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março 2026
Frederico Castelo Branco é atleta de bodyboard e uma das esperanças da modalidade. Aos 18 anos, participou em várias competições nacionais e já se estreou em provas internacionais, com resultados que o enchem de orgulho. Tem o sonho de ser um dos melhores neste desporto. Para isso, sabe que tem de trabalhar, agarrar as oportunidades e não esquecer o essencial: para ser melhor, é preciso ser humilde, tal como o mar (e os pais) lhe ensinaram.
Frederico aprendeu, por si próprio, que a força humana é quase inexistente quando comparada com a do mar. “Há uns anos, tinha uns 14 anos, fui desafiado por um amigo e fomos até à Nazaré. Estava um mar enorme, daqueles que vemos na televisão. Decidimos entrar. Tentámos fazer algumas manobras, mas acabei por levar com uma onda daquelas gigantes. Apaguei
por uns segundos. Fui arrastado até à costa, cuspi muita água… Mas foi ali que entendi que somos muito pequenos quando comparados com o mar”. A recordação veste-se hoje de sorrisos e de lições que lhe ficaram para a vida.
Frederico Castelo Branco tem 18 anos, seis deles dedicados a um desporto que, mesmo não sendo uma paixão de infância, rapidamente se transformou numa parte essencial da vida. “Tenho uma casa de férias em Mindelo [Vila do Conde] e desde sempre me lembro de ver várias pessoas dentro de água, de prancha na mão.” Aos 10 anos decidiu experimentar o surf, “naquelas aulas que existem ali em Matosinhos”, mas a queda não foi bem para o desporto – foi mais para dentro de água. “Não era para mim, não me conseguia levantar, estava sempre a cair”, conta.
Já que o mar não lhe dava o conforto que queria, decidiu tentar algo em terra. O ténis. Foi feliz, mas não o suficiente para esquecer o mar. Um dia, os pais trouxeram-lhe a (boa) notícia: uma aula experimental de bodyboard na praia à frente de casa. “Porque não?” Frederico não conhecia a modalidade, não conseguia equilibrar-se na prancha, só naquelas de esferovite que usou quando era mais novo, desafiado pelo pai a “brincar” no mar. Tinha 12 anos. Motivado, lá experimentou. Estávamos em agosto de 2019.

© DR
Hoje, seis anos depois dessa primeira aula, é ver o olhar encher-se de memórias que o fazem acreditar que foi aqui que encontrou o lugar onde consegue ser mais feliz. “Gostei da primeira aula, fui sem grande expectativa, mas foi engraçado. Aprendi logo algumas técnicas e fui desafiado a ir experimentar com o nível mais avançado.” Com os mais velhos, entenda-se.
“O primeiro conselho de que me lembro é de nunca ir contra a corrente. Tentar isso é estar numa luta desigual. O ideal é deixarmo-nos ir na corrente, perceber quando ela muda. Meti isso na cabeça desde muito novo”, revela.
Ao longo dos anos, esse encontro quase diário ganhou contornos de uma verdadeira relação amorosa. Da necessidade de o ver, de sentir que tinha algo para lhe dizer, de lhe confessar aquilo que mais ninguém sabia. A relação tornou-se ainda mais séria quando surgiram as primeiras competições. “Foi logo depois da pandemia. A minha primeira [competição] foi o Nacional, em Carcavelos”. Conseguiu bons resultados nessa prova, mas o sonho estava ainda longe, do outro lado do mundo.
“Há três anos, fiz a minha primeira prova internacional, nas Maldivas. Uma experiência gira, nunca tinha ido a um país tão longe do meu. Passámos horas em voos, escalas, até tive um problema lá no aeroporto, não me queriam deixar entrar”, ri. Tinha, então, 16 anos. O amigo com quem foi tinha 18. “A viagem marcou-me muito, consegui bons resultados, participei em duas provas, sendo que fiquei bem posicionado numa delas, em 25.º lugar, com atletas de todo o mundo”, diz.
Frederico Castelo Branco volta sempre a Mindelo, ao mar da infância. A Matosinhos, ao mar das primeiras aventuras. A Leça, àquele que aprendeu a partilhar com outros bodyboarders e surfistas. “Dentro de água, apesar de existir uma pequena rivalidade, temos noção do amor que todos têm por aquele local. Tentamos sempre que haja uma competição boa e saudável”, assegura. É aqui que encontra um mar que o desafia, “com águas mais fortes, ondas mais cavadas e rápidas”.
Hoje é estudante do 12.º ano. Frequenta a Escola Secundária Garcia de Orta, no Porto, com vontade de seguir “gestão ou economia”. Mas o sonho de ser mais e melhor dentro de água continua bem vivo. “Não quero desistir do bodyboard, quero tentar conciliar as duas áreas. Sei que pode ser difícil, mas com disciplina e foco tudo se faz”, assume, com um sorriso de esperança.

© Rui Meireles

© DR
Neste período decisivo, feito de tarefas e exames que o levarão a subir mais um degrau neste caminho, os objetivos desportivos acompanham a nova etapa. Frederico quer que 2026 lhe traga “bons resultados nos campeonatos nacionais”, quer no escalão dele e no superior, no qual também compete. Quer terminar o ano na fase final do Mundial da modalidade, conseguir o título de sub-18 nacional e ficar num top-5 mundial. Pelo meio, quer ter a oportunidade (há muito desejada) de treinar em Bali.
Para isso sabe que poderá contar com todos aqueles que acreditam nele, dos colegas aos amigos, passando pela avó, “com quem tem uma ligação forte e muito especial”, assume. Mas, aqui, sabe que o “obrigado” está sempre guardado para aqueles que, há seis anos, tiveram a coragem (e a visão) de saber escolher por ele. “Se não fossem os meus pais, eu não estava aqui. Quando vou a campeonatos, a família mete-se toda no carro, vamos conhecer os locais onde vou estar a competir. Os meus pais trabalham muito e esta é a forma que arranjamos de estar todos juntos, eles não se importam nada com isso. É ainda uma maior motivação para mim, todos os dias”.
Aliás, foi com eles que aprendeu a maior qualidade que se pode ter quando se encara, todos os dias, um gigante imprevisível: a humildade. “É algo que o desporto me ensinou, quando estou dentro de água consigo perceber a grandeza de algo muito maior do que eu. Aprende-se a ter mais atenção ao resto, a ter noção do nosso papel nas coisas grandes e nas coisas mais pequenas”, revela.
Todos os dias, Frederico pede ao mar a mesma coisa. “Que me dê uma boa onda para aproveitar”. Há dias em que isso acontece. Há outros em que, por mais que se peça, baixinho, o desejo nunca chega. “Mas tento sempre pensar que amanhã será melhor”, finaliza. Porque o amanhã é sempre um novo dia. E o mar é sempre diferente… todos os dias.
Frederico Castelo Branco é um dos convidados da terceira temporada do podcast “Porto de Alta Competição”. Este é um projeto da Ágora – Cultura e Desporto do Porto, que dá voz aos atletas apoiados pelo Programa de Patrocínio a Atletas de Alto Rendimento e Elevado Potencial Desportivo.
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