho das suas próprias experiências: aquilo que vive internamente acaba por encontrar correspondência nas plantas e nas paisagens que representa.
A relação com o espaço público do Porto é também marcada pela comparação com o Brasil. Mura considera que lá a arte urbana surge “de forma mais espontânea, tanto pela facilidade em estabelecer contacto com os proprietários dos muros” como pela própria dimensão do vandalismo, que faz com que “a cidade seja ocupada com ou sem permissão”. No Porto, identifica “mais barreiras” à intervenção artística, embora considere que têm vindo a ser progressivamente ultrapassadas. Defende que seria importante facilitar mais o acesso ao espaço público “permitindo que a arte ocupe a cidade de uma forma mais orgânica”. Ao mesmo tempo, considera que o Porto tem sabido “acolher muito bem” os artistas que chegam de fora e considera que a sua arte “foi recebida de forma positiva”.
No âmbito das celebrações dos 50 anos da Associação de Moradores de Massarelos e do Projeto FONTE — Ateliers Comunitários de Massarelos, apoiado pelo orçamento participativo da União das Freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos, Mura esteve, durante um ano, a desenvolver uma instalação comunitária de pintura em tecido com a comunidade local que resultou na criação de uma obra artística e num mural que será inaugurado durante este mês.

BALUARTE 2023 © Rui Meireles

Draw e Alma, dupla Ruído © Inês Aleixo
Antes do projeto Ruído, existiam dois percursos individuais ligados ao grafíti. Draw (Frederico Soares Campos) e Alma (Rodrigo Guinea Gonçalves) começaram a pintar sem se conhecerem e só mais tarde os seus caminhos se cruzaram.
Em 2011, passaram a trabalhar juntos, mas a colaboração estava ainda distante da linguagem que hoje os identifica. Pintavam, sobretudo, em fábricas abandonadas e hall of fames, ainda muito ligados ao universo do grafíti. Frederico começou, entretanto, a experimentar a representação de rostos nas paredes, enquanto Rodrigo desconstruía as letras e explorava uma linguagem mais abstrata. A complementaridade revelou-se natural e a colaboração tornou-se progressivamente mais frequente.
A partir de 2017, os trabalhos passaram a ser quase sempre conjuntos. Durante algum tempo, continuaram a assiná-los com os nomes individuais — Draw e Alma —, mas os convites começaram também a chegar-lhes enquanto dupla. Nas redes sociais, a autoria nem sempre era evidente: “As pessoas não percebiam. Quem nos conhecia percebia, mas quem não [conhecia], não sabia se eu fazia caras, se fazia abstratos”, recorda Rodrigo. A criação de um nome comum e de um site próprio veio finalmente assumir e profissionalizar a colaboração.
O nome Ruído surgiu da procura por uma palavra capaz de traduzir a linguagem que desenvolveram. A resposta estava, em parte, na própria rua. As sobreposições de camadas e imagens, os cartazes rasgados, as tags de grafíti e a “sujidade” visual do espaço urbano alimentam a estética da dupla e encontram eco no nome escolhido.

Ruído © Inês Aleixo
Quinze anos de trabalho conjunto tornaram o processo de criação a quatro mãos bastante orgânico. Antes de começarem uma obra, Frederico e Rodrigo desenvolvem uma composição com colagens, recortes e sobreposição de imagens. Frederico fotografa aquilo que pretende representar ou, quando o trabalho parte de um contexto histórico, recorrem a arquivos e bancos de imagens. Cartazes, bilhetes e flyers também podem entrar nas composições.
Apesar da autoria conjunta, cada um conserva um território plástico próprio. Frederico ocupa-se da componente figurativa, enquanto Rodrigo trabalha o abstrato, as texturas e a cor. A divisão não é estanque e há espaço para a intervenção de um sobre o trabalho do outro e, sobretudo, para o improviso. Neste sentido, Frederico recorda uma exposição recente na Bélgica, em que estava a trabalhar num estúdio diferente e entregava depois as peças a Rodrigo, que podia rasgar os desenhos, acrescentar elementos ou fazer sobreposições, criando camadas.
Quando o suporte é a rua, o contexto entra inevitavelmente na obra. Em cada projeto, a dupla procura perceber o lugar, a envolvente e as pessoas que o atravessam, sem deixar que essas circunstâncias condicionem a criação. A proximidade de uma escola, por exemplo, pode ser tida em consideração, tal como a arquitetura do edifício ou da parede, que muitas vezes contribui diretamente para o resultado final. Até elementos menos desejados — como publicidade ou outras interferências visuais — acabam por fazer parte do contexto com que é necessário dialogar. Por vezes, a própria paleta cromática incorpora elementos encontrados na área envolvente.
Essa atenção prolonga-se até ao modo como documentam as suas obras. Sobretudo quando pintam fora de Portugal, Frederico e Rodrigo procuram que os registos mostrem não apenas o seu trabalho, mas também o espaço
onde este se encontra. “Gostamos que o exterior seja a moldura da nossa peça”, explica Rodrigo. A arquitetura, sublinha, não lhes pertence, mas participa na leitura do trabalho.

Le Temps, Mons, Bélgica, 2023 © Ruído
A dupla acompanhou de perto as transformações da arte urbana na cidade, desde uma altura em que predominava o grafíti e as primeiras experiências de street art aconteciam ainda num contexto ilegal. Ao longo dos anos, assistiu à mudança da perceção pública sobre estas práticas e ao aparecimento dos primeiros eventos dedicados à arte urbana na cidade. Frederico identifica o Street Art AXA Porto como “um possível ponto de viragem”, por ter mostrado à cidade e aos seus visitantes “a capacidade artística e criativa” de uma comunidade que já existia e trabalhava no Porto há vários anos, com linguagens que iam das letras à ilustração e, posteriormente, à street art.
Na perspetiva da dupla, o PAUP continua a ter uma escala reduzida quando comparado com aquilo que acontece em cidades mais pequenas, como Viseu, Bragança ou Vila Real. Reconhecem, contudo, “sinais de ambição” para o fazer crescer. Frederico espera que possa agora acontecer “um salto” no programa, “com projetos de grande escala, boas intervenções e artistas relevantes”.
Antes desta fase de maior reconhecimento institucional, houve lugares fundamentais para a formação dos dois artistas. Rodrigo recorda alguns “muros icónicos” ligados ao grafíti portuense, como os muros do Foco e da Fábrica Faísca, pintados por artistas mais velhos que eram referências para a geração seguinte. Quando começaram a afastar-se do grafíti e a experimentar outras possibilidades ligadas à arte urbana, as fábricas abandonadas transformaram-se também “em espaços de experimentação e construção de portefólio”. Frederico destaca, ainda, o papel da galeria Circus Network e do PUSH, Festival de Ilustração e Arte Urbana Porto, em 2014. A experiência que, entretanto, acumularam em projetos internacionais reforça a convicção de que o Porto pode fazer mais nesta área. “A arte urbana tem de ser encarada com seriedade, tal como a música, o cinema e o teatro são”, refere Rodrigo.

Promessa, Vila Real © Ruído
A entrada de uma linguagem nascida na rua em galerias, instituições e projetos comissariados não é, para a dupla, necessariamente contraditória. Frederico considera que cabe também aos artistas defenderem a sua liberdade criativa. No caso do Ruído, os convites surgem geralmente porque quem os procura “já conhece a sua identidade artística”.
Rodrigo vê o percurso na rua como determinante para a técnica e a estética que hoje caracterizam o Ruído, mas não encara a passagem dessa linguagem para galerias ou projetos institucionais como uma perda de identidade. Pelo contrário, explorar cada vez mais o trabalho de estúdio e o circuito das galerias faz parte das ambições da dupla. O próximo projeto expositivo será apresentado a 22 de janeiro de 2027, na Galeria Underdogs, em Lisboa.
Apesar de o grafíti ser “a sua influência e parte da sua identidade”, hoje, Frederico e Rodrigo assumem-se como artistas visuais. “Os murais continuam a representar uma percentagem muito significativa do nosso trabalho”, referem, mas a dupla continua a ampliar o território da sua prática. “Queremos explorar cada vez mais o trabalho nas galerias; o trabalho de estúdio é interessante para nós a nível criativo.”

Obras no estúdio dos Ruído © Inês Aleixo
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