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Porto de Alta Competição
Mesmo nos dias de inverno, Matias Lopes tem encontro marcado com o mar
Entrevistas
Cresceu na água com influências familiares, mas rapidamente tomou a dianteira da sua carreira, com a certeza do caminho a percorrer. Hoje, Matias Lopes sabe que é no surf que quer ser reconhecido.
Porto Alta Competicao Nov26

novembro 2026

Numa viagem ao início de tudo, Matias recorda que teria uns “três ou quatro anos” quando começou a olhar para o mar de outra forma. Foi durante umas férias em família. Os primos já faziam surf e ele, ainda pequeno, ficava a olhar para eles, entre a estranheza e o encanto. “Foi aí que nasceu essa vontade de querer ir também”, recorda hoje, aos 19 anos.


Foi aos quatro anos que recebeu uma prancha de bodyboard, mas rapidamente percebeu, contudo, que o destino não era por ali. A primeira experiência séria de surf aconteceu num campo de férias da Onda Pura, escola do tio que viria também a tornar-se, mais tarde, o seu treinador. “Foi algo que ainda hoje recordo, uma sensação de algo especial”, assume, a sorrir. A partir daí, vieram as aulas e os treinos. As provas começaram logo depois, aos 10 anos. Os bons resultados, porém, demoraram a aparecer, apesar dos elogios ao seu talento. Foi aos 16 anos que decidiu mudar, com a inclusão de treinos regulares no ginásio e com mais dias dedicados ao surf. “Comecei aí a assumir essa disciplina de ir treinar todos os dias e acho que me fez muito bem”, reconhece o atleta.


E essa mudança (de mentalidade, de postura, de responsabilidade) acabou por trazer resultados. Em 2024, sagrou-se Campeão Regional Sub18, venceu a Go Chill Expression Session, integrada na Liga MEO Porto, na Praia de Leça da Palmeira, e terminou como vice-campeão Sub-18 do Circuito Celta. Ganhar o primeiro campeonato foi, para Matias Lopes, “o melhor sentimento”. “É muito bom, é uma felicidade muito diferente e é para isso que um surfista vive, acho eu.”


O percurso continuou a crescer. Em 2025, foi vice-campeão do Campeonato Luso-Galaico. Este ano, alcançou o 3.º lugar na mesma competição, somando assim mais um pódio aos resultados conquistados.

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Matias Lopes © DR

Disciplina mesmo em dias frios



Matias aprendeu com o tempo que, afinal, “o jeito não é tudo”. Hoje, a disciplina, a preparação e a capacidade de lidar com a derrota fazem parte do seu percurso. E é essa disciplina que faz com que os dias não tenham nuances, que a responsabilidade se cumpra em dias de sol e manhãs de nevoeiro, faça chuva ou faça calor. Mas entrar na água nos dias frios exige ainda mais força de vontade. “Por exemplo, hoje tive treino às sete e meia da manhã. Era a última coisa que eu queria fazer quando acordei: ir para o mar gelado”, admite. Mas minutos depois desse choque inicial, já dentro de água, tudo o resto acaba por compensar. “Quando consigo fazer boas manobras e apanhar ondas que eu acho que são boas, tendo em conta as condições do mar, fico contente e com a sensação de que me diverti.”


Antes de entrar na água, há um ritual que Matias não dispensa: tira cinco minutos para analisar o que o mar lhe tem a dizer. “Muitas vezes, nós vemos uma coisa fora de água e depois, quando vamos surfar, reparamos que está completamente diferente. É muito imprevisível e, muitas vezes, nunca conseguimos saber o que é que vai acontecer.”

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Matias Lopes © Rui Meireles

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Matias Lopes © DR

Viajar pelo mundo e voltar ao primeiro mar



Matias Lopes está agora no escalão Open, onde enfrenta atletas de diferentes idades e níveis. “Entro nas competições a pensar que sei que os meus adversários estão à altura, por isso só preciso de fazer o meu melhor surf.” Se não correr bem, “acho que faz parte, também”. Os atletas Andy Irons e Joel Parkinson estão entre as referências que o inspiram, sobretudo pela liberdade, uma característica que reconhece na sua forma de surfar.


Ao longo dos anos, aprendeu que viajar é importante para evoluir num desporto em que as condições locais nem sempre são suficientes. “O Porto não é um sítio muito bom para o surf, então é sempre preciso investir um bocado nessas viagens e surfar noutros sítios”, reconhece. Ainda assim, o mar do Porto continua a ser o seu maior confidente. Porque, por mais que se viaje à volta do mundo, o primeiro mar nunca se esquece — e os segredos que se partilha com ele continuam a ser a garantia de uma relação que se constrói para a vida.



Matias Lopes é convidado da terceira temporada do podcast Porto de Alta Competição, projeto da Ágora — Cultura e Desporto do Porto que dá voz aos atletas de Alto Rendimento e Elevado Potencial Desportivo.

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